Fórum Social Mundial – morte e ressurreição?

image_pdf

Por LISZT VIEIRA*

O Fórum Social Mundial tem pela frente um espaço a ocupar, batalhas a serem travadas, com agendas atualizadas, e não mais apenas um fórum que recusa a ação política em nome do debate

1.

O Fórum Social Mundial (FSM) nasceu como uma iniciativa para se contrapor ao Fórum Econômico de Davos, na Suíça, que reúne governantes e empresários, representantes da elite dominante no mundo e seu catecismo neoliberal. A primeira reunião do Fórum Social Mundial foi realizada em Porto Alegre, no ano de 2001, e contou com a participação de ONGs e movimentos sociais de várias partes do mundo, num total de 20 mil pessoas, de 117 países.

Depois do notável sucesso das reuniões em Porto Alegre, o Fórum Social Mundial começou a sofrer um processo de esvaziamento. As reuniões posteriores do Fórum Social Mundial, realizadas em diversos países, não tiveram o mesmo sucesso, e sua principal palavra de ordem “Um outro mundo é possível” começou a se enfraquecer, e a nova categoria política surgida nas reuniões iniciais do Fórum Social Mundial, o “altermondismo”, começou a perder força.

O excelente artigo de Mario Osava, publicado no portal Fórum 21, sob o título “Destacada agenda da diversidade, o Fórum Social Mundial busca se revitalizar” mostra os locais e datas das reuniões do Fórum Social Mundial, e analisa seu processo de esvaziamento e a tentativa atual de revitalização.

2.

Gostaria aqui de discutir dois fatores que, a meu ver, ajudam a explicar o processo de esvaziamento do Fórum Social Mundial, que guarda certa semelhança com o esvaziamento sofrido pelos partidos políticos junto à população em geral. Em primeiro lugar, já houve quem afirmasse que o Fórum Social Mundial não atualizou sua agenda, ficou preso a uma agenda tradicional da esquerda que não entusiasma a juventude e perdeu apoio na classe trabalhadora. Um bom exemplo é a agenda identitária que surgiu de forma isolada, isto é, a defesa dos direitos das mulheres, dos negros, dos homossexuais, dos povos indígenas, não se articulou num projeto que unificasse essas legítimas lutas por direitos num programa político.

Pior ainda, muitos setores da esquerda rejeitaram essas lutas porque desviariam o foco da luta de classes, e com isso se isolaram das lutas concretas do movimento feminista, negro, homossexual e indígenas. Num país de origem escravocrata, paternalista, machista, colonial, rejeitar essas lutas em nome de um dogma político só poderia mesmo levar à perda de apoio sofrida pelos partidos e entidades. Com isso, as lutas chamadas pejorativamente de “identitárias” permaneceram isoladas entre si e afastadas das lideranças políticas tradicionais, sejam partidárias ou de entidades.

Outro exemplo é a recusa em priorizar a questão ecológica como fundamental numa agenda política para o século XXI.  A impressão é que as lideranças políticas de partidos e entidades – com exceções, é claro – engoliram a questão ambiental de má vontade, sem articular com o núcleo central de suas preocupações políticas. O conceito de sustentabilidade traz em si uma dimensão política, social, econômica e cultural, além da dimensão ambiental, mas o termo sustentabilidade, quando usado, é geralmente utilizado apenas como enfeite retórico.

O segundo fator que explicaria o esvaziamento do Fórum Social Mundial diz respeito a uma decisão de seus fundadores que definiram o caráter não decisório do Fórum. As decisões caberiam aos grupos, partidos e movimentos participantes do Fórum Social Mundial, mas sua direção não deveria tomar nenhuma decisão. Isso teve a grande vantagem de evitar luta interna e eventuais dissidências, mas, a médio e longo prazo, contribuiu para o esvaziamento do Fórum Social Mundial.

Uma entidade que abre espaço para discussões, mas não decide nada, perde atração e não mobiliza organizações e movimentos que, além das discussões, querem agir, unindo teoria à prática. E agir em função das prioridades e metas que escolheram, nem sempre priorizadas pela direção do Fórum Social Mundial. Isso exige um trabalho constante e necessário de costura política.

Na agenda “altermondista” internacional, um bom exemplo é a denúncia do tamanho do gasto militar no mundo em 2023, o maior desde a Segunda Guerra Mundial. Os EUA, sozinhos, foram responsáveis por 41% de toda a despesa militar mundial. A Rússia gastou um terço do seu orçamento com gastos de defesa (G1, 15/2/2024). E o Relógio do Juízo Final, criado para alertar sobre a destruição da humanidade por uma guerra nuclear, passou de 7 minutos para meia noite, quando foi criado, para os atuais 90 segundos para meia noite, que seria o cataclisma. Mas esses perigos são vistos como algo distante, assim como o risco de destruição da humanidade pela devastação dos recursos naturais e pelas mudanças climáticas que há décadas vêm sendo denunciadas pelos cientistas e ambientalistas de todo o mundo.

O novo encontro do Fórum Social Mundial em Katmandu, no Nepal, de 15 a 19/2/2024, pretende retomar e renovar a energia que no passado moveu os altermondistas no sentido de articular internacionalmente um projeto político baseado na esperança de que “outro mundo é possível”.

Com o enfraquecimento, em muitos países, do neoliberalismo, cujo fracasso não pode mais ser escamoteado, e com muitos Estados debilitados por décadas de ofensiva neoliberal, abre-se espaço para uma atuação mais enérgica e efetiva da sociedade civil, empunhando suas antigas bandeiras de cidadania mundial. Um exemplo importante foi a mobilização, em todo o mundo, da sociedade civil contra o genocídio dos palestinos pelo Governo de Israel.

O Fórum Social Mundial tem pela frente um espaço a ocupar, batalhas a serem travadas, combates que requerem lideranças dinâmicas, com agendas atualizadas, e não mais apenas um fórum que recusa a ação política em nome do debate.

*Liszt Vieira é professor de sociologia aposentado da PUC-Rio. Foi deputado (PT-RJ) e coordenador do Fórum Global da Conferência Rio 92. Autor, entre outros livros, de A democracia reage (Garamond). [https://amzn.to/3sQ7Qn3]


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Para além de Hannah Arendt e Antonio Gramsci
04 Feb 2026 Por DYLAN RILEY: Arendt erra ao diagnosticar a atomização como causa do totalitarismo; a análise ganha rigor com Gramsci, para quem a crise é disputa de hegemonia na sociedade civil organizada
2
A Paris de Rubem Braga
31 Jan 2026 Por AFRÂNIO CATANI: Através de um olhar estrangeiro e singular, Rubem Braga capturou em suas crônicas a alma vibrante da Paris intelectual dos anos 1950, transformando encontros em literatura
3
“Em política, o que parece, é”
30 Jan 2026 Por JEAN MARC VON DER WEID: A esquerda, paralisada pelo seu telhado de vidro, defende instituições suspeitas e perde a chance histórica de desmascarar a corrupção que consagra o poder do dinheiro
4
O teto de vidro da decolonialidade
29 Jan 2026 Por RAFAEL SOUSA SIQUEIRA: A crítica decolonial, ao essencializar raça e território, acaba por negar as bases materiais do colonialismo, tornando-se uma importação acadêmica que silencia tradições locais de luta
5
O exemplo de Sorbonne
29 Jan 2026 Por EVERTON FARGONI: A recusa da Sorbonne aos rankings é um ato de insubordinação: nega a redução do conhecimento a métricas e reafirma a universidade como espaço de crítica, não de produtividade alienada
6
Para além de Marx, Foucault, Frankfurt
25 Jan 2026 Por JOSÉ CRISÓSTOMO DE SOUZA: Apresentação do autor ao livro recém-publicado
7
A produção social do atraso
02 Feb 2026 Por FRANCISCO TEIXEIRA: Caio Prado desmonta o etapismo da esquerda ao mostrar que o atraso não é resíduo feudal, mas peça funcional do capitalismo dependente
8
O sacrifício de Fernando Haddad
02 Feb 2026 Por LUIS FELIPE MIGUEL: Sua trajetória é o retrato de um talento ofuscado pela conjuntura: o político preparado que a era da simplificação brutal condenou ao papel de mártir tático
9
Energia nuclear brasileira
06 Dec 2025 Por ANA LUIZA ROCHA PORTO & FERNANDO MARTINI: Em um momento decisivo, a soberania energética e o destino nacional se encontram na encruzilhada da tecnologia nuclear
10
Eleni Varikas (1949-2026)
30 Jan 2026 Por MICHAEL LÖWY: O legado de Eleni Varikas é a heresia crítica: um pensamento que via nos párias do mundo a chave para desmontar as engrenagens da dominação
11
A ilusão da distopia
27 Jan 2026 Por RICARDO L. C. AMORIM: O novo capitalismo não retorna ao passado bárbaro; ele o supera com uma exploração mais sofisticada, onde a submissão é voluntária e a riqueza se concentra sem necessidade de grilhões visíveis
12
O que Daniel Vorcaro falou na polícia?
31 Jan 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: O erro de Vorcaro foi confundir cinismo com realismo: acreditou no Brasil caricato dos derrotistas, não no país sério que o julga e condena
13
O redesenho da estratégia dos Estados Unidos
18 Jan 2026 Por MAURICIO METRI: Os recentes ataques à Rússia, Irã e Venezuela revelam a geoestratégia trumpista de realinhamento: isolar a China, recompor relações com Moscou e assegurar o domínio hemisférico
14
Avaliação e produtivismo na universidade
23 Jan 2026 Por DANICHI HAUSEN MIZOGUCHI: A celebração das notas da CAPES diante do estrangulamento orçamentário revela a contradição obscena de uma universidade que internalizou o produtivismo neoliberal como nova liturgia acadêmica
15
Uma revolução esquecida
31 Jan 2026 Por RONALD LEÓN NÚÑEZ: O SPD escolheu o pacto com os generais em vez do poder dos conselhos, sacrificando a revolução socialista no altar da ordem burguesa
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES