Nem golpe nem impeachment

Por JULIAN RODRIGUES*

Não haverá golpe amanhã, porém é preciso levar a sério tanto as investidas autoritárias quanto a força social do neofascismo

“Nos caminhos desta vida muitos espinhos eu encontrei / mas nenhum calou mais fundo do que isso que eu passei” (Sérgio Reis).
“Quando eu apareço o comentário é geral / Ele é o bom, é o bom demais / Eu sou o bom, entre os dez mais” (Eduardo Araújo).

Nesses dias tão estranhos, com tanta notícia ruim, tanto ruído, nada mais natural que nos perdemos, sem enxergar o que realmente importa. Limpando a espuma, nos concentrando no chopp. Qual a correlação real de forças entre as classes sociais no Brasil? Quem o bolsonarismo representa? O STF é guardião das liberdades do povo? Desde quando? A Globo quer o impeachment? Por que catzo Bolsonaro fica cada vez mais agressivo se está caindo nas pesquisas? O “centrão” vai brigar com Alexandre Moraes e Barroso?

A reação mais comum e ficamos atônitos, perplexos, confusos diante da hecatombe bolsonarista. E geralmente subestimar o presidente, rotulando-o ou como portador de patologias psíquicas ou intelectualmente limítrofe. Como consequência, crescem percepções sobre a fragilidade do governo que, superestimam a perda de apoio de Bolsonaro. Ou alimentam ilusões sobre as reais/concretas posições dos “mercados”, dos militares (100% Bolsonaro) ou das tais “instituições”.

Talentoso analista do campo progressista, jornalista experiente, Luis Nassif escreveu no último dia 18 de agosto um belo artigo analisando o cenário político e fazendo projeções. O ponto de destaque, na minha opinião, é a primeira parte, onde ele esboça pontos fundamentais para o programa de um eventual terceiro governo Lula. Entretanto, em certo momento, Nassif crava o seguinte: “há uma certeza para as próximas eleições: Bolsonaro será derrotado – e uma série de incógnitas: morrerá politicamente antes ou das eleições?”

O golpe foi dado em 2016. Naquele momento se formou uma ampla coalizão que rompeu com a democracia formal e jogou no lixo a Constituição de 1988. As classes dominantes brasileiras, articuladas com o imperialismo estadunidense, impulsionadas pela grande mídia, tendo os militares como retaguarda derrubaram Dilma, prenderam Lula – e o tiraram do jogo eleitoral.

O resultado foi a ascensão e eleição de Bolsonaro. Não era o ex-milico a primeira opção da Faria Lima ou das mídias grandes. Tendo Paulo Guedes como fiador de um ousadíssimo programa neoliberal, pragmática (e uns e umas entusiasticamente) embarcaram nossas elites na nau do ex-capitão. Alguns querendo parecer cheirosos fingiram dramas de consciência, voto branco ou nulo, lembram do Estadão? – “uma escolha muito difícil”. Sabemos que cravaram 17 no quentinho da cabine.

Bolsonaro, candidato do “Partido militar”. Os generais foram o sustentáculo do golpe. Arregimentaram na linha de frente também os mercadores da fé e seus aparelhos gigantes (igrejas, televisões, rádios, redes socais, milhões de fiéis), o crime organizado, o agronegócio, setores da “lumperburguesia”. Tudo isso tendo como base um sólido e prático apoio internacional da extrema-direita (Bannon), alimentando a formação/mobilização de redes de neofascistas. A partir das táticas de guerra cultural, de manipulação das redes sociais, constituiu-se, no Brasil, o bolsonarismo – hoje com base social de massas e potente coluna de militantes orgânicos.

O bolsonarismo é uma modalidade contemporânea de fascismo. Se constituiu em tempos de profunda crise capitalista de financeirização, concentração e globalização do capital. Aumento da desigualdade, pobreza e fome de boa parte da humanidade – concentração de renda absurda na mão de pouquíssimos (que, como crianças, agora resolvem brincar de passear no espaço com seus próprios foguetes), domínio de gigantes monopolistas em diversas áreas, neoliberalismo agressivo, desmonte de direitos sociais mundo afora.

Neofascimo em aliança com neoliberalismo radical. Com apoio do imperialismo. A embaixadora dos EUA no Brasil em 2016 foi a mesma que articulou o golpe contra Fernando Lugo, no Paraguai. E, claro, a Lava Jato foi toda montada pela CIA pelo Departamento de Estado norte-americano.

Nunca se tratou, portanto, de enfrentar um governo de direita “normal” da burguesia. É um movimento disruptivo o que Bolsonaro lidera. Sua tática neofascista sempre foi a de um golpe em processo, esgarçando nossa já estreitíssima democracia. “O Brasil não é um terreno aberto onde nós pretendemos construir coisas para o nosso povo. Nós temos que desconstruir muita coisa. Desfazer muita coisa. Para depois nós começarmos a fazer. Que eu sirva para que, pelo menos, eu possa ser um ponto de inflexão, já estou muito feliz” (fala de Jair Messias, nos EUA, março de 2019).

Em poucas palavras, o resumo do bolsonarismo explicitado pelo próprio líder. Espanta-me como muita gente nossa, lideranças, dirigentes não acreditam no que ele mesmo diz. Tratam como bravata. Melhor prestar atenção e considerar o que eles dizem.

Desconstituir o Brasil erguido desde a redemocratização. Sob todos os ângulos. Cultura, educação, políticas sociais e ambientais, direitos trabalhistas, liberdades democráticas, direitos humanos, serviço público, direitos das mulheres, negros/as, indígenas, LGBTI. Esse é o horizonte bolsonarista.

Carece, muitas vezes, admitir e reconhecer que o bolsonarismo faz luta ideológica diariamente, propaga valores, concepções de mundo: negacionismo, anticientificismo, fundamentalismo religioso, violência, individualismo, armamentismo, racismo, machismo,homofobia/transfobia e anticomunismo (que, nos dias atuais é sinônimo de antipetismo).

Trata-se de uma “movida”. De uma onda. De um troço organizado, orgânico. Com começo, meio e fim. Coisa que tantas vezes falta ao campo progressista, que tende a seguir automaticamente um senso comum de moderar as falas, ideias, para não chocar o povo. Quando o certo é disputar ideias, aumentar o nível de consciência da classe trabalhadora. E não se adaptar ao senso comum reacionário. O bolsonarismo chegou aonde chegou porque fez trabalho militante, contrariando ideias hegemônicas, disputando, incidindo, junto com igrejas conservadoras, com a turma das armas, com todo tipo de machistas, racistas e preconceituosos.

Quem não tem um programa nítido e o sustenta, recua a cada ataque do adversário. E perde um pedacinho de espaço a cada dia. Que a esquerda, sobretudo o PT, aprenda essa lição.

Por que Bolsonaro radicaliza?

Parece ilógico. No momento em que está mais fragilizado, Bolsonaro não só mantém suas políticas gerais, como radicaliza a defesa do golpismo e parte para uma guerra aberta contra o STF. Todavia, é o contrário do que parece. Bolsonaro age de maneira previsível, racional e lógica. Nós não mudamos o chip. Nós não trocamos de óculos. Ainda operamos análises com base em um idealista paradigma: o Brasil teria uma “democracia liberal”, “instituições republicanas”, ou “forças armadas legalistas” (o mais tragicômico de todos equívocos).

O método de governo é dominar o debate público. Day by day. Efetivamente, contudo, não se trata apenas de bombas semióticas, da hegemonia acachapante nas redes ou do controle da agenda setting – agora totalmente fora da grande mídia. É disputa política-ideológica ininterrupta. Guerra permanente. E o bolsonarismo faz aproximações sucessivas (nada a ver com matemática aqui).

General Mourão, futuro vice, ainda na ativa em 2017 introduziu a ideia “Quando nós olhamos com temor e com tristeza os fatos que estão nos cercando, a gente diz ‘por que não vamos derrubar esse troço todo?’. Na minha visão, que coincide com a dos meus companheiros do Alto-Comando do Exército, estamos numa situação de aproximações sucessivas, até chegar no momento em que ou as instituições solucionam os problemas políticos, com o Judiciário retirando da vida pública esses elementos envolvidos em todos os ilícitos, ou então nós teremos que impor isso”. Percebam que as contradições supostamente existentes entre Mourão e Bolsonaro ou entre os generais legalistas do Alto Comando (que só falam em off) são laterais,desimportantes.

General Villas Boas (cantado em prosa e verso como sério e democrático por muita gente da esquerda) não só respaldou o golpe de 2016 e ameaçou o STF caso não autorizassem a prisão de Lula, como também foi um pilar da candidatura Bolsonaro. Na aposentadoria do golpista, o presidente tascou uma confidência gravíssima: “o que já conversamos morrerá entre nós; o senhor é um dos responsáveis por eu estar aqui”. Tal gratidão esfuziante foi devidamente retribuída. O ex-comandante discursou e comovido disse: “o senhor tirou o país da amarra ideológica que sequestrou o livre pensar”.

Assim, com apoio engajado do “partido militar”, de sua animada base extremista, e, da maioria de direita e centro-direita do Congresso, Bolsonaro vai alargando o campo do que é considerado “normal”. Vai cotidianizando a possibilidade de fechamento do regime. E popularizando absurdos (como a noção de que as Forças Armadas são um poder moderador ou que o sistema de urnas eletrônicas é fraudulento).

Reparem. São pelo menos quatro operações executadas por Bolsonaro simultaneamente.

A primeira é essa aí de “ir para cima”, mobilizar as bases, excitar os neofascistas e pautar o debate nacional. Dominar a agenda e o debate públicos. A segunda é acelerar o programa neoliberal de privatizações mais aniquilação dos direitos do povo. Privatização da Eletrobrás, dos Correios, desmonte da Petrobrás. Novo ataque aos direitos trabalhistas, destruição do Estado (reforma administrativa) e por aí vai.

Nunca antes na história desse país um governo demoliu tantas conquistas sociais e ousou avançar tanto na entrega do patrimônio público. Detalhe: juros seguem aumentando – e os ricos vão bem, obrigado. Os lucros do Bradesco, Banco do Brasil, Itaú e Santander somados atingiram R$22 bilhões no segundo trimestre – alta de 64% ante o mesmo período do ano passado. As exportações do agronegócio devem alcançar US $120 bilhões (sim, de dólares) batendo novo recorde histórico.

A Faria Lima, o Valor, a Globonews podem simular constrangimentos e até mesmo contrariedades com os excessos do sujeito. É vero, pedem ao presidente moderação em certos temas – pautas ambientais e liberdades civis. Mas, o fato concreto é que salivam a cada votação vitoriosa das propostas de Guedes no Congresso. Daí a explicação. Não haverá impeachment, o que explica também o motivo pelo qual a tal “terceira via” segue ridiculamente encruada.

A terceira operação de Bolsonaro: tentar melhorar a vida de milhões de pessoas, via medidas pontuais, como a criação do tal “Auxilio Brasil”, que seria o Bolsa-Família dele, turbinado. Tem problemas práticos nessa tática (Guedes é muito ruim mesmo, odeia pobres, não conhece a máquina pública), e há também a oposição dos mercados. Vão fazer a chantagem de sempre: ajuste fiscal, teto de gastos, explosão da dívida, “estão afastando investidores, por falta de confiança”, essa bobajada neoliberaloide.

A quarta operação é deixar o “centrão” comandar o núcleo do governo e distribuir cargos e verbas sem à mancheia. Tem funcionado bem. Arthur Lira, competente e fidelíssimo. Tudo que Bolsonaro manda para Câmara é facilmente aprovado. Não me venham, então, comemorar a derrota do voto impresso – era uma PEC, precisava de 308 votos. Bolsonaro amealhou 229 votos contra 218 da oposição.

Momentaneamente, ganhou sólida maioria mesmo em um tema super polêmico. A propósito, a cúpula do PSDB mandou a bancada votar contra o voto impresso. Ocorre que dos 31 deputados, 26 foram com a posição bolsonarista, 5 sumiram para não votar, inclusive Aécio, e só 14 seguiram a orientação da cúpula. Ou seja: que terceira via é essa? No DEM de Grampinho, a situação é similar: 8 dos 21 deputados foram pelo voto impresso.

Será que a tal terceira via seria, digamos, assim mezzo bolsonarista?

Bolsonaro está derrotado?

Nunca estivemos tão mal. Recorde de desemprego. Fome, miséria, precarização do trabalho. Brasil rumo aos 600 mil mortos pelo Covid. Ainda assim, as manifestações populares anti-governo não conseguiram ultrapassar a casa de milhares.

Pedindo desculpas às leitoras pela longa digressão, retorno agora ao vaticínio nassifiano.

A morte política e a derrota de Bolsonaro é questão de tempo? Nosso Luis Nassif considera inclusive um cenário em que o atual presidente estaria fora do jogo antes do processo eleitoral. Francamente, essa hipótese soa como puro wishful thinking (pensamento desejante).

Bolsonaro possibilitou que muita gente comprasse armas neste país. Conta com ampla simpatia e apoio nas Polícias Militares de todos Estados. É o rei dos milicianos do Rio de Janeiro Tem os gorilas, de todas as três armas, que, bem ou mal o apoiam. Tudo isso é suficiente para avançar num fechamento de regime? À la Fujimori? Teria ele sustentação internacional? Das classes dominantes, da mídia?

As respostas são negativas.

Quer dizer, então, que são meras bravatas as ações bolsonaristas, cortina de fumaça? Não. Querer não é poder. Mas sem metas e objetivos, sem programa, tática e estratégia, ninguém avança. E Bolsonaro tem tudo isso.

Fato. Lula cresce em todas as pesquisas. Bolsonaro tem assistido ao crescimento contínuo de sua rejeição. Para tentar empinar o caminho do meio, muitos institutos de pesquisa testam nomes como o de Moro, que, mesmo detonado, aparece ainda assim com quase o dobro de Dória. Vejam o tamanho do buraco onde o PSDB se enfiou.

Uma pequena parcela da direita rica liberal chic tentou empinar o governador gay (que não quer ser visto como gay governador) dos pampas, aquele mauricinho Eduardo Leite. A Piauí de julho – revista cult dos nossos banqueiros blasé, ilustrados e cheirosos, acham que editam a New Yorker – brindou a seleta plateia com oito páginas laudatórias. Contaram tudo da trajetória do ex-prefeito de Pelotas, tentando empinar o moço.

São Paulo é São Paulo. FHC, o velho tucano já cantou a pedra: Dória é o candidato presidencial do PSDB. Ou seja, será o candidato da “terceira via” realmente existente. Singular, quase extravagante, é a falta de votos do governador paulista. Difícil achar alguma encuesta a atribuir-lhe mais de 5% de apoio. O cara é extraordinariamente pesado.

Ciro Gomes mantém capital eleitoral, mas tem pontuado um dígito apenas – abaixo do seu teto tradicional de 12%. Procura ser representação de setores de suposta burguesia interna, desenvolvimentista, e das classes médias progressistas não radicais (onde vivem? quem são? como se reproduzem?). Entretanto, desde que encampou o antipetismo e antilulismo viscerais, Ciro apartou-se do eleitorado progressista. Não logrou, todavia, avançar nas bases da centro-direita liberal.

Ao trazer João Santana para comandar seu marketing, o pindamonhangabense amigo do Mangabeira Unger e que estudou em Harvard mas não fala inglês, optou por flertar com setores conservadores e religiosos – fez um vídeo deprimente, ostentando a Bíblia em uma mão, Constituição na outra, e as equivale – atentado à laicidade do Estado. O amigo do Tasso Jereissati parece não se definir. Quer ser o candidato de bolsonaristas arrependidos, dos mercados/terceira-via? Ou de algum centro perdido, de uma esquerda pequeno burguesa não petista? Problema: nenhum desses segmentos o quer como representante.

Cada vez mais isolado (quase ficando caricato em função dos seus arroubos e giros), Ciro perde apoio até no PDT, seu partido. Tende a se desidratar continuamente à medida que se aproximam as eleições. Talvez não se torne tão diminuto quanto Marina Silva em 2018, mas caminha por aí. Em 2022 será coadjuvante de segunda ou terceira categoria – porém mantendo o garbo – e sempre ruidoso (vanity is my favorite sin, já ensinava o capiroto).

Lula tem pontuado mais ou menos 46% no primeiro turno. Viés de alta. Aparece derrotando qualquer candidato num possível segundo turno. Colocando mais de 20 pontos de diferença em cima de Bolsonaro. O gigantismo de Lula é algo extraordinário – o maior patrimônio do povo brasileiro na luta por dignidade e justiça. Não seria inteligente, entretanto, cultivar ilusões, subestimar os adversários, repetir erros, “subir no salto”.

Reparem: Bolsonaro, mesmo em seu pior momento, não se afasta do patamar de 25% de intenções de voto. Segundo a pesquisa DataPoder do último dia 19 de agosto, 32% da população acha que Bolsonaro deve continuar no cargo de presidente. E 28% consideram seu governo bom/ótimo. (Collor e Dilma só caíram mesmo porque tinham apenas 5 a 7% de apoio).

Esses dados deveriam nos impactar bem mais do que o aumento da impopularidade do ex-capitão. O percentual de 32% que apoiam a continuidade do governo pode até crescer. A economia vai despiorar. O clima de fim de pandemia toma conta do país. As “bondades” de Bolsonaro vão render algum apoio adicional entre setores empobrecidos.

O furacão Luis Inácio

Não subestimar Bolsonaro nem de longe é considerá-lo imbatível. Lula é/seria franco favorito para as eleições de 2022, se estivéssemos em “condições normais de temperatura e pressão”. Já combinamos entre nós que não estamos desde 2016. Mesmo considerando todos os obstáculos pela frente, ainda assim será mais fácil vencer Bolsonaro nas urnas, do que derrotar o bolsonarismo.

A força ideológica do extremismo reacionário não será desmantelada apenas tirando o ex-capitão do governo. Vide EUa e a resiliência do, trumpismo, a desenvoltura de Bannon (que, mais uma vez, nos ameaça aqui). Nesse sentido, mobilizações de ruas, embates nas redes e a disputa eleitoral formam um todo articulado – verdadeira guerra anti bolsonarista. Movimentos de massas, nas ruas e nas redes, embates culturais, políticos, ideológicos e programáticos. Levantar todas nossas bandeiras. Bater de frente com o neofascismo.

Lula é a esperança das massas na tarefa de reconstruir a democracia. Aglutina o conjunto dos progressistas, dá esperança ao povo. Acena com a volta de tempos melhores e de um futuro com justiça e igualdade.

Ocorre que 2022 não é 2002, em todos os sentidos

Lula, se vitorioso, encontrará um país em condições muito piores do que encontrou em 2003. Sem comparação, aliás. 2022 parece mais com 1989. Ou seja, a primeira eleição pós-ditadura, onde o centro era a possibilidade de refundar um país. Em 89, Lula foi inspirador de sonhos e mobilizador de massas. Representou um projeto de ruptura que engajou as pessoas. Amplo movimento cultural, político, social. 2022 pode ser a primeira eleição democrática, de fato, pós-golpe. O movimento inicial para barrar o golpismo e vencer Bolsonaro, criando um clima e uma correlação de forças que abram caminho para a reconstrução e transformação do Brasil.

Por essa razão é que Lula-2022 não pode ser apenas uma campanha tradicional, institucional. Como em 1989, precisa se tornar uma campanha de cada um de nós um tsunami de massas, plural, com a juventude, as mulheres, pretas e pretos, as LGBTI, a universidade, o mundo da cultura, o conjunto dos movimentos sociais. Claro que aí entra a precisa reflexão/apelo de Luis Felipe Miguel, em artigo postado no site A Terra é Redonda). Lula não pode ser um presidente de esquerda, pacificador, “mas acomodado aos direitos perdidos, à economia desnacionalizada e à Constituição conspurcada.”

Lula não será o “normalizador” do país em um pós-bolsonarismo, onde tudo parece voltar ao que era antes, sem que se revertam as privatizações e todas maldades feitas contra os direitos do povo. Até porque, mesmo para realizar as políticas dos seus primeiros governos, Lula vai ter que não só anular os desmontes mas também mexer muito na estrutura do Estado, na economia (tema para outro artigo).

O movimento antifascista será uma construção imediata, mas também de médio e longo prazos. Perpassando todas as esferas da sociedade brasileira. Não é trivial termos chegado até aqui.

*Julian Rodrigues é professor e jornalista, ativista LGBTI e de Direitos Humanos.