O iluminismo sombrio

Imagem: diana kereselidze
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Por MANFRED BACK & LUIZ GONZAGA BELLUZZO*

A ‘Catedral’ está em chamas: a direita tecnocrática quer substituir a democracia por um ‘sistema operacional’ autoritário — onde o governo é uma startup, o povo são acionistas e o poder, um app sob controle das Big Techs

“Viva a Sociedade Alternativa / Viva o Novo Aeon… Faz o que tu queres / Pois é tudo da lei…” (Raul Seixas e Paulo Coelho, Sociedade alternativa).

“O ser humano é aquilo que a educação faz dele” (Immanuel Kant).

1.

Nos anos setenta do século passado, durante o regime militar, Raul Seixas e Paulo Coelho foram convocados a prestar depoimento no Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), para explicar o que seria essa tal sociedade alternativa? Esse novo Aeon? Foram dispensados algumas horas depois ao descreverem o novo Aeon, como uma sociedade das estrelas turbinadas com pílulas de LSD, uma droga psicodélica!

O novo Aon foi apresentado de 2008 por um blogueiro anônimo conhecido como Mencius Moldbug. Ele defendeu uma guerra contra a Catedral, metáfora para designar a “maldita” aliança entre a mídia e a academia, um conciliábulo para perpetuar o poder das esquerdas liberais.

O lema de Mencius Moldbug – muito diferente da sociedade estelar lisérgica da sociedade alternativa – tinha como alvo o igualitarismo, o maior dos males. Anos mais tarde, esse blogueiro assume sua verdadeira identidade, Curtis Yarvis. Que assumiu o trono de guru dos executivos do Vale do Silício e dos seguidores do movimento MAGA (Make América Great Again). Cerca de 34% dos republicanos seguem fielmente esse movimento.

“Ele simplesmente está dizendo algo em voz alta que muitos republicanos estão ansiosos para ouvir” (senador democrata Chris Murphy, de Connecticut).

Alerta Ava Kofman articulista da The New Yorker em junho desse ano: o apelo do blogueiro reacionário por um monarca para governar o país parecia uma piada. Agora, a direita está pronta para se curvar.

Nosso blogueiro propõe a liquidação da democracia, da Constituição e do Estado de direito e a transferência do poder para um CEO-chefe que seria uma espécie de monarca ou imperador e transformaria o governo em uma corporação fortemente armada e ultralucrativa.

A grande S.A., sociedade anônima, sem cidadãos, mas com acionistas. Esse novo regime, esse novo Aon, venderia escolas públicas, destruiria universidades, aboliria a imprensa e aprisionaria populações “descivilizadas”. But last,but not the least, demitiria funcionários públicos em massa, o RAGE (Aposentar Todos os Funcionários do Governo) e descontinuaria as relações internacionais, incluindo garantias de segurança, ajuda externa e imigração em massa.

A elite das Big-techs se deliciou com a ideia de que eles deveriam comandar a nação. Uma relação diretamente proporcional entre ego e poderio financeiro. Música nos ouvidos dos CEOs! Uma nação corporativa, digital e algorítmica! Talvez comandada por uma inteligência perfeita, uma inteligência artificial!

2.

Comece a levar a sério, esse garoto prodígio que se formou com 18 anos na Brown University, que hipnotizou Peter Thiel um dos fundadores do Pay-Pal, J. D. Vance vice-presidente americano, Elon Musk, Marc Andreessen um dos chefes da Andreessen Horowitz e conselheiro informal do chamado Departamento de Eficiência Governamental (DOGE) e Andrew Kloster, o novo conselheiro geral do Escritório de Gestão de Pessoal do governo.

Substituir funcionários públicos por funcionários da riqueza poderia ajudar Donald Trump a derrotar “a Catedral”. Essa ideia foi promovida por Andrew Kloster, conselheiro Sênior da organização hiper conservadora Compass Legal Group. Andrew Kloster é uma liderança de longa data no movimento conservador, prestando assessoria aos clientes da nova direita em uma ampla variedade de questões criminais, civis, políticas/eleitorais e administrativas.

“No mês passado, um assessor anônimo do DOGE disse ao jornal Washington Post que era “um segredo aberto que todos em funções de formulação de políticas liam Yarvin”. Stephen Miller, vice-chefe de gabinete do presidente, recentemente o citou no Twitter. D. J. Vance pediu que os EUA se afastassem da Europa, um antigo desejo de Yarvin. Na primavera passada, Yarvin propôs expulsar todos os palestinos da Faixa de Gaza e transformá-la em um resort de luxo.

Ava Kofman, a já mencionada colunista da revista The New Yorker, foi convidada por Yarvin para um baile de gala um dia depois da posse de Donald Trump. O evento recebeu o patrocínio da Passage Press e foi proclamado com o refrão de “MAGA encontra a direita tecnológica”: Anton, do Departamento de Estado, Laura Loomer, uma sussurradora de Donald Trump conhecida por sua intolerância antimulçumana, e Jack Posobiec, que popularizou a teoria da conspiração Pizzagate, se misturaram a capitalistas de risco, aceleracionistas de criptomoedas e astros do Substack.

Mais cedo naquela noite, enquanto os convidados jantavam vieiras grelhadas e filé mignon, Steve Bannon, o orador principal do baile, pediu deportações em massa, o “Götterdämmerung (crepúsculo dos deuses)” do Estado administrativo e a prisão de Mark Zuckerberg”.

Em entrevista a Gillian Tett, articulista do jornal Financial Times, Yarvin recomendou a Donald Trump acabar com a independência do banco central, colocando-o sob controle do Tesouro, para que este possa reestruturar a dívida americana de US$ 37 trilhões e “desconectar” as finanças americanas do resto do mundo.

Scott Bessent atual secretário do tesouro americano, ex-administrador de fundo hedge, faz parte da turba de Yarvin. Essa turba está de olho na substituição de Jerome Powell atual presidente do Federal Reserve.

Encerramos com um trecho da biografia de Yarvin apresentada no livro Curtis Yarvin & The Neoreactionary Canon, Made Simple de Hugo Thornton Rowley:

“O movimento retórico mais eficaz de Yarvin é apresentar a monarquia, a ditadura e o governo da elite não como relíquias obsoletas.  Curtis Yarvin adota um cânone neorreacionário simplificado: a permissão para combater a ilusão da democracia, a ascensão do governo da elite e a reformulação das formas políticas pela era da tecnologia, modelo de governança superior. Ele evita a linguagem autoritária tradicional em favor de termos emprestados de negócios, tecnologia e engenharia. Por exemplo: em vez de “monarquia”, ele propõe “neocameralismo” – um sistema em que o estado é administrado como uma corporação com um CEO soberano.

Em vez de se referir ao fracasso da democracia em termos morais ou ideológicos, ele apresenta as marcas do autoritarismo tecnológico: (i) Em vez de “monarquia”, ele propõe o “neocameralismo” – um sistema em que o Estado é administrado como uma corporação com um CEO soberano. (ii) Em vez de se referir ao fracasso da democracia em termos morais ou ideológicos, ele afirma que ela é um “sistema operacional ruim” – um software defeituoso que deve ser substituído. (iii) Em vez de defender abertamente a ditadura, ele defende “remendar e atualizar” a governança como se fosse apenas uma questão técnica”.

*Manfred Back é graduado em economia pela PUC –SP e mestre em administração pública pela FGV-SP.

*Luiz Gonzaga Belluzzo, economista, é Professor Emérito da Unicamp. Autor entre outros livros, de O tempo de Keynes nos tempos do capitalismo (Contracorrente). [https://amzn.to/45ZBh4D]


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