Memórias do Equador

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Por LUIZ ROBERTO ALVES*

É preciso pensar em distintas linhas de investigação sobre o Equador entre 2015/2016 e 2023/2024, sob pena de se noticiar um punhado de inverdades

Os textos e falas midiáticas portam expressões de uso imediato e, por isso, pressionam a trabalhar com o que está à mão. Este texto, no entanto, é variação de memória, valor de referência para quem viu, conversou e ouviu equatorianos em circunstância pública há sete anos. Ele não representa resultados de pesquisa; somente uma semiótica vivida. Nem por isso deixa de abrir para a pesquisa e o conhecimento do que vai além da luta de gangues ligadas ao narcotráfico, facções importadas e assassinatos desenfreados.

Trata-se de mostrar um conjunto de sinais evidenciados no correr da conferência HABITAT III da ONU. Sediado em Quito de 17 a 20 de outubro de 2016, o encontro dirigido por Joan Clos discutiu amplamente um dos objetivos básicos propostos pela Assembleia Geral, isto é, o desenvolvimento urbano sustentável. Portanto, um tema diretamente ligado aos direitos à cidade, retrato da cidadania.

O Habitat II se realizara em Istambul, junho de 1996, e fora responsável pela criação da agenda da dignidade habitacional e da sustentabilidade, de que decorreu muito empenho em cidades e arranjos intermunicipais ao redor do mundo, fenômeno que continua e diz respeito aos direitos à cidade e à cidade como lugar de todas as pessoas.

Como não poderia deixar de ser, os muitos painéis, mesas redondas e pôsteres vistos e acompanhados em Quito enfatizaram a pobreza mundial, as experiências políticas governamentais, a ação de movimentos sociais e o desejo de encontrar soluções razoáveis…e sustentáveis. Para não ampliar o foco, cabe dizer que o texto final de Quito, denominado “Nova Agenda Urbana”, adere à Agenda 2030 e, embora não tenha exigido cumprimento dos resultados, sugeria “visão compartilhada” de problemas e necessidades. Em 2019 a ONU lançou um documento orientador da Nova Agenda Urbana (NAU/NUA).

Em 2017 foi apresentado internacionalmente o filme Quito Papers: Towards an Open City, dirigido por Dom Bagnato e Cassim Shepard. O filme nasce de um dos notáveis momentos da programação de 2016 na capital do Equador, em que Joan Clos, Saskia Sassem, Ricky Burdett e Richard Sennett debateram um desenho do futuro urbano do mundo, trabalho feito em colaboração de especialistas.

De imediato, qualquer participante da conferência da ONU poderia sentir que o espaço central (Casa de la Cultura Ecuatoriana e Parque El Arbolito) da cidade destinado ao Habitat III era muito animado (30 mil pessoas, 18 mil delas equatorianas), certamente calorento, embora suave nas conversas interindividuais, bastante questionador do futuro das cidades populosas e vigiado por soldados e policiais armados.

Não se viu, no entanto, qualquer problema que afetasse a segurança individual e coletiva, mas o bom sistema de saúde esteve a trabalhar a todo vapor naqueles 2.850 metros de altura. Este colunista foi um dos atendidos em razão da pressão arterial. Ademais, com a lotação dos hotéis e pousadas, o próprio colunista, que demorou a reservar, esteve numa pousada popular em região comercial de Quito, mas central, na qual havia dois cadeados para entrar e sair, com recomendações expressas da gerência e dos atendentes no sentido de ter muito cuidado ao caminhar pelas ruas e, certamente, jamais andar à noite.

O país não exigiu visto dos participantes, exceção feita às pessoas vindas de Eritreia, Bangladesh, Nigeria, Paquistão, Somália, Senegal e Cuba. Portanto, o clima geral do encontro da ONU era para cima, mas convém considerar que um motorista consultado para um passeio ao fim da conferência tivesse sugerido: não vá a Guayaquil, (porque haveria lugares muito melhores para se visitar). Ao fim e ao cabo, o colunista contratou o motorista para um passeio com várias paradas em lugares bonitos e destino “ao centro (ou metade) do mundo”, à latitude zero, espaço tão tranquilo quanto entediante.

Mas não é desprezível estar na “Ciudad Mitad del Mundo”, a despeito da escolha do simpático motorista-guia, que vetou Guayaquil. Pensar a grande cidade litorânea e suas muitas conexões internas e externas implica um volume de alternativas de análise que não se basta seja nas facções do narcotráfico, seja na culpabilização exclusiva do ex-presidente Correia e outros alvos que estão hoje na alça de mira.

Em 26 de julho de 2016, tempo preparatório da conferência, há um documento público do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, via embaixada brasileira no Equador denominado “Retransmissão automática”, originada do ministério homólogo do Equador. Nele se lê – em tradução – que órgãos do governo equatoriano, inclusive diplomatas, responsáveis pela organização do grande encontro, se reúnem, demonstram algumas preocupações com hospitalidade em Quito, boa recepção de autoridades, dificuldade financeira para pagamento de enviados oficiais e outros detalhes.

Em nenhum momento, porém, qualquer pessoa do grupo demonstrou preocupação com a segurança do encontro. O texto é apensado à programação geral do Habitat III. A imagem que transpira é de uma oficialidade imagética de confiança e otimismo, distinta das sensações e opiniões das pessoas do povo, o que também opera a balança das posturas de classe social. Muito possivelmente, os murmúrios e preocupações (sinais e índices) de setores da população estavam a se antecipar às deflagrações midiatizadas, enquanto os espaços do poder estatal tinham preocupações outras.

As linhas de força das mostras apresentadas pelo governo, pelas organizações e pelas universidades equatorianas, em diferentes pontos da cidade, centraram no trabalho das comunidades urbanas e nas relações entre escolas de arquitetura e inovações nas cidades. Não foram destacados (considere-se o difícil papel de país sede!) graves problemas urbanos nas exposições equatorianas. Num conjunto de reflexões de participantes, via-de-regra representantes de universidades e outras instituições estrangeiras, organizadas em seguida ao grande encontro, foi possível encontrar, entre inúmeros elogios, uma informação sobre a existência de cinco equipamentos de raio-x para os 30 mil participantes da assembleia.

Outra reflexão destacou uma questão levantada por um dirigente de um dos painéis: será que os equatorianos terão sucesso em atos urbanos de inclusão, segurança e resiliência, que foram experiências em que Brasil e Colômbia tiveram muito pouco avanço? Consta que não houve resposta indicativa, de modo a intrigar o autor da reflexão copilada pela organização do Habitat III.

Os sinais apoiam o melhor entendimento da totalidade do fenômeno, embora exijam pesquisa criteriosa. No mínimo, se afasta a ideia de uma irrupção de cartéis do narcotráfico, uma espécie de levante abrupto. Mas não autorizam a pensar que o país equatoriano estava há tempo minado por facções e gangues. Ou que Guayaquil fosse um antro e Quito uma vestal. A propósito, surgiram também nas últimas semanas textos de mídia a respeito da “guerra civil” no Equador, sem qualquer rigor analítico. De qualquer modo, é impossível que irrompam gangues externas sem bases locais de sustentação, ou um conjunto significativo de componentes da vida urbana em processo de negação da cidadania; este panorama é dos mais difíceis e exigentes de pesquisa, com vistas a não permitir “chutes” ou conclusões apressadas.

Uma sugestão de motorista de turismo para que se troque uma ida a Guayaquil a favor de “outros lugares melhores” não garante julgamento da cidade, visto que haveria várias razões para o aviso e a escolha, até a distância. No entanto, a linguagem do medo é o índice-medo. Pelo sim, pelo não, o fenômeno também não é desprezível, no mínimo como ponto de partida para um entendimento melhor das percepções coletivas. Não se pode jogar pedras numa cidade por ser portuária, confusa e ter grande população. A questão central é o modo de organização das políticas socio-públicas, se parciais e canhestras, se impostas, se ineficazes e mesmo se de baixo valor comunicacional, o que se associa ao caráter das mídias no país.

Um encontro como Habitat III, com o movimento de 30 mil pessoas ou mais e bons resultados no quesito segurança, sugere uma capital estável e competente. Cidade oficial. A ausência (sentida e reclamada) de equipamentos de segurança e a pouca referência ao tema em documentos preparatórios não significam de imediato desleixo ou irresponsabilidade, mas sinalizam de pronto confiança no aparato comum de controle. Em 2016 o sucesso da assembleia não foi obra do acaso, mas setores da sociedade equatoriana não se enganavam em suas percepções nos sinais que ensejavam a linguagem da desconfiança e do medo. Quantas outras pousadas em zonas populares teriam trancas nas portas e anúncios de nunca andar pelas ruas à noite?

Tudo isso há sete anos em modesta apreciação de observador-participante da Habitat III. E a escolha desse tempo é útil para o entendimento, pois alguns textos de mídia se referem a um tempo brevíssimo do país exclusivamente em função da importação e do desenvolvimento dos cartéis e das facções. Será que a sociedade equatoriana se fundamentou, nos últimos anos, em valores e procedimentos de organização social que, no fundo, já não mantinham o vigor e a segurança conhecidos e vividos? E quais os custos sociais da imagem?

A rigor, é necessário pensar em distintas linhas de investigação sobre o belo país “centro do mundo” entre 2015/2016 (provavelmente antes) e 2023/2024, sob pena de se noticiar um punhado de inverdades e, portanto, negar valores básicos da informação pública.

*Luiz Roberto Alves é professor-pesquisador da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo e membro da Cátedra Alfredo Bosi do Instituto de Estudos Avançados da USP, autor, entre outros livros, de Construir Currículos, Formar Pessoas e Constituir Comunidades Educadoras (Alameda, 396 págs.). [https://amzn.to/42bMONg]


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