A primeira guerra de trinta anos

Ligia Maria Osório da Silva
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Por LÍGIA OSÓRIO SILVA*

Texto inédito da socióloga, falecida recentemente

Em 23 de maio de 1618, nobres protestantes invadiram o Castelo de Praga. Eles exigiam liberdade de religião dos representantes do imperador católico do Sacro Império Romano-Germânico – Matias havia limitado os direitos dos protestantes. Depois de um bate-boca, os nobres da Boêmia, a atual República Tcheca, jogaram os apoiadores do imperador pela janela. Por sorte, eles sobreviveram à queda na fossa do castelo.

O imperador Habsburgo Matias viu nesse ato de insurgência, que entrou para a história como a Defenestração de Praga, uma declaração de guerra e resolveu sufocar a rebelião protestante ainda no nascedouro. Era o início da Guerra dos Trinta Anos, que envolveria quase toda a Europa Central. Para a Alemanha, o conflito se transformou num trauma.

“Essa guerra deixou, sem dúvida algumas marcas muito mais profundas na Alemanha do que qualquer guerra posterior, exceto talvez as duas grandes guerras mundiais do século XX”, afirma o cientista político Herfried Münkler, da Universidade Humboldt.

Uma combinação explosiva de fatores fez com que o conflito na Boêmia virasse um incêndio generalizado e descontrolado. Enquanto uma onda de frio duradoura destruía colheitas, um clima de fim de mundo, alimentado por superstições, espalhava-se pela população. Questões confessionais pioravam ainda a mais situação: cerca de cem anos depois do início da Reforma Protestante e da divisão da Igreja, católicos e protestantes cultivavam uma enorme rivalidade.

E, para piorar, havia interesses mundanos em jogo. “A religião foi manipulada para fins políticos”, comenta a cientista política Elisabeth von Hammerstein, da Fundação Körber. “Os fatores políticos desempenharam um papel no mínimo da mesma importância”, acrescenta.

O imperador e alguns soberanos regionais brigavam para decidir quem ditava os destinos do império. No meio disso, forças externas se envolveram. “Os franceses, os Habsburgos, os suecos, os ingleses e até os otomanos consideravam a região muito importante para a própria segurança e lutavam pelo seu domínio ou para impedir a influência de outras potências”, explica Von Hammerstein. Nesse contexto, a religião foi a lenha usada para alimentar o fogo.

Mortes, saques e destruição

Historiadores e cientistas políticos veem paralelos com conflitos atuais, como a guerra civil na Síria. No início, tratava-se de um levante local de forças sunitas contra o domínio do xiita-alauita Bashar al-Assad. Logo, porém, o conflito virou uma guerra por procuração, com Irã, Arábia Saudita, Turquia, Rússia e também Estados Unidos perseguindo interesses próprios e complicando a situação.

Vala comum da Guerra dos Trinta Anos em exposição na Saxônia, em 2015: conflito deixou até 9 milhões de mortos

Da mesma forma, a Guerra dos Trinta Anos alcançou uma nova dimensão do horror quando mais países se envolveram. Exércitos de mercenários desenfreados e sedentos por butins, vindos de todos os lados, atravessavam os campos de batalha como hordas de gafanhotos apocalípticos. Eles tocavam fogo em cidades e vilas, massacravam moradores, violentavam mulheres.

As crianças também não eram poupadas. Inúmeras pessoas morreram de fome ou sucumbiram a doenças como a peste, disseminada por legiões de mercenários itinerantes e dezenas de milhares de vítimas em fuga.

Um testemunho histórico é o diário do mercenário alemão Peter Hagendorf. Num trecho, ele lista “uma bela donzela” como parte de seu butim, ao lado de dinheiro e roupas. Algumas páginas adiante afirma que quase todas as igrejas, cidades e vilas do Bispado de Liège foram saqueadas ou roubadas.

Retrocesso e paz

A estimativa do número de mortos da Guerra do Trinta Anos varia de três milhões a nove milhões, para uma população, também estimada, de 15 milhões a 20 milhões. Proporcionalmente é mais do que o número de mortos na Segunda Guerra Mundial. São poucas as regiões que não foram destruídas, e o sistema de poder ficou em ruínas. Enquanto outras nações saíram lucrando, a Alemanha sofreu com a ruína e a depressão.

“No aspecto social-econômico, a guerra catapultou a Alemanha décadas para trás”, afirma o cientista político Herfried Münkler. Uma guerra na qual um quarto ou até um terço da população morre “é uma ruptura na percepção que as pessoas têm de si mesmas”, diz.

A experiência de virar um joguete nas mãos de potências estrangeiras e um palco para os conflitos marcou profundamente a Alemanha, argumenta Herfried Münkler. Ele vai além e diz que esse trauma ajudou o Império Alemão e mais tarde o nazismo a justificarem seus ataques na Primeira e na Segunda Guerra Mundiais.

Na metade da terceira década de combates, as partes litigantes começaram a dar sinais de cansaço ou de estarem satisfeitas com suas áreas de influência. Ao longo de cinco anos elas tentaram chegar a um acordo de paz em negociações conduzidas em Münster, uma cidade católica, e em Osnabrück, uma cidade protestante.

Em 24 de outubro de 1648, a tão almejada paz foi finalmente alcançada em Münster. A série de acordos entraria para a história com o nome de Paz de Vestfália e também como um triunfo da diplomacia por conter inúmeras concessões, por exemplo, à liberdade de religião.

Protestantes e católicos concordaram que “controvérsias religiosas não podem ser resolvidas pelo viés teológico e que, em vez disso, deve-se buscar soluções pragmáticas ao largo das discussões sobre quem tem razão”, explica Von Hammerstein.

Assim, entre outros avanços, a paz solidificou a equiparação dos credos cristãos. “Com isso criaram-se as bases para uma convivência pacífica entre as confissões, o que parecia impossível depois de décadas de violência.”

Exemplo para outros conflitos?

Um sistema de garantias foi responsável pela manutenção da paz. Por exemplo: se um dos lados desrespeitasse os acordos, os outros signatários tinham o direito de intervir para restabelecer o status quo.

Além disso, a soberania do imperador foi limitada, e os príncipes receberam mais poderes. Com isso, o império se transformou em definitivo numa aliança flexível de Estados. Se em países como a França o poder central era fortalecido, na Alemanha a evolução transcorria de forma exatamente oposta. O ganho de poder dos soberanos regionais se reflete até hoje no federalismo alemão, no qual os governadores vigiam com afinco os poderes dados aos estados.

A Paz de Vestfália é frequentemente apontada como exemplo de resolução para outros conflitos. Em 2016, o então ministro do Exterior da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, relatou que um intelectual árabe havia lhe dito que sua região necessitava de uma versão própria da Paz de Vestfália.

Von Hammerstein também vê o acordo como fonte de inspiração e lembra que ele provou que também um conflito com fortes elementos religiosos e emocionais pode ser resolvido de forma pacífica.

*Lígia Osório Silva foi professora do Instituto de Economia da Unicamp. Autora, entre outros livros, de Terras devolutas e latifúndio (Editora Unicamp).


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