A emergência de superbactérias

Imagem: CDC
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Por RICARDO ABRAMOVAY*

O sistema agroalimentar deve passar a ser regido, com urgência, muito mais pela lógica da suficiência que pela obsessão alucinada de aumento da produção a qualquer custo

O insaciável apetite contemporâneo por carnes está destruindo o poder da inovação científica que permitiu, a partir da segunda metade do século XX, salvar milhões de vidas e contribuir para o espetacular aumento global da longevidade. Foi em setembro de 2016 que a Assembleia Geral das Nações Unidas reconheceu o uso inadequado de antibióticos – de medicamentos antimicrobianos em geral – na criação de animais como uma das causas da sua crescente ineficiência.

A resistência antimicrobiana é uma das dez maiores ameaças globais à saúde humana. Segundo estimativas, infecções bacterianas resistentes estão relacionadas à morte de cerca de 5 milhões de pessoas por ano. A continuar neste ritmo, os custos em saúde devem subir a US$ 1 trilhão até 2050, segundo o Banco Mundial. Em todo o mundo, hospitais anunciam a descoberta de superbactérias, e é impressionante ver o mapa global dos estudos científicos sobre o fenômeno.

O mecanismo básico pelo qual as bactérias sofrem mutações que tornam os antibióticos incapazes de combatê-las foi descrito, de forma singela, por Alexander Fleming ao receber o Prêmio Nobel de Medicina de 1945, junto a Ernst Boris Chain e Howard Walter Florey, pela descoberta da penicilina.

“O sr. X. está com dor de garganta. Ele compra e toma penicilina – uma dose não suficiente para matar os estreptococos, mas o suficiente para ensiná-los a resistir à penicilina. Em seguida, ele contamina sua esposa. A sra. X contrai pneumonia e é tratada com penicilina. Como os estreptococos agora são resistentes à penicilina, o tratamento falha e a sra. X morre.” Moral da história, conclui Alexander Fleming: “se você tomar penicilina, tome o suficiente”.

Pouco depois desse alerta, entretanto, o biólogo Thomas Hughes Juke fez uma descoberta, enquanto trabalhava em um laboratório nos Estados Unidos, que revolucionou a produção avícola e que, de certa forma, contraria o cuidado preconizado por Fleming. Thomas Hughes mostrou que a introdução de pequenas doses de antibióticos na dieta de pintos e frangos aumentava a taxa de crescimento dos animais, mesmo na ausência de sinais de doenças.

A era dos antibióticos, que começou em meados dos anos 1940, é marcada pela contradição entre o alerta de Alexander Fleming e os padrões de criação industrial de animais, em que o consumo de antibióticos é crescente e generalizado. Antibióticos passaram a ser usados tanto para estimular o crescimento dos animais quanto preventivamente: a pesquisa científica promoveu transformações que, de meados do século XX até hoje, multiplicaram por cinco o peso médio das aves de criação industrial.

Mas a premissa para a adesão maciça a essa transformação genética é a homogeneidade dos animais, o que permite padronizar a alimentação, o tempo de abate e imprimir uma verdadeira escala industrial à criação. Essa monotonia genética cria o ambiente propício para a multiplicação de vírus e bactérias, que, por sua vez, exigem o uso cada vez maior de antibióticos.

Daí decorre o círculo vicioso descrito por Alexander Fleming: as bactérias sem resistência natural aos antimicrobianos são eliminadas, mas as resistentes se multiplicam em um ambiente em que não encontram competição, o que exige o uso cada vez maior de medicamentos.

Poder industrial e bem-estar animal

Essa padronização produtiva tem por base o controle da genética animal por um punhado de empresas. As carnes da avicultura devem alcançar o faturamento de US$ 422 bilhões até 2025 e contribuir com 41% da oferta de proteína animal até 2030. Segundo o grupo de pesquisa ETC, apenas duas companhias controlam mais de 90% da genética dos frangos de corte do mundo.

É o setor de maior concentração industrial da cadeia agroalimentar, e a escala industrial dessa monotonia genética é alcançada pela padronização dos métodos produtivos, em que o uso de antimicrobianos faz parte do pacote tecnológico que predomina no mundo todo.

A eficiência impressionante na conversão de proteínas vegetais em produtos animais é a marca fundamental desse pacote. Porém, como já denunciava Peter Singer no clássico Libertação animal (publicado em 1975 e atualizado e reeditado em 2023), o sofrimento descomunal de animais de criação é a contrapartida disso.

As mudanças provocam doenças musculares dolorosas, decorrentes do rápido ganho de peso das aves, que, em muitos casos, passam a vida sem ver a luz do sol. Na criação de porcos, as fêmeas são enjauladas no período de reprodução e não conseguem nem dar a volta no próprio corpo.

As tecnologias que permitiram o aumento espetacular na oferta de carne nas últimas décadas se caracterizam pelo desrespeito generalizado à dignidade de seres dotados de inteligência, de capacidade comunicativa e de brincar, que não podem realizar suas propensões naturais mais elementares, o que contrasta com a noção atual de bem-estar animal, que vai muito além da administração adequada de alimento, água e medicamentos aos animais de criação.

China, Brasil e EUA

A produção industrial de carne é uma incubadora de doenças zoonóticas, já que, como consequência da monotonia genética, todos os animais têm o mesmo sistema imunológico. Para que vírus e bactérias não se propaguem nesse ambiente tão propício a infecções, o uso de antimicrobianos e, especialmente, de antibióticos é fundamental. Mais de 70% dos antibióticos produzidos globalmente são destinados aos animais, segundo um estudo publicado na revista Science. A China é o maior consumidor de antimicrobianos veterinários, com 45% do total, seguida do Brasil (8%) e dos Estados Unidos (7%).

É verdade que, em alguns países, foram implantadas regulamentações que permitiram uma queda drástica no uso desses medicamentos. Na Noruega, por exemplo, são usados 8 miligramas de antimicrobianos por quilo produzido, enquanto, na China, são 318 miligramas por quilo.

Os dados brasileiros sobre esse tema não são transparentes. Uma pesquisa de campo realizada em um polo de produção suína em Minas Gerais indicou o uso médio de nada menos que 434 miligramas por quilo de carne. Embora esse uso seja proibido no Brasil desde 2020, o estudo mostra a facilidade com que antibióticos para uso animal podem ser adquiridos no interior do país –e, pior, indica o aumento do uso dos medicamentos em relação ao constatado em pesquisa anterior, de 2017.

É claro que os antibióticos representam uma parte não desprezível dos custos de produção. Por que, então, seu emprego aumenta tanto? Estudos mostram que o uso de antibióticos custa menos que as medidas de higiene adotadas nos países que reduziram o consumo dos medicamentos – vários países europeus limitam o uso de antibióticos a 50 miligramas por quilo de carne.

Os antibióticos também são usados largamente na criação de peixes e na própria agricultura. A mesma reação das bactérias nos animais também ocorre nos solos, como demonstra um artigo recente. Plantas transgênicas resistentes a ataques de insetos foram cultivadas em tal proporção que exigem, hoje, o aumento do uso de antibióticos.

Quem acha que a inovação tecnológica permite sempre enfrentar problemas dessa magnitude deve ler o alerta da OMS (Organização Mundial da Saúde) e da rede global ReAct: nos últimos 40 anos, o lançamento de produtos capazes de contornar a resistência bacteriana praticamente estagnou. A pesquisa de novos medicamentos é cara, e o uso humano de antibióticos, esporádico —ao contrário, por exemplo, de drogas contra a hipertensão arterial, de uso contínuo, o que significa maior lucratividade. Além disso, países de renda média e baixa são proporcionalmente mais afetados pela resistência antimicrobiana.

Duas propostas

Não poderia ser mais decepcionante a declaração do Painel de Alto Nível sobre Resistência Antimicrobiana, reunido durante a última Assembleia Geral das Nações Unidas, em setembro de 2024. Contrariamente ao que ocorreu em 2016 e à determinação de redução de 30% do uso de antibióticos em animais até 2030, acordada em um encontro da ONU em Omã em 2022, a última declaração se limitou a preconizar a diminuição do uso de antimicrobianos na produção alimentar sem estabelecer metas claras.

O texto, além disso, não assume qualquer compromisso para ampliar investimentos em medicamentos capazes de enfrentar superbactérias nem menciona a criação industrial de animais como vetor fundamental de resistência antimicrobiana.

A literatura científica sobre esse tema converge em duas propostas para enfrentar a resistência antimicrobiana: definir um limite de uso desses medicamentos e estabelecer um prazo razoável para alcançá-lo.

De acordo com um estudo publicado na revista Science, haveria uma redução de 60% do consumo global de antibióticos se os países da OCDE e a China limitassem seu uso a 50 miligramas por quilo de carne. Na maior parte das vezes, medidas de higiene e redução da densidade de animais confinados são suficientes como alternativa.

Isso, no entanto, não elevaria os custos e reduziria a oferta de proteína animal? Essa questão precisa ser respondida com base na orientação dos guias alimentares mais importantes do mundo, a começar pelo brasileiro, que está completando dez anos e exerceu influência internacional decisiva: é preciso reduzir o consumo de carne.

Hoje, a maioria esmagadora dos países e até mesmo as camadas de baixa renda de cada um deles registram uma ingestão de carne superior à necessária para satisfazer as necessidades metabólicas. Ao contrário do mito cultivado cuidadosamente pela indústria, as dietas contemporâneas são carentes de frutas, verduras, vegetais frescos e, cada vez mais, têm excesso tanto de ultraprocessados quanto de carnes.

Isso significa que a necessária redução da oferta de carne é compatível com a perspectiva de uma alimentação diversificada e de qualidade para satisfazer as necessidades humanas, não com o horizonte industrial de um mundo que cada vez mais deseja produtos animais.

A emergência de superbactérias exige, portanto, uma reflexão profunda sobre a própria natureza da inovação tecnológica contemporânea. É impossível duvidar da eficiência do aumento da oferta de carne pelo sistema agroalimentar desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Os impactos da inovação tecnológica e do poder de mercado que estão na base dessa eficiência, no entanto, comprometem, de forma cada vez mais nítida, a saúde humana e o bem-estar animal. Tudo isso em um contexto em que o consumo global de carne ultrapassa muito, em quase todas as regiões do mundo, os requisitos metabólicos para uma vida saudável.

O vínculo entre a criação industrial de animais e a resistência aos antimicrobianos mostra que o sistema agroalimentar deve passar a ser regido, com urgência, muito mais pela lógica da suficiência que pela obsessão alucinada de aumento da produção a qualquer custo.

*Ricardo Abramovay é professor titular da Cátedra Josué de Castro da Faculdade de Saúde Pública da USP. Autor, entre outros livros, de Infraestrutura para o Desenvolvimento Sustentável (Elefante). [https://amzn.to/3QcqWM3]

Publicado originalmente no jornal Folha de S. Paulo.


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