Por JOSÉ COSTA JÚNIOR*
A fusão entre a mente humana e as inteligências maquínicas promete uma revolução no entendimento e na aplicação do saber, abrindo portas para possibilidades antes inimagináveis
1.
As dinâmicas da vida conectada nos envolvem em categorias curiosas. Uma delas nos identifica como “produtores de conteúdo”, na qual, profissionalmente ou por hábito, produzimos e compartilhamos imagens, textos, fotos, citações, memes, áudios, vídeos, entre outras formas de conteúdo, no vasto universo digital.
Paralelamente, também somos “consumidores de conteúdo”, pois acessamos constantemente postagens, vídeos curtos, podcasts, publicações, episódios, séries, e outros conteúdos que nos interessem. Entre a produção e o consumo, está a busca de mobilização de atenção, já que nenhum conteúdo existe por si, mas para impactar a subjetividade de alguém. Nesse cenário, uma economia da atenção passa a pautar nossas preocupações e vocabulários – e influencer talvez seja uma das palavras mais comuns da atualidade.
Outra prática comum dos nossos cotidianos conectados é nos aliarmos cada vez mais a “inteligências artificiais” para ampliar nossas aptidões nas tarefas cotidianas, ganhando tempo para outros afazeres (quem sabe produzir ou consumir conteúdos). As facilidades desses recursos disponíveis no universo digital, que vão de tradutores automáticos à geração de textos formais e informais, passando por tecnologias que automatizam nossas casas, ampliam nossas competências e impactam nossas práticas com saídas fáceis e chamativas.
Em termos tecnológicos, tais recursos são de fácil acesso, ao mesmo tempo em que nunca nos sentimos tão influenciados por estímulos e maquinações – afinal os equipamentos necessários estão concretamente em nossas mãos. Tais tecnologias possuem uma natureza persuasiva, na medida em que possuem recursos algorítmicos capazes de acompanhar nosso rastro digital, oferecendo mais daquilo que queremos, atendendo aos nossos interesses e necessidades daquele instante.
Nossos hábitos, práticas, costumes, interesses, paixões etc., passam a ser mobilizados por rotinas automatizadas com o objetivo de capturar nosso foco e recursos.
Um ponto relevante aqui é que nossas capacidades cognitivas não são páreas para o rico potencial das tecnologias persuasivas e outras inteligências maquínicas. Entregamos nossa concentração ao feed infinito e ao seu mundo de possibilidades (e impossibilidades), assim como ficamos maravilhados com as soluções que as ditas inteligências artificiais nos oferecem, muitíssimo mais eficazes do que as nossas custosas elaborações cognitivas.
Não se trata aqui de criticar as interações sociais digitais e as possibilidades abertas pelos recursos artificiais, nem de demonizar o contexto de mobilização da atenção no qual estamos envolvidos – afinal, trata-se de um caminho que parece definitivo. Mas talvez possamos pensar na necessidade de cuidado com nossos recursos cognitivos, além de buscar algum tempo e espaço para dinâmicas de pensamento e concentração mais aprofundadas. Inclusive para elaborarmos mais criticamente aquilo que chega pelos meios tecnológicos.
2.
Uma dessas possibilidades, por exemplo, nos é oferecida pela literatura. Ao lermos detidamente um romance, uma crônica ou uma poesia, recebemos estímulos reflexivos ao pensar sobre o conteúdo daquilo que nos é exposto, ampliando nosso pensamento – inclusive dialogando com nossas próprias circunstâncias.
Criamos assim um espaço maior para o pensamento, fomentando um diálogo conosco e com os outros, o que nos estimula a imersões e reflexões mais aprofundadas. Trata-se, porém, de um exercício cognitivo exigente, tanto em termos de atenção quanto em termos de concentração – portanto, mais cansativo. Não é de se estranhar que o feed das redes ou a novidade constante dos vídeos curtos sejam mais atraentes e viciantes.
Além das formas literárias, temas filosóficos, científicos e artísticos mais elaborados podem nos fazer pensar outra vez, mobilizando nossa atenção a fundo, ampliando e treinando o nosso aparato mental. Tais estímulos têm o potencial de disparar questionamentos mais aprofundados sobre nossas concepções e perspectivas, pois, ao lidar com questões mais gerais, questionamos nossos conceitos e modos de vida, repensamos nossa condição e relação com o mundo e estimulamos diálogos com a nossa própria subjetividade.
Em ambientes onde “notícias falsas”, “tendências”, “viralizações” e “vícios digitais” são comuns, nos envolvermos com tais atitudes cognitivas mais exigentes é importante, tanto para estimular tais capacidades críticas, quanto para fugir da imediaticidade desse mundo digital. Num momento paradoxal, onde grandes avanços tecnológicos convivem com diversas crises – sociais, econômicas, ambientais e humanitárias – tais estímulos ao pensamento e à reflexão crítica nunca foram tão importantes.
Uma dinâmica análoga nos é descrita pelo poeta e filósofo Gotthold Lessing (1729-1781), em sua Dramaturgia de Hamburgo (1767). Lessing nos alerta para a necessidade de estímulos de pensamento para que possamos pensar por nós mesmos sobre as questões que nos desafiam.
Ele faz um lembrete sobre suas obras: “Lembro aqui aos meus leitores que estas páginas não devem encerrar um sistema dramático. Não tenho a obrigação de resolver as dificuldades que crio. Talvez minhas ideias sejam sempre um tanto díspares, ou até pareçam contradizer-se entre si, desde que sejam pensamentos onde os leitores encontrem material que os incite a pensar por si mesmos. Aqui nada mais quero senão espalhar fermenta cognitionis.”
É importante reparar que Lessing não quer oferecer verdades eternas e imutáveis sobre a vida e sobre o mundo, mas apenas “espalhar fermenta cognitionis”. Tais “fermentos do pensamento” são conjuntos de estímulos ao pensamento e à reflexão, que podem nos tirar da inércia cognitiva e de certezas pré-concebidas, num tempo dominado pela economia da atenção e por indústrias de inteligências artificiais.
Nesse sentido, mesmo entre o consumo e a produção de conteúdos com as tecnologias que nos são úteis e perigosas, precisamos de estímulos ao pensamento, os fermenta cognitionis que Lessing sugere, por várias razões. Para mantermos nossas capacidades de pensar e imaginar cenários, para além das visões pré-formuladas que nos chegam de vários modos e meios.
Para mantermos nossas capacidades de atenção e concentração, para além dos enquadramentos muitas vezes brutais e falseadores que percorrem o mundo digital na lógica algorítmica. E para mantermos nossas capacidades de pensar e refletir, para além da simplificação banal e carregadas que buscam simplesmente capturar nossa atenção e que relegam nossas capacidades mais distintivas a um segundo plano.
Não é fácil, mas é a luta que travaremos de agora em diante em busca de mantermos traços básicos de nossa humanidade, como a liberdade de atenção e de pensamento. O risco de não o fazermos fala por si: renegar aquilo que nos faz humanos.
*José Costa Júnior é professor de filosofia e ciências sociais no IFMG –Campus Ponte Nova.
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