Uma crítica do uso da Inteligência artificial

Imagem: Maxim Hopman
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Por WAGNER PIRES DA SILVA*

O verdadeiro perigo não reside na inteligência da máquina, mas na abdicação humana de pensar, legando à tecnologia a chave de nosso próprio aprisionamento

1.

Conversando, esses dias, com um conhecido, que trabalha com Economia criativa, me surpreendi ao ouvi-lo dizer que estava trabalhando com cinco estagiários. Sabendo das dimensões da atividade dele e das dificuldades para fechar as contas no fim do mês, quis saber como eles conseguiram esse acréscimo à equipe.

“Não, não são pessoas. São prompts de Inteligência artificial. Você não imagina o quanto tem sido uma mão na roda”.

Isso me deixou pensativo. A forma como ele falava dos “estagiários” era como se realmente fossem pessoas de carne e osso, com corações e mentes. Ora, Marx, no seu monumental estudo sobre o capitalismo, ao abordar a indústria de seu tempo, falava de trabalhadoras e trabalhadores como apêndices das máquinas. Agora, nem mais isso. Saberes e conhecimentos humanos substituídos por prompts.

Pasmem, a tecnologia não está dispensando apenas os trabalhadores de chão de fábrica, os que executam tarefas manuais ou de baixa especialização. Está tirando os empregos que exigiam pensar. Já se planeja um futuro sem advogados, engenheiros e outros profissionais, substituídos pela lógica implacável de uma máquina que, com certeza planja o traçado correto, manuseia códigos e referências de forma magistral, mas que é incapaz de ter empatia ou de considerar os sentimentos de cada um dos envolvidos.

Isso me faz lembrar de um pequeno poema de Bertold Brecht:

O Vosso tanque General, é um carro forte
Derruba uma floresta esmaga cem
Homens,
Mas tem um defeito
– Precisa de um motorista

O vosso bombardeiro, general
É poderoso:
Voa mais depressa que a tempestade
E transporta mais carga que um elefante
Mas tem um defeito
– Precisa de um piloto.

O homem, meu general, é muito útil:
Sabe voar, e sabe matar
Mas tem um defeito
– Sabe pensar.

2.

Com as Inteligências Artificiais, elimina-se um defeito: o ser humano. Ora, o sonho dos capitalistas sempre foi ter trabalhadoras e trabalhadores que não pensassem, prontos a executar o trabalho sem questionar. Agora, com a Inteligência artificial, o sonho parece estar se aproximando da realidade.

Não se usa mais motores de busca, para encontrar referências. Pede-se um texto pronto e lá se vai um texto, da Inteligência artificial assinado por um ser humano. A Inteligência artificial desenha, faz escreve contos, livros, avalia provas, toma decisões. As universidades cada vez mais preocupadas com estudantes que entregam textos redigidos por máquinas, elaboram e reelaboram resoluções e manuais sobre o uso da Inteligência Artificial.

Nascido nos anos 1980, minha expectativa do futuro era que a tecnologia nos livraria dos trabalhos cansativos, penosos e extenuantes, deixando a humanidade com tempo livre para pensar, criar, dedicar-se mais à cultura e a aprendizagem. Não reconheço nesta segunda década do século XXI, o futuro que sonhei no fim do século passado.

Perdemos habilidades preciosas. Renunciamos a elas em troca das máquinas nos tirarem a possibilidade de sermos humanos! Porque a paródia de humanidade que o capitalismo nos obriga a representar não chega nem a ser uma piada, quando se olha para o abismo para onde alegremente somos empurrados pelo sistema.

Primeiro porque os recursos consumidos para que a Inteligência artificial realize as tarefas para as quais somos plenamente capazes de realizar são imensos. Para uma sociedade que, na virada do século, descobriu as preocupações com o meio ambiente e a sustentabilidade, bem depressa nos deixamos seduzir.

Sem falar no fato de que as Big Tech controlam a Inteligência artificial e são elas que configuram a forma como usamos e nos relacionamos com as Inteligências artificiais. Ética? Já precificaram a falta dela. Limites? Apenas os do lucro. Assim, conhecimento e criatividade vão sendo expropriados do conjunto da humanidade, em benefício das organizações que detém o controle das tecnologias.

O conhecimento, que até então se multiplicava quando partilhado, o que fazia árdua a tarefa de mercantilizado, agora vai sendo atado às plataformas e se tornando privilégio de uma máquina. Os argumentos de quem utiliza a Inteligência artificial são o ganho de tempo, diminuição da fadiga, de custos entre outros, mas o que não veem é que aos poucos o trabalho intelectual, a atividade de pensar se esvai como areia fina por entre os dedos.

No conto de Mary Shelley, Frankenstein repugna a criatura a quem deu a vida. No entanto, o mal já estava feito e sua criação o levou à ruína. Sua criatura se mostrou mais forte, ágil e inteligente que seu criador. Hoje, não repugnamos a Inteligência Artificial. De bom grado lhe entregamos tudo: nossos dados, nosso conhecimento, sem perceber que o risco não vem do novo, mas da velha ambição de uma classe que só pode existir, por meio da desumanização das demais classes. A tragédia do Prometeu moderno poderá nem assustar quando comparada ao destino do Prometeu tecnológico, a nossa sociedade.

Felizmente, a preocupação com os usos e abusos da Inteligência Artificial já se faz presente. Este mês de outubro começou com uma conferência na Universidade Federal do ABC (UFABC), em São Paulo, sobre Inteligência artificial e direitos sociais. Iniciativa louvável, que precisa ser replicada mais vezes e em outras instituições e locais, para que possamos estabelecer regras e limites e pensar na Tecnologia para livrar a humanidade das atividades penosas e nos permitir ser mais humanos, desenvolvendo todo nosso potencial de ser mais.

*Wagner Pires da Silva é doutor em educação pela Universidade Federal do Cariri (UFCA).


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