Notas sobre A Metamorfose

Menashe Kadishman, Rochas Amarelas, 1973–4,
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Por MARYANNA BINDER & GUILHERME DEFINA

A verdadeira monstruosidade não estava na carapaça de Gregor Samsa, mas no silêncio que se instalou quando seu valor deixou de ser medido pela utilidade

1.

No mês de outubro, A Metamorfose, de Franz Kafka, completou 110 anos de publicação. Poucas obras atravessaram o século com tamanha atualidade. O que Franz Kafka escreveu em 1915 permanece como um espelho incômodo do presente, um retrato das formas pelas quais a vida social transforma corpos em encargos e o humano em peso.

O livro narra a história de Gregor Samsa, que certa manhã acorda metamorfoseado em um inseto. Sua primeira preocupação, no entanto, é não perder o trem para o trabalho. Enquanto tenta compreender o que lhe aconteceu, é pressionado pela família e pelo chefe, até que, ao se revelar, causa espanto e repulsa. A partir daí toda a dinâmica de sua vida se altera.

Gregor não pode mais trabalhar, sua família passa a vê-lo como um ser repugnante, e sua irmã assume os cuidados com ele. Mas Gregor era também o provedor da casa, e sua incapacidade de trabalhar obriga todos a buscar novos meios de sobrevivência. A metamorfose, portanto, não transforma apenas Gregor, mas todo o seu entorno. Aos poucos, por meio de silêncios, choro e cansaço, o peso da nova vida se torna insuportável, até que, enfim, é dito em voz alta, ferindo a todos.

“Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso”.

Há frases na literatura que se tornam diagnósticos de uma época, e a de Kafka é uma delas. A Metamorfose é, à primeira vista, a história de um homem isolado; em profundidade, é o retrato de uma estrutura social que transforma vidas em encargos e corpos em fardos. Gregor Samsa era o trabalhador ideal, disciplinado, obediente e devoto à família. Quando deixa de produzir, perde também o amor e o reconhecimento.

A monstruosidade não está em Gregor, mas na reação dos que o cercam. Como observa Axel Honneth, a condição de sujeito moderno depende do reconhecimento social; sem ele, “a identidade se fragmenta”. A recusa da família em reconhecê-lo como humano é também uma negação social, o colapso da reciprocidade que sustenta a vida coletiva.

Em termos marxianos, Gregor encarna o trabalhador alienado em sua expressão mais literal: sua forma humana se dissolve, mas a culpa pelo não trabalho persiste. O corpo deformado torna-se símbolo da alienação total, da perda da humanidade como preço da produtividade. A metamorfose torna visível o que o capitalismo realiza de modo invisível – desfigura o sujeito enquanto o obriga a continuar servindo.

2.

“Ele não está bem, senhor, pode acreditar. Se estivesse, ele alguma vez ia perder um trem? O rapaz só pensa no trabalho. […] Há oito dias que está em casa e não houve uma única noite que não ficasse em casa”.

Gregor não vê alternativa senão expor-se diante da família e do gerente, que reagem com repulsa imediata. Sob a ótica de Richard Sennett, esse momento traduz a corrosão do caráter: diante do sofrimento, todo o reconhecimento por sua dedicação anterior ao trabalho e à família é anulado. Para Richard Sennett, a flexibilidade exigida pelo capitalismo destrói os vínculos morais e afetivos que antes sustentavam a vida social. Quando Gregor deixa de servir à lógica do desempenho, perde seu valor – e com ele, também os laços familiares e profissionais que o definiam. São vínculos frágeis, cuja permanência depende da utilidade do indivíduo no sistema.

Zygmunt Bauman descreve a modernidade líquida como o tempo da renovação constante, em que a individualização se sobrepõe ao coletivo. Essa fluidez, que transforma o novo em exigência permanente, gera relações vulneráveis e inseguras. A rápida mudança na dinâmica da família Samsa, somada à indiferença do trabalho diante da condição de Gregor, expressa esse fenômeno: os vínculos se desfazem à medida que o sujeito deixa de ser funcional. Quando a utilidade se dissolve, a humanidade também se esvazia.

Sob a perspectiva de Pierre Bourdieu, o que se observa é a violência simbólica – forma de dominação que se impõe por meio de normas e valores naturalizados, reproduzida pela família de Gregor, por seu gerente e pelos hóspedes. Ao se depararem com o diferente, o estranho, eles o excluem e o repudiam. Essa exclusão é também uma violência: ao negar Gregor, reproduzem a lógica social e estatal de discriminação.

A naturalização desses comportamentos pode ser compreendida pela noção de banalidade do mal, de Hannah Arendt, que descreve a reprodução automática de violências por sujeitos incapazes de refletir sobre seus atos. Nesse sentido, a violência contra Gregor reflete a indiferença cotidiana que impede o reconhecimento do outro como parte do mesmo mundo.

3.

A família de Gregor representa a sociedade cansada de cuidar. O esgotamento que toma conta deles antecipa o que Byung-Chul Han chamaria de “sociedade do cansaço”: um mundo em que o excesso de desempenho transforma o cuidado em peso e o outro em obstáculo. A metamorfose de Gregor Samsa é a parábola moderna da sociedade do desempenho: onde a dignidade depende da utilidade e o cansaço do cuidado vira barbárie. O amor, nesse contexto, é rechaçado pela produtividade.

Sob a lógica da autoexploração, o sujeito não é mais coagido por forças externas, mas por si mesmo. Ele internaliza a obrigação de ser eficiente, útil e incansável. Gregor, ao sentir culpa por não poder mais trabalhar, e sua família, ao vê-lo como um fardo, expressam essa transformação. Todos se tornam vítimas do mesmo sistema que converte o fracasso em vergonha e o descanso em culpa.

Esse cansaço ultrapassa o plano físico e alcança o existencial. O cansaço da família Samsa não é apenas o de corpos sobrecarregados, mas o de vidas que perderam o sentido diante da lógica da produtividade. O outro, aquele que demanda tempo, escuta e cuidado, torna-se intolerável, pois recorda os sujeitos de sua própria exaustão. Gregor, tornado inútil aos olhos da família, simboliza a condição contemporânea de quem, ao deixar de produzir, perde também o direito de ser visto, ouvido e amado.

O sofrimento de Gregor não reflete apenas a época em que a obra foi escrita, mas também a nossa. Extensas jornadas de trabalho, estranhamento e exclusão do diferente continuam a marcar o século XXI. Tais dinâmicas são frequentemente denunciadas, mas perdem força diante da ordem social vigente, que naturaliza a produtividade como valor supremo.

Reler A Metamorfose hoje é reler a própria sociabilidade sob o capitalismo. Adolescência, doença mental, velhice – todas são formas de metamorfose social, momentos em que o sujeito deixa de corresponder ao ideal de autonomia e eficiência. A resposta institucional e afetiva é quase sempre a mesma: isolamento, impaciência e abandono.

Franz Kafka não oferece saída – e talvez por isso sua denúncia seja tão precisa. Sua literatura revela o ponto em que a barbárie deixa de ser ruptura e se torna rotina. Quando o cuidado cansa e a empatia se torna luxo, o inumano já venceu.

E talvez seja por isso que, 110 anos depois, A Metamorfose continue necessária: porque seguimos cercados por metamorfoses invisíveis – de corpos exaustos, afetos descartados e vidas que só valem enquanto produzem.

*Maryanna Binder é graduanda em psicologia na Faculdade Barão de Mauá.

*Guilherme Defina é mestrando em ciência política na Unicamp.

Referência


Franz Kafka, A Metamorfose. Tradução: Modesto Carone. São Paulo, Companhia das Letras, 1997, 96 págs. [https://amzn.to/3XyNc6P]


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