Por DANIEL BRAZIL*
Comentário sobre o romance, recém-lançado, de Marcos Kirst
1.
Existe uma profusão de romances, geralmente de autores iniciantes, que colocam como protagonista um escritor em crise. É como se o ato de enfocar um “escritor” tornasse o enredo mais “literário”, ou a escolha desse tema o tornasse mais apreciado pelos seus pares. Uma dupla bobagem, já que contraria a história da literatura universal e sua infinidade de grandes personagens não-escritores, e porque um escritor não deve escrever para outros escritores, mas para leitores.
Marcos Kirst, em seu segundo romance, Exílios contorna de forma original essa armadilha. Seu personagem também escreve, mas é um jornalista investigativo, em pleno século XXI. Uma categoria em extinção, por sinal, nas redações dos tradicionais jornalões (e jornalecos) brasileiros.
Félix Garcia Leone, o protagonista, é filho de exilados, que fugiram da ditadura argentina de Jorge Videla e seus asseclas, em 1976. Mesmo sendo brasileiro, é chamado de “castelhano” pelos colegas. Formado em jornalismo, trabalha numa pequena cidade fictícia no Vale dos Sinos, no interior do Rio Grande do Sul. Um crime ocorrido anos antes desperta sua atenção, por envolver filhos de membros influentes da sociedade local.
Num fim de semana movido a álcool, drogas e sexo, numa chácara pertencente a um figurão local, uma jovem prostituta morreu em condições pouco esclarecidas. Para aumentar as suspeitas o principal acusado do possível assassinato, e posteriormente condenado, é o único negro presente no evento.
Félix vê na reabertura do caso a possibilidade de conquistar um sonhado Prêmio Esso de jornalismo, vendendo a reportagem para a grande imprensa da capital e até para a televisão. Não tem noção exata das forças conservadoras que terá de enfrentar, do diretor do jornal em que trabalha até o tabelião da cidade.
2.
O romance se desenvolve com fluência, ganhando tensão e complexidade. Marcos Kirst alterna as vozes narrativas, ora em primeira, ora em terceira pessoa, e não perde tempo em descrições de cenário ou divagações dispersivas. Rápido nas caracterizações, ágil nos diálogos, insere pitadas de humor ferino em calculada dosimetria.
Quando a barra pesa, o personagem é obrigado a fugir para São Paulo por algum tempo, tornando-se redator publicitário para conseguir pagar as contas. Mas deslindar o crime volta a ser uma obsessão, uma maneira de reaprumar sua fracassada carreira de jornalista e acertar contas com o passado. Volta a Porto Alegre e ao Vale dos Sinos, e mais não pode ser dito aqui, sob risco de revelar o desfecho.
A trajetória errante de Félix será também marcada pela presença discreta, porém marcante, das mulheres que irão balizar a sua vida, estendendo-lhe as mãos quando o naufrágio parece próximo. Estela, Soraia, Lina…
Escrito durante a pandemia, conforme revela o autor em um breve posfácio, o romance desnuda o painel social brasileiro com todas as suas desigualdades e distorções. O poder das pequenas elites econômicas encasteladas nas cidades do interior, mescladas com o conservadorismo, os preconceitos de classe, de cor e de origem (o apelido de “castelhano” não está aí à toa), a submissão dos pequenos jornais regionais aos anunciantes e políticos de plantão, o coronelismo regional e a onipresença de capangas e pistoleiros prontos a ameaçar quem coloque em risco a hegemonia da autointitulada “gente de bem”.
Marcos Kirst em alguns momentos parece brincar com os clichês de romance policial, mas evita cair nas facilidades do gênero. A narrativa não é linear, a linguagem é trabalhada em vários níveis de fala, e os personagens secundários nunca aparecem de forma gratuita. Franz Kafka é evocado explicitamente no início da narrativa e William Faulkner vai pontuar o desfecho, dando pistas do angustiado estado de espírito em que vive Félix Garcia Leone.
O resultado é um romance contemporâneo, pulsante, onde as pequenas imperfeições fazem parte da construção de um personagem profundamente humano e pungente, cuja trajetória parece muito próxima de todos nós.
*Daniel Brazil é escritor, autor do romance Terno de Reis (Penalux), roteirista e diretor de TV, crítico musical e literário.
Referência

Marcos Kirst. Exílios. São Paulo, Editora Patuá, 2025, 312 págs. [https://amzn.to/4gz98Yw]
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