Fotos de família

Annika Elisabeth von Hausswolff, Oh mãe, o que você fez #008, 2019
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Por PEDRO PENNYCOOK*

“Folhas se espalham por todos os cantos da mesa, enquanto uma barricada de livros se roça à parede ao fundo. Trata-se de uma imagem claustrofóbica”

Ela me perguntou de quem era a foto.

O apartamento continha pouco mais que vinte metros quadrados. Chamá-lo de apartamento era talvez já em si uma afronta arquitetônica, algo como um golpe sarcástico para alguém que compartilha nacionalidade com a espacialidade infinita de Niemeyer. Quando vim assinar os papeis do aluguel, a dona me informou que as paredes deveriam permanecer intactas, mas eu estava livre para redecorar o restante como quisesse. Também não se pode fumar dentro do apartamento, me lembrou. Olhei-a um pouco descrente, tentando manter a seriedade de quem estava desesperado por um teto minimamente fixo e não podia perder o negócio, e acenei positivamente com a cabeça. Afora o abajur jogado numa das esquinas da sala, não havia nada a que se redecorar ali. Devia ser uma forma de ironia – os americanos também seriam capazes de fazer boas piadas de vez em quando, pensei.

Durante os cinco primeiros meses que vivi ali, aquele abajur foi o único móvel que preenchia o espaço. Era irresistível chamá-lo de móvel. Provavelmente me alegrava pensar que ao menos algo eu tinha para chamar de meu, mesmo que seu destino tenha sido muito mais o de um órfão abandonado pelos inquilinos anteriores, que não se deram ao trabalho de jogá-lo no lixo. Como eu também não era exatamente novo, e dividíamos agora um mesmo teto, pensei que não estávamos em condição de nos julgar. Poderíamos os dois estabelecer uma solidariedade, nos adotar um ao outro, e abandonar a seriedade imaginária de propriedades originais. O abajur funcionava e isso bastava.

Obviamente que a primeira tarefa seria encontrar uma forma de burlar a pureza das paredes. Agora que o inverno havia chegado, e já não era mais possível obedecer a restrições topográficas para satisfazer o desejo de fumar, a porta para microtransgressões se mostrava mais aberta. Pendurar algumas fotos não poderia sê-la mais incômodo que manchas de fumaça estagnada, afinal.

Devia estar no final de sua vida. A roupa que veste sugere que era inverno. Mais ainda, que era um inverno cujo aquecimento da casa poderia combater apenas a golpes intermitentes, meticulosamente calculados entre as demais contas da casa. Por saber que morava na Espanha, não seria mesmo absurdo pensar que a possibilidade de um aquecedor lhe fosse um luxo dispensável, compensado por roupas pouco mais pesadas dentro de casa. Olhos semicerrados, uma xícara de café vazia, um cinzeiro povoado. Folhas se espalham por todos os cantos da mesa, enquanto uma barricada de livros se roça à parede ao fundo. Trata-se de uma imagem claustrofóbica.

Já devia ter alcançado a fama, porém, o que adiciona uma voltagem a mais ao caráter enigmático daquele inverno em que se deixou fotografar. Já era Roberto Bolaño – ou mesmo apenas Bolaño, ao menos para alguns mais atentos. Mede-se a fama de um escritor pela ordem inversa com que se precisam de nomes para identificá-lo, claro. Como lhe responder, então? apenas ‘Roberto’ sugeriria uma intimidade quase profana, ‘Bolaño’ talvez não lhe diga nada. Juntar os dois, portanto, não deveria ajudar muito. Era a única foto que tive coragem de pendurar à parede. Era, quem sabe, o sarcasmo reverso contra a redecoração da qual me informara minha locatária. Preferi então ignorar sua pergunta, com medo do que lhe responder poderia denunciar.

Certa vez ele disse em entrevista que, aos vinte e poucos anos, havia se trancado num fim de mundo mexicano para tentar de lá extrair sua primeira coletânea de poemas. Uma forma ela mesma poética de nos lembrar das condições financeiras em que então se encontrava. E que, como sua foto de velhice testifica, devia ter lhe acostumado à frugalidade mesmo quando o dinheiro já não era um problema premente. Enviou aqueles poemas ao Chile, infestando a caixa de correios de seus escritores favoritos até receber uma resposta. Ao me responderem, não sabiam que muito provavelmente salvaram minha vida – foi como decidiu finalizar o relato.

Respondi-lhe que era da família. Era alguém da família, alguém de quem tenho muitas saudades. Ela então olhou novamente para foto e sorriu.

*Pedro Pennycook é mestrando em filosofia na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).


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