A presença dos EUA na Polônia

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Por ANDREW KORYBKO*

A retirada dos EUA da instalação logística polonesa de Rzeszow para a Ucrânia visa simbolizar a redução da ajuda militar americana a Kiev

1.

O Pentágono anunciou nesta segunda-feira que as forças americanas se retirarão do centro logístico polonês de Rzeszow para a Ucrânia e se reposicionarão em outras partes do país, de acordo com um plano (até então não divulgado). No dia seguinte, a NBC News noticiou que Donald Trump poderia em breve retirar metade dos 20.000 soldados americanos que Joe Biden enviou para a Europa central e oriental desde 2022. Segundo suas fontes, a maior parte será retirada da Polônia e da Romênia, os dois maiores países do flanco oriental da OTAN.

Essa ação pretende simbolizar uma redução da ajuda militar a Kiev, mas não poderá ser interpretada como o primeiro passo para uma retirada completa da Polônia ou da Europa central e oriental como um todo.

O presidente polonês, o primeiro-ministro e o ministro da Defesa foram rápidos em afirmar que o reposicionamento de segunda-feira não equivale nem pressagia uma retirada das forças dos EUA da Polônia, mas ainda há especulações sobre os planos de Donald Trump, considerando a nascente nova détente Russia-EUA. Vladimir Putin solicitou no final de 2021 que os EUA retirassem suas forças da Europa central e oriental para restaurar o cumprimento por Washington da Lei de Fundação OTAN-Rússia de 1997, cujas inúmeras violações agravaram o dilema de segurança entre Rússia e EUA.

A recusa de Joe Biden em discutir este assunto ajudou a tornar a fase mais recente do processo – que já dura mais de uma década – inevitável ao convencer Vladimir Putin de que, o que em breve seria conhecido como o “Operação especial”, era a única maneira de restaurar o equilíbrio estratégico cada vez mais desigual entre a Rússia e os EUA. Ao contrário de Joe Biden, Donald Trump parece aberto a um aceite, pelo menos parcial, do pedido de Vladimir Putin, o que pode se tornar o primeiro – entre vários compromissos mútuos pragmáticos – que estão sendo negociados para normalizar os laços e pôr fim à guerra por procuração.

No final de fevereiro, avaliou-se que “é improvável que Donald Trump retire todas as tropas americanas da Europa Central ou abandone o Artigo 5 da OTAN “, mas ele provavelmente retirará algumas delas de lá para realocação na Ásia, a fim de conter a China com mais força, como parte da mudança planejada de rumo para o leste por seu governo.

Atualmente, há cerca de 10.000 soldados americanos na Polônia, um aumento em relação aos aproximadamente 4.500 antes da operação especial, portanto, uma parte poderia, hipoteticamente, ser reduzida, mas ainda assim permaneceriam na Polônia um número maior que antes de 2022.

2.

O presidente conservador da Polônia quer o maior número possível de tropas dos EUA, incluindo a realocação de algumas da Alemanha, enquanto seu atual primeiro-ministro liberal flerta com a possibilidade de confiar na França para equilibrar os EUA ou se apoiar diretamente nela. O resultado da eleição presidencial do próximo mês desempenhará um papel fundamental na definição da política polonesa nesse sentido e poderá ser influenciada por percepções (corretas ou não) de que os Estados Unidos estejam abandonando a Polônia.

Qualquer redução das tropas americanas na Polônia, ou a crença do público de que isso é inevitável, poderia favorecer o candidato liberal pró-europeu, enquanto uma confirmação explícita do compromisso dos EUA de manter – e muito menos expandir – o nível existente, poderia ajudar os conservadores e populistas pró-americanos. Mesmo que o próximo presidente da Polônia seja um liberal, no entanto, os EUA ainda poderão contar com o país como seu bastião regional de influência militar e política, se o governo de Donald Trump jogar bem suas cartas.

Para que isso aconteça, os EUA teriam que manter mais tropas lá do que antes de 2022, mesmo que algumas fossem retiradas, garantir que esse nível permaneça acima de qualquer outro país da Europa central e oriental e transferir algumas tecnologias militares para produção conjunta. O primeiro imperativo seria tranquilizar psicologicamente a população politicamente russófoba de que ela não será abandonada; o segundo, relacionado ao seu prestígio regional; e o terceiro, manter a Europa central e oriental dentro do ecossistema militar-industrial dos EUA em meio à concorrência da União Europeia.

Isso poderia ser suficiente para neutralizar os possíveis planos dos liberais de se voltarem para a França às custas da influência dos EUA ou de manter a posição predominante dos EUA na Polônia, caso um presidente liberal trabalhe com seu primeiro-ministro – que compartilha a mesma visão – para que a França ajude a equilibrar um pouco os EUA. Mesmo que o governo de Donald Trump perca essa oportunidade por falta de visão ou que um governo totalmente liberal na Polônia procure conflitos com os EUA por razões ideológicas, não se espera que os EUA abandonem completamente a Polônia.

A grande maioria do equipamento militar polonês é americano, o que, no mínimo, levará ao fornecimento contínuo de peças de reposição e provavelmente estabelecerá a base para ainda mais negócios de armamentos. As forças americanas também estão atualmente baseadas em quase uma dúzia de instalações espalhadas pelo país, e o papel consultivo que algumas desempenham ajuda a moldar a perspectiva, as estratégias e as táticas da Polônia durante sua contínua expansão militar. Portanto, não há razão para que os EUA cedam voluntariamente tal influência sobre o que hoje é o terceiro maior exército da OTAN.

Assim, o cenário mais radical de uma reviravolta polonesa, liderada por liberais, em direção à França seria limitado pela impraticabilidade de substituir equipamentos militares americanos por franceses em um futuro próximo, sendo que o máximo que isso poderia levar seria a instalação de caças Rafale equipados com armas nucleares.

A Polônia também poderia convidar algumas tropas francesas para o país, inclusive para fins consultivos, e talvez até mesmo assinar alguns acordos de armas. No entanto, não solicitará a saída das forças americanas, pois deseja preservar seu potencial de dissuasão.

Considerando a interação desses interesses, pode-se concluir que a retirada dos EUA da instalação logística polonesa de Rzeszow para a Ucrânia visa simbolizar a redução da ajuda militar americana a Kiev, e não funcionar como o primeiro passo para uma retirada completa da Polônia ou da Europa central e oriental como um todo. Embora algumas reduções regionais de tropas americanas sejam possíveis como um entre vários compromissos pragmáticos que Trump pode chegar a um acordo com Putin para normalizar os laços e encerrar a guerra por procuração, uma retirada total não é esperada.

*Andrew Korybko é mestre em Relações Internacionais pelo Instituto Estadual de Relações Internacionais de Moscou. Autor do livro Guerras híbridas: das revoluções coloridas aos golpes (Expressão Popular). [https://amzn.to/46lAD1d]

Tradução: Artur Scavone.


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