Ganhar a guerra?

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Por GILBERTO LOPES*

O encontro no Alasca simboliza uma virada geopolítica crucial: os dois vizinhos continentais se olham de frente, relegando a Europa às costas e reescrevendo as regras da ordem pós-Guerra Fria, onde a chave já não é a expansão da OTAN, mas a negociação direta entre Washington e Moscou

A saudação de Vladimir Putin ao presidente dos Estados Unidos – “Good afternoon, dear neighbour” – quando se encontraram junto aos aviões que os levaram ao encontro no Alasca, na sexta-feira passada, 15 de agosto, revela o segredo de uma mudança que a reunião resume.

Embora sejam vizinhos, a história manteve-os de costas um para o outro. É raro vê-los como vizinhos. É mais frequente vê-los em confrontação, cada um olhando para a Europa.

O “bom dia” de Vladimir Putin ao seu vizinho fez com que, de repente, coincidissem história e geografia. Algo que, até então, não acontecia. Parece-me que, visto com atenção, isto simboliza uma mudança radical. Os dois vizinhos viraram-se para olharem-se de frente no encontro do Alasca. Nas costas deles, ficou a Europa.

É impossível saber, por enquanto, se a mudança será permanente, se será duradoura. Mas a leitura dos comentários sobre a cúpula, principalmente nos meios de comunicação europeus, revela sua importância.

Como diziam os correspondentes do jornal El país uma semana antes da reunião, “meio ano de negociações e milhares de mortos depois, as concessões humilhantes dos aliados europeus nos últimos meses para que o republicano apoiasse Kiev parecem ter sido em vão”. “O presidente russo conseguirá uma fotografia com o estadunidense e porá fim ao estatuto de pária em que se encontrava”.

O texto reflete bem esta sensação dos meios de comunicação ocidentais, incluindo a ideia de que Vladimir Putin se encontrava num “estatuto de pária”, o que os fatos dificilmente demonstram. Que o Ocidente tenha cortado relações com Vladimir Putin não significou que o presidente russo estivesse isolado do mundo. A declaração parece lembrar aquela outra, quando, na Grã-Bretanha, a imprensa dizia: “Névoa no Canal da Mancha, continente isolado”. Mas esses eram outros tempos.

Um encontro importante

Para analistas russos, como Fyodor Lukyanov, editor da revista Russia in Global Affairs e diretor do Valdai International Club, a cúpula tem uma importância semelhante à das negociações para a reunificação alemã há cerca de 35 anos. Um processo que, na opinião dele, “lançou as bases para o desenvolvimento político das décadas seguintes”. Resta saber se a reunião do Alasca terá a mesma relevância. Se significará uma mudança duradoura na ordem internacional herdada da Guerra Fria. Voltaremos a esta ideia mais adiante.

Para o primeiro-ministro eslovaco, Robert Fico, o encontro apagou a visão em preto e branco sobre o conflito, que a narrativa ocidental tentava impor. “Temos que falar de garantias de segurança iguais para a Ucrânia e para a Federação Russa, tendo em conta as raízes históricas do conflito”, afirmou Fico.

No portal Brasil247, também era possível ler: “Vladimir Putin e Donald Trump reescrevem as regras da geopolítica no encontro do Alasca. Mais do que um avanço nas negociações de paz na Ucrânia, o encontro representou “uma mudança estrutural nas relações de poder globais. Essa mudança inclui uma redistribuição do papel da Europa no cenário internacional, que o chanceler alemão resumiu bem quando afirmou que “a União Europeia não deveria se sobrestimar; que o ator chave nesse cenário continua sendo Washington”.

Sim, Washington. Mas, como ficou claro na reunião do Alasca, o interlocutor é Moscou!

A Europa aposta na guerra, sem os recursos necessários para isso. Com os laços cortados com Moscou, com todas as iniciativas diplomáticas abandonadas, a União Europeia discute seu orçamento principalmente orientado para a guerra. Destinou 150 bilhões de euros para o recém-criado Security Assistance Facility, que os países da União Europeia poderão utilizar para promover um programa de rearmamento e apoio militar à Ucrânia.

Isso resulta em dois problemas (além do problema que significa pensar que a guerra é o nosso destino dramático): um com os países altamente endividados – entre eles, França, Grã-Bretanha e Itália – e outro com os países “austeros” – como Alemanha e Holanda – que lideraram a luta contra qualquer tentativa de gerar dívida às custas da União Europeia. Ambos serão agravados pelas despesas acordadas.

Ganhar a guerra

Não é possível compreender os movimentos em torno do conflito na Ucrânia sem que se faça referência aos objetivos desta guerra.

A Rússia explicitou-os: pôr fim à expansão da OTAN e obter garantias de segurança em sua fronteira com a Ucrânia. Isso implica medidas contra o armamentismo ou a presença de tropas da OTAN neste país, o que Moscou considera inaceitável; o controle dos territórios fronteiriços já parcialmente ocupados, com uma população majoritariamente de origem russa; e a mudança de regime em Kiev.

Naturalmente, tudo isto terá que ser negociado. A chave, parece-me, é a exigência de segurança para Moscou. Algo semelhante ao que o Ocidente está exigindo para a Ucrânia, embora sem nunca considerar as exigências similares da Rússia.

“Ganhar a guerra” não é um objetivo fácil de definir neste caso. O que significa? As garantias que tanto a Ucrânia como a Rússia exigem podem ser alcançadas de várias formas. Donald Trump reiterou sua oferta à Ucrânia na reunião de segunda-feira em Washington.

Moscou não parece ter qualquer objeção porque não pretende conquistar a Ucrânia. O conflito atual não é territorial, como demonstravam os Acordos de Minsk, assinados em 2014 e 2015 – boicotados pelo Ocidente e pela Ucrânia. O que estava em discussão era a garantia de segurança para a população de origem russa nas regiões fronteiriças. Descartados esses acordos, Moscou decidiu fazer valer os direitos desta população pela força das armas.

Entretanto, faz ainda menos sentido a afirmação de dirigentes europeus fixando uma data para a próxima agressão russa contra o Ocidente. Falam de preparação para a guerra, como se essa guerra pudesse ser outra que não uma guerra nuclear.

Na verdade, a história percorreu a direção oposta, tanto na Segunda Guerra Mundial como na Guerra Fria. Não foram os russos que iniciaram uma marcha rumo ao Ocidente.

O complexo meio-jogo do xadrez

Fyodor Lukyanov indicou que a Ucrânia é o cenário mais visível das mudanças históricas que ultrapassam suas fronteiras. Concordo com essa ideia. Com as peças distribuídas no tabuleiro de xadrez há mais de três anos, chegamos a um meio-jogo complexo, em que os movimentos ainda não deixam claro o resultado.

Neste cenário, os movimentos estão orientados, em primeiro lugar, a atrair o apoio de Washington, uma potência capaz de inclinar a balança para um lado ou outro. O Ocidente insistiu num cessar-fogo, uma questão colocada na mesa por Donald Trump que, finalmente, parece ter compreendido que é uma medida inaceitável para a Rússia: não levaria necessariamente ao fim da guerra, mas contribuiria para o fortalecimento da Ucrânia, que está em desvantagem militar.

“A Ucrânia deve tornar-se um porco-espinho de aço”, repetiu a presidente da Comissão Europeia, a conservadora alemã Ursula Von der Leyen, para quem “a paz deve ser alcançada por meio da força”. Para atrair Donald Trump, Von der Leyen argumenta que “o que importa deve ser parar a matança”. Preocupação difícil de ser levada a sério, considerando a posição da União Europeia relativamente aos assassinatos em Gaza. A Europa aposta no aumento da ajuda militar, na derrota da Rússia. Uma trégua ajudaria a reforçar as posições da Ucrânia. A Rússia não a aceitará.

Depois da reunião no Alasca, as peças deste xadrez moveram-se novamente durante a reunião de Volodymyr Zelensky e dos líderes europeus com Donald Trump na Casa Branca, na segunda-feira, 18. O jogo segue. O objetivo não é definido por considerações humanistas sobre matanças, nem apenas pelo conflito na Ucrânia, mas pela ordem política do pós-Guerra Fria. O jogo neste tabuleiro não pode ser entendido sem uma visão do contexto mundial.

O fim da dinâmica da Guerra Fria

Em julho de 1990, Mikhail Gorbachev negociou com o chanceler alemão Helmut Kohl a retirada das tropas russas da Alemanha e a adesão do país à OTAN. Eram os estertores da Guerra Fria. Gorbachev concordou. O secretário de estado James Baker prometeu-lhe então uma mudança no caráter da OTAN, sua transformação numa organização mais política do que militar. E que não se expandiria para o Leste. Como sabemos, nenhuma destas promessas foi cumprida.

O presidente Ronald Reagan pôs fim à Guerra Fria nos termos de Washington. Mas hoje, 35 anos depois, a questão está de novo sobre a mesa, com essas regras contestadas por Moscou. E, embora em outros termos, também pela China e pelo Sul global.

A OTAN não pode continuar aproximando-se das fronteiras russas sem pagar um preço. A Europa segue apostando na OTAN, resiste à oposição russa. Donald Trump parece compreendê-lo e aceitá-lo. Os papéis mudaram. O de Reagan de então é encarnado hoje por Putin. O de Gorbachev é o de Donald Trump.

Um cenário mais amplo

Nem tudo, como dissemos, está resolvido na Ucrânia, embora a importância do que aí for decidido seja evidente pelos imensos recursos investidos pelos Estados Unidos e pela Europa neste conflito. Mas é a emergência da China no cenário mundial que constitui o maior desafio à ordem política que surgiu da Guerra Fria, com suas instituições econômicas e sua ordem política liberal, muitas vezes imposta na América Latina por golpes de Estado e regimes militares.

O reconhecimento internacional de uma só China, com suas consequências para a inevitável incorporação de Taiwan ao país, é a questão mais sensível. A China considera-o também um assunto interno, o que o torna particularmente sensível. É, no entanto, objeto de pressões pelo Ocidente. É parte das tensões criadas em torno da presença cada vez mais relevante da China na política, na economia e na arena militar internacional.

Além da China, Donald Trump gerou conflitos comerciais com aliados até agora próximos, incluindo na América Latina, onde a pressão sobre o Brasil atingiu níveis poucos habituais. Do mesmo modo, o genocídio de Israel em Gaza gerou novos alinhamentos internacionais, todos cenários em que as velhas regras do mundo pós-Guerra Fria enfrentam resistências cada vez maiores.

*Gilberto Lopes é jornalista, doutor em Estudos da Sociedade e da Cultura pela Universidad de Costa Rica (UCR). Autor, entre outros livros, de The end of democracy: a dialogue between Tocqueville and Marx (Editora Dialética) [https://amzn.to/3YcRv8E]

Tradução: Fernando Lima das Neves.


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