O presidente no divã

Imagem: João Nitsche

Por JOÃO PAULO AYUB FONSECA*

Para meu espanto, ele disse: “vim aqui porque estou vivendo uma… uma… uma… você sabe, Dr. dizem que a idade compromete o desempenho do ser humano. No meu caso é diferente, faço flexão, tenho perfil de atleta e sempre tive… mas aí a gente acaba com esse problema de… de…”

 

Nessa história pouca gente vai acreditar. Mas posso garantir que um dia desses, essa semana mesmo, recebi uma estranha mensagem. Número privado. Era urgente. Dizia ainda que o destino patriótico batia à minha porta. O presidente do Brasil queria uma sessão de análise e minha agenda deveria ser fechada para o dia de sua chegada. O assessor encarregado dos detalhes da consulta deixou bem claro: fechar a rua era com eles!

Que meus colegas não ouçam o que acabo de dizer, pois achei estranho um tão imprevisível contato. Por que eu? E por que logo o presidente vir procurar a “cura pela fala”, ele que demonstra tanto conforto no uso de suas metáforas fecais? Para começar, muitos analistas, bem mais perspicazes do que eu, vêm dizendo nos jornais que o quadro diagnóstico do presidente é inequívoco: perversão! E o senso comum dos analistas não se cansa de repetir que essas pessoas, os perversos, dificilmente vêm nos visitar.

Da minha parte não me dou tais liberdades de psicanalisar publicamente quem não se deita no divã. Acho mesmo que a coisa não funcionaria a não ser por aí, nessa mobília consagrada por Sigmund Freud. Embora o tal assessor não me desse a opção da negativa – tratava-se de uma convocação! –, disse comigo mesmo que aceitaria a missão.

Pois bem, ele chegou. Rapidamente deixamos a pompa oficial de lado e observei com atenção o homem se abrir. Para meu espanto, ele disse: “vim aqui porque estou vivendo uma… uma… uma… você sabe, Dr. dizem que a idade compromete o desempenho do ser humano. No meu caso é diferente, faço flexão, tenho perfil de atleta e sempre tive… mas aí a gente acaba com esse problema de… de…” Como a palavra não surgiu naturalmente em sua boca, e notando que nada do que dizia parecia ter um fim objetivo, o corpo todo pareceu bradar em alto som: “é o seguinte Dr, a pipa do vovô não sobe mais, tá ok? Só que o vovô vai fazer o que, porra?!”.

No foro íntimo pensei: o presidente sofre de uma séria “crise de gozo”. Segundo ele, as palavras ainda meio truncadas, o sofrimento causado por não mais “comparecer” com seu órgão genital tantas vezes por ele exaltado era insuportável. Um mal que contaminava toda a sua vida, ele dizia. E que agora gozar mesmo era só nas redes sociais da internet, daqueles “idiotas esquerdistas”. Já despido de sua jaqueta preta bordada com a insígnia “Abutres do Inferno”, aquele homem cuja expressão carregava abatimento e cansaço me olhava de frente. Sem que eu perguntasse, disse que a jaqueta era um presente recebido dos apoiadores de sua última “motociata”.

No instante seguinte, sem hesitar, o presidente analisante foi logo em direção ao divã, se deitou e perguntou por onde começar. Tinha pressa e falou: “Vamos logo. Pau na máquina! Vamos acabar com isso aí, tá ok?” Eu disse então que poderíamos começar, mas que antes deveria esclarecê-lo sobre a regra fundamental da psicanálise freudiana, a chamada “regra da associação livre”. Nela, o paciente deve dizer tudo o que lhe passa pela mente, sem críticas e censuras, mesmo que aparentemente não tenha qualquer importância. Em hipótese alguma deveria ser desrespeitada. Nesse instante ele olhou de lado com um sorriso irônico, achou que eu tirava um “sarro” da sua cara. Não sendo exatamente esse o meu ofício, quase adivinhei seus pensamentos: “não é possível que o Dr. aqui não conheça a fama de insubordinado da qual tanto me orgulho… hahaha”.

Assim mesmo, ainda que o gesto sagrado que consiste no estabelecimento da regra fundamental tenha sido maculado logo de saída, eu disse que aquilo era sério, e para a coisa funcionar a “associação livre” deveria ser devidamente praticada por ele, entre nós. Ele aceitou e, algo que me impressionou bastante, mudou o semblante em fração de segundos. Com ar de profunda tristeza, o presidente cantarolou: “Tudo azul, adão e Eva, no paraíso/Tudo azul, sem pecado e sem juízo…” Logo reconheci o sucesso de Baby do Brasil, mas o que me ficou mesmo gravado em minha mente foi a particularidade do som da voz do presidente inundando o significante “azul”. Guardei essa palavra comigo e perguntei o que significava aquela música. Ele disse que era a música da moda, um grande sucesso dos tempos de quartel.

Falaria o presidente de sua juventude? Percebi que ele estava sempre à espera de uma resposta bate-pronto, assim como se bate continência frente a um superior, mas apenas pedi para que continuasse. Nessa hora ele saiu das águas profundas e escuras onde havia mergulhado, gargalhou e disse: “hahaha vocês são todos iguais, né? essa é a hora do fale mais sobre isso… hahaha” Passado o gesto de deboche, com o qual a meu ver se divertiu e gargalhou de modo um pouco exagerado, ressurgiu em sua face o triste semblante dizendo que nos tempos de quartel era assim, ele tinha tudo, nada lhe “falhava”.

Falhava ou faltava? Ato falho, pensei… E continuou: “era a ditadura, era a ditadura, era a ditadura…” O homem deitado à minha frente parecia buscar no analista uma cumplicidade paternal ao repetir essas palavras. Mas não vou entrar em detalhes sobre o que acontece no interior do “continente negro” da relação transferencial, essas coisas do ofício psicanalítico. Já a repetição de suas palavras, essa matéria bruta do psicanalista, ainda mais assim recolhida à flor da pele presidencial, estava gritando em meus ouvidos: “era a ditadura, era a ditadura, era a ditadura”. Perguntei o que era isso, a dita-dura (ao decompor a palavra, senti que havíamos, o presidente e eu, fisgado o seu verdadeiro significado!)

Subitamente o silêncio incômodo tomou conta da sala. Se eu disser ninguém vai acreditar: em impressionantes 15 minutos chegamos ao ponto crucial, estávamos completamente entregues ao espetáculo da irrupção do inconsciente! Era ela, a dita-dura! E a despeito do enfeite ficcional que essa narrativa clínica agora possa ter, era a mais pura verdade que se estabelecia naquela sala. A dita-dura. Estava aí a imagem do objeto (freudiano) irremediavelmente perdido do nosso presidente.

Quando a fala do analisante empacou, disse a ele que haveria de ter mais coisas nesse fundo de baú e que precisávamos avançar. Perguntei o que sentia, e aquele homem, acostumado com palavras tão precárias, ditas de qualquer maneira, como se lançadas num cuspe, pôde dizer do fundo de sua alma, da forma mais límpida possível, que agora em seu peito só havia “dor”, “saudade”, “impotência”.

Quando quis interrompê-lo, levantar da poltrona e indicar que voltasse noutro dia, ele mudou o tom choroso da voz. Continuou dizendo que o negócio “melou”, mas desta vez, renascido das cinzas (das lágrimas), estava ali de novo o azedume na sua fala habitual. Bom, aqui comigo pensei: ora essa, se “melou”, onde estaria a questão? A hora não era para brincadeira, então guardei a associação que insistia sobre meus pensamentos, a “ditadura melou”, a “ditadura melou”.

Sem se preocupar com a gravidade do que diria em seguida, não tanto pela crença nos imperativos éticos da clínica, muito longe disso, mas talvez por já saber que em poucas horas a tramoia sairia nos jornais, o presidente revelou que a compra dos 35 mil comprimidos azuis (o viagra) pelas Forças Armadas havia melado.

Eu não reconhecia mais aquela figura pública, vendo-o desesperado e desarmado dos sentimentos persecutórios e conspiratórios que lhe eram próprios. Dupla personalidade? Até pensei, mas não me deixei levar pela sedução do diagnóstico. Ao contrário, nesse momento quase não contive minha satisfação, já que desde o início percebi que havia algo mais naquele “azul”. Ele repetia “na época da dita-dura, a dita-dura, a dita-dura… tudo azul… o negócio melou…”

Perguntei o que ele faria com tanto comprimido azul. E com certa empolgação – confesso –, emendei a clássica e tão temível pergunta do diabo do conto “O diabo amoroso”, de Jacques Cazotte: Che vuoi (o que você quer), presidente? Ele disse: “Estou aqui porque não quero falhar, não posso falhar… Sempre imaginei que essa coisa era sempre garantida. Você precisa me ajudar”. Sem pestanejar, respondi ao presidente: “essa coisa que você tanto busca, o falo imaginário que não falha, a potência encarnada no indomável órgão genital, ela só pode lhe faltar”.

Mais do que ninguém o presidente deveria saber que há sempre uma outra pose por trás de quem posa. Ou então, como nós psicanalistas bem o sabemos, que a onipotência é a máscara predileta da impotência. Gosto de pensar que numa travessia psicanalítica, o processo que consiste em perder a pose – e refazê-la a partir de outro lugar –, é a especialidade da casa! “Para o seu mal não há cura, presidente”, disse a ele com um sorriso muito bem disfarçado, observando atento através das cortinas da janela a guarda presidencial montada e altamente armada. “E digo mais, presidente, isso que você busca, a tal da garantia, talvez nem mesmo exista”.

Ele se levantou e me olhou profundamente, o desalento estampado no olhar. Aposto que pensava na carga perdida do sonhado comprimido azul. Desta vez não deu qualquer sinal de que se sairia com mais uma de suas gastas bravatas, como a que diz “sou imbrochável!”. Estava abatido e, como se gastasse ali seu último cartucho, cochichando comigo, ele disse: “Dr., é o seguinte: nós damos um jeito, podemos pagar”.

Apesar de um último fio de esperança ainda sustentar a busca de um consolo, o desalento era irredutível. No fundo ele sabia que ali, no consultório de um desconhecido psicanalista, não havia mais o que fazer. A expressão emudecida do analista era a própria falta que sacramentava a sua derrota. Saiu sem nos despedirmos, virando as costas como se eu não mais existisse. Para o presidente e sua equipe a missão também falhou, não pude enfim dar um jeito naquela “pipa” que não se levantava.

*João Paulo Ayub Fonseca é psicanalista e doutor em ciências sociais pela Unicamp. Autor de Introdução à analítica do poder de Michel Foucault (Intermeios).