Bolsonarismo, trumpismo e taxas

Imagem: Robert Clark
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Por WAGNER PIRES*

A extrema direita global arreganha os dentes

1.

Donald Trump e seus apoiadores tentaram um golpe de Estado quando este foi derrotado por Joe Biden. Como disse um dos filhos de Jair Bolsonaro, tempos atrás: “acontece nos EUA, acontece no Brasil”. Para cumprir a sua profecia caquética, em 08 de janeiro de 2023, após derrota eleitoral para Lula, foi a vez do bolsonarismo ensaiar seu pífio golpe de Estado.

O que os adoradores do império ianque em sua sabujice não contavam era que, no Brasil, a justiça seria mais efetiva que a do império. Desde então, a movimentação por uma anistia aos golpistas se tornou verdadeira obsessão da extrema direita brasileira e dos oportunistas do Centrão, que, preferem um governo que ignora e vira o rosto.

Dessa gente, pode-se ver se tudo: emigração para os EUA para de lá seguir atacando a democracia brasileira, fuga da justiça, numa rocambolesca busca de “exilio”(?) em países de extrema direita e até manifestações apoiando o golpismo abertamente, contando no palanque com governadores que, avidamente disputam por um lugar ao sol no meio da trupe, prometendo anistia aos golpistas do 8 de janeiro, e buscando se diferenciar um do outro na velocidade e na amplitude dessa prometida anistia.

Uma anistia cada vez mais distante, pois insuflada por discursos vazios. Mas muito radicais, uma parte do bolsonarismo segue em pé de guerra. Uma hashtag contra a anistia em uma rede social traz ao perfil de qualquer um uma horda bolsonaristas desrespeitosas, que vai dos xingamentos a bem elaboradas maldições bíblicas. E aos inevitáveis títulos de comunista, esquerdistas e similares.

Vendo cada vez mais distante a anistia pelas manobras do Congresso, o jeito foi apelar para Donald Trump, que diante da inação da justiça ianque, não só concorreu as eleições, quanto ganhou as mesmas, com o conhecido populismo que caracterizou seu governo. Mas Donald Trump parecia dormir e não ligar para os emissários bolsonaristas que volteavam como moscas os figurões da extrema direita dos EUA. Seu interesse era outro.

Enquanto isso, Donald Trump dava asas ao seu megalomaníaco projeto de reviver o big stick do imperialismo americano. Uma politica externa que não trouxe ainda nada de positivo ao império, mas que tem feito ressurgir um saudável anti-americanismo, nas mais diversas partes do mundo.

Em todo o globo, os países responderam ao desafio, obrigando recuos, vendidos à opinião pública como geniais movimentos do estrategista Donald Trump. O desmonte da USAID, a perseguição aos imigrantes com direito a violação de direitos, o furor com quem o governo ataca as universidades e mesmo as oposições internas, demonstram que a máscara da autodenominada maior democracia do mundo caiu. E parece que o império está à deriva, sem saber como se posicionar neste mundo novo.

2.

Afinal, o mundo mudou. A superpotência continua perigosa, mas em nossos tempos, o jogo tem muito mais peças e estratégias no tabuleiro do que antes.

Uma dessas estratégias é o fortalecimento do sul global, bem como das economias médias, que passam a se organizar no BRICS. O grupo, que possui uma agenda contra hegemônica, baseada numa maior integração econômica, de economias tradicionalmente exportadores de comodities acendeu o alerta no governo ianque e construiu um playground imenso no cabeção laranja de prayground Trump.

“Como fazer frente a isso?” deve ter sido a pergunta a ecoar naqueles amplos vazios. Então, ele lembrou do desprezados adorador, cujos apoiadores estavam enchendo o saco fazia algum tempo: Jair Bolsonaro.

Então, no encontro do BRICS, realizado sob a presidência do Brasil, ele soltou aquela que ele considera sua maior arma: a taxação.

Mas o BRICS não possui apenas os chamados emergentes. Nele estão a China, que não arregou quando ele lançou sua guerra fiscal contra os chineses. E também a Rússia de Vladimir Putin, que se não pode ser chamado de aliado de Donald Trump, podemos dizer que é uma figura que o laranjão respeita. Então, como realizar um ataque ao BRICS, sem se indispor demais com esses dois países?

A solução estava em Jair Bolsonaro. Como já costumeiro, Donald Trump não liga para a complexidade do mundo. Ele está sentado na cadeira que ele crê que seja a do homem mais poderoso do mundo. E pouco importa que cada vez mais pessoas desordem disso. Ele não sabe atuar em outro papel.

Para não sair do nada, ele faz um post pró-Bolsonaro em suas redes, acusando a justiça brasileira de uma “caça às bruxas”. Sem nenhuma noção, exige o fim dos processos contra o aliado, e que ele seja “julgado pelas urnas”, desconhecendo o fato que ele está inelegível por outro processo, já encerrado.

Continuando sua encenação, como um Deus ex-machina, comunica ao mundo uma taxação de 50% ao Brasil, acusando o país de não ser bom com os EUA, mesmo que as evidências mostrem um superávit na balança comercial para os ianques e condiciona a diminuição da taxação ao fim do processo.

3.

Ora, a mente obtusa de Donald Trump, acostumado com o velho programa, o Aprendiz, a gritar “you fired” e ser atendido, não consegue compreender que em um país livre, há independência de poderes. E o governo brasileiro, não poderia interferir na justiça. Lembremos, não estamos no império, onde o laranjão controla tudo. O que resta a fazer? Taxar reciprocamente os produtos dos EUA.

Uma catástrofe? Sim. Mas o Brasil está sendo atacado em sua soberania e país nenhum deve impor sua agenda, seja qual for, por ser mais poderoso que o outro.

O mundo assiste assombrado o exercício do poder imperial por Donald Trump de forma tão irresponsável, a ponto de lançar um ataque a um país que sempre foi aliado dos EUA. O império, que Donald Trump queria fazer grande novamente se apequena ao se tornar joguete dos interesses ideológicos da extrema direita.

A tresloucada ação de bombardear usinas nucleares iraniana, sem qualquer declaração de guerra e contrariando as convenções que proíbem ataques a instalações nucleares, apenas em apoio a Benjamin Netanyahu, já tinha feito um estrago nessa reputação, que nunca foi das melhores na periferia do capital. Agora, se constrói uma visão de quão perigosos podem ser os arroubos do Laranjão, quando contrariado e para fazer valer suas preferência ideológicas.

Na extrema direita, nos círculos bolsonaristas, há movimentos contraditórios. Alguns querem que o Brasil se curve aos interesses dos EUA, porque são os mesmo deles, há os que comemoram e os que sumiram.

Aos bolsonaristas não importa como economia brasileira será afetada. Se fábricas serão fechadas, se haverá prejuízos no campo ou se trabalhadoras e trabalhadores perderão seus empregos. O que importa é o poder pelo poder.

Aliam-se a uma potência estrangeira, para voltarem ao poder, sonhando com um Brasil de república de bananas, com militares de pijama dormindo durante desfiles militares, cujos únicos feitos notáveis foram o massacre de seu próprio povo, durante a pandemia do covid-19, enquanto líderes evangélicos enchem os bolsos pregando um Jesus tão falso quanto os papais noéis de shopping, estimulando a cupidez, a intolerância e o individualismo de uma população cada vez mais carente de alma. Que o desejo deles não se realize.

Os adoradores de Trump se regozijam, afinal, ele se moveu a favor deles. O patriotismo, o verde-amarelo das manifestações da extrema-direita desbota.

Os defensores dos ricos, que comemoravam que o Congresso inimigo do povo impediu ao aumento na taxação do IOF, agora, estão calados ou até comemorando a taxação de Donald Trump, justificada por Jair Bolsonaro e que, realmente pode prejudicar a economia e o povo brasileiro.

A hora é dos verdadeiros patriotas apoiarem a soberania brasileira. Nenhuma intervenção estrangeira pode nos dizer o que fazer! Não somos quintal dos EUA, nem de ninguém. O Brasil é dos brasileiros.

*Wagner Pires é doutorando em Educação na Universidade Federal de Pelotas (UFPel).


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