Uma utopia tecnopolítica

Bruce Nauman, Mapeando o estúdio II, 2025
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Por LUÍS SÉRGIO CANÁRIO*

Uma revolução que deposita no Estado e numa elite técnica a missão de redirecionar a ciência, sem confrontar a forma-valor, é um fetichismo despolitizante que anula a luta de classes

João Francisco Cassino e Ricardo Bimbo publicaram, em 27 de janeiro de 2026, um artigo no site A Terra é Redonda com o título “Tecnociência solidária”.

O texto abre com essa frase: “A tecnociência solidária propõe uma revolução epistemológica: substituir a métrica das patentes pelos comuns do conhecimento, alinhando ciência às urgências sociais e não ao mercado”.

E mais adiante: “uma das posições mais avançadas vem das ideias do professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Renato Dagnino, que também é membro de nosso setorial. Dagnino defende o estabelecimento de uma tecnociência solidária”.

1.

Analisando de perto as proposições de Renato Dagnino, que os autores defendem e tomam como centrais em seu texto, a proposta de uma tecnociência solidária acaba por esbarrar em um erro teórico básico: tratar a ciência e a tecnologia como possíveis de serem autonomamente reorientadas, quando são formas histórica e socialmente determinadas do processo de valorização capitalista.

As máquinas, a tecnologia e a ciência não são instrumentos neutros que podem ser capturados por projetos normativos variados. São, objetivamente, capital fixo incorporados à subsunção real do trabalho ao capital. O desenvolvimento científico e tecnológico entra no processo produtivo como força produtiva do capital e não do trabalhador nem da sociedade.

Ao deslocar o foco da crítica da forma-valor, as diferentes maneiras pelas quais o valor, trabalho humano abstrato, se manifesta necessariamente para a orientação da tecnociência, Renato Dagnino transforma um efeito da relação capitalista, que é a organização técnica e científica da produção, em território privilegiado de sua superação.

Isso conduz a dissociação entre técnica e forma social. A questão de fundo não é que a tecnologia esteja mal direcionada, como pretende nos fazer crer Renato Dagnino, mas que ela é um meio de extração de mais-valia relativa, intensificação do controle sobre o trabalho e expulsão da força de trabalho do processo produtivo. As máquinas não são somente apropriadas pelo capital. Elas são projetadas, organizadas e implantadas obedecendo a lógica da valorização contínua do capital. A contradição entre o desenvolvimento das forças produtivas e a forma capitalista de produção não aponta para uma reprogramação solidária da técnica.

Aponta para que o próprio desenvolvimento científico aprofundará a crise da forma social, tornando-a insustentável. A tecnociência solidária, ao imaginar uma ciência diferente no interior das mesmas relações sociais, capitalistas, neutraliza essa contradição objetiva e a converte num problema de desenho institucional.

A aposta de Renato Dagnino no Estado como agente de reorientação tecnocientífica aparece como ilusão política típica do reformismo. O Estado não é um árbitro externo capaz de reorganizar racionalmente a sociedade. É uma forma política inseparável da reprodução do capital, necessária à garantia da propriedade privada, do mercado de trabalho e da acumulação. Não cabe a expectativa de que políticas públicas de ciência e tecnologia possam subverter relações sociais que o próprio Estado existe para reproduzir.

Assim, o que a tecnociência solidária propõe não é uma transição pós-capitalista. É uma administração alternativa da miséria estrutural em que o desenvolvimento científico é fetichizado como solução para contradições que só podem ser resolvidas pela abolição da forma-valor, da exploração do trabalho e do controle alienado do processo produtivo.

2.

A tecnociência solidária constitui uma forma específica de fetichismo. Atribui ação histórica e capacidade de emancipar a classe trabalhadora e a sociedade como se possuísse eficácia própria e autonomia frente às relações sociais que a constroem. O fetichismo é a inversão entre sujeito e objeto em que as relações sociais aparecem como propriedades de coisas.

Ao defender que a tecnociência possa ser reorientada para fins solidários, sem a superação da forma-valor, se repete essa inversão ao transformar a ciência e a tecnologia, que são materializações da relação capitalista, em agentes ativos da transformação social, escondendo que sua forma histórica é determinada pela subsunção real do trabalho e pela lógica da valorização capitalistas.

Esse fetichismo é em última instância uma mistificação política do Estado. Ao dizer que políticas públicas de ciência e tecnologia podem ser eixo estratégico de superação do capitalismo, a tecnociência solidária atribui ao Estado uma capacidade de neutralização das contradições do capital que não existe. O Estado é a forma necessária da reprodução das relações capitalistas. Ao dar esse papel a tecnociência solidária, que acredita na capacidade estatal de conversão, transforma a crítica da economia política em teologia da técnica.

A emancipação da classe trabalhadora e do povo deixa de ser resultado da destruição das categorias do capital e passa a depender da gestão esclarecida de seus instrumentos. O resultado não é a superação do fetichismo, mas sua sofisticação ideológica, agora disfarçada de projeto de emancipação.

Seguindo, o texto pergunta: “como fazer esse movimento acontecer no mundo real?”. E a resposta: “A única forma de avançarmos, na prática, será pelo convencimento do grupo 3, os neodesenvolvimentistas. Nesse sentido, precisamos mostrar a eles que as pesquisas solidárias dão resultados concretos para o desenvolvimento social”. Na prática isso significa sair do campo das lutas sociais para o campo de convencer uma certa parcela de uma suposta elite científica, contabilizada no texto em cerca de, se tanto, menos de 3.000 pessoas.

Não parece ser cabível que uma população de mais de 200 milhões de habitantes, complexa, dividida em classes e frações de classe com interesses antagônicos, afinal vivemos sob o modo de produção capitalista, dependa do convencimento desse menos que minúsculo contingente de pessoas para se emancipar de relações de submissão, superexploração e outros males.

3.

O que está se propondo na prática é a supressão da luta de classes, das lutas cotidianas do povo, dos duros enfrentamentos políticos e da necessidade da classe trabalhadora assumir as rédeas de seus destinos. Precisamos ter uma crença quase religiosa nesse punhado de estrelas das nossas pesquisas tecnológicas e científicas. Acreditar que eles, se convencidos, serão capazes de serem os agentes que portam o nosso futuro. Essa é uma utopia tecnopolítica fetichizada e despolitizante. É uma estratégia que substitui a luta pelo poder por soluções parciais e técnicas. Uma utopia não substitui a luta de classes.

Isso resume todas a luta secular pela emancipação da classe trabalhadora e com ela a emancipação de toda sociedade a nada. Revoluções russas, cubanas, chinesas, vietnamitas foram inúteis por não terem acreditado no potencial emancipatório de suas elites científicas. Se tivessem ido por esse caminho viveríamos em outro mundo.

O mundo da felicidade e do bem viver, proporcionados pela contribuição da tecnociência solidária, conduzida por essa casta de ilustres de uma elite, finalmente seria alcançado, sem nenhuma luta e sem o uso de nenhuma força ou necessidade de enfrentamento. Essa é a utopia que Renato Dagnino propõe e os autores do texto concordam e reafirmam. Chico Buarque se contrapõe a essa utopia:

A história é um carro alegre
Cheio de um povo contente
Que atropela indiferente
Todo aquele que a negue

Ao que parece esse carro alegre irá atropelar, indiferentemente, todos aqueles que trilhem os caminhos propostos no texto aqui criticado. Alegremente.

Quem vai impedir que a chama
Saia iluminando o cenário
Saia incendiando o plenário
Saia inventando outra trama

É para isso e por isso que somos, eu e os autores do texto, militantes do Partido dos Trabalhadores e integrantes de seu Setorial de Ciência, Tecnologia e Tecnologia da Informação.

Já foi lançada uma estrela
Pra quem souber enxergar
Pra quem quiser alcançar
E andar abraçado nela

*Luís Sérgio Canário é mestrando em economia política na UFABC.

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