Sobre anões e genocidas

Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por JOÃO QUARTIM DE MORAES*

Argumentar com genocidas é perder tempo: eles só acreditam no “argumento” da força

Em 24 de julho de 2014, furibundo porque o governo brasileiro condenara “energicamente o uso desproporcional da força por Israel na Faixa de Gaza”, convocando para consultas o embaixador em Tel Aviv, o ministério israelense das Relações Exteriores replicou classificando o Brasil de “anão diplomático”. Além de insolente, a réplica cometeu a baixa grosseria de usar uma contingência biológica (nanismo e distúrbio de crescimento infantil) como insulto.

Não obstante, houve e segue havendo por aqui sicofantas da extrema direita que aplaudiram a “diplomacia” do país do “apartheid” e atacaram a nossa… O mais conhecido é o abominável Sérgio Moro, que segue grasnando seu apoio ao aniquilamento dos palestinos de Gaza pelos criminosos de guerra israelenses.

O comunicado de Tel Aviv continha um enfático apelo: “Israel espera o apoio de seus amigos na luta contra o Hamas, que é reconhecido como uma organização terrorista por muitos países ao redor do mundo”. Por “muitos países” entendem, obviamente, o império estadunidense e seus vassalos, dos quais o próprio Israel é vassalo-mor. O comunicado omite, cinicamente, o apoio dos serviços secretos de seu país à formação do Hamas para dividir a resistência palestina, debilitar a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), reconhecida pela Liga Árabe em outubro de 1964 como “única representante legítima do povo palestino” e eliminar Yasser Arafat, seu principal dirigente histórico.

Haaretz, o mais importante jornal israelense, publicou provas confirmando que Benjamin Netanyahu, decidido a impedir por todos os meios a viabilização do Estado palestino, admitiu em reunião reservada de seu partido Likud, em 2019, que “quem quiser impedir o estabelecimento de um estado palestino tem de apoiar o fortalecimento do Hamas e a transferência de dinheiro para o Hamas. Isso faz parte da nossa estratégia”. (cf. Intercept Brasil, 11/10/2023).

O frio descaramento de Benjamin Netanyahu e de seu entorno na execução dessa estratégia se inscreve numa longa sequência de morticínios que pavimentaram a formação e a expansão do Estado de Israel. Um dos primeiros ocorreu em 22 de julho de 1946, antes mesmo da malfadada partilha da Palestina. O grupo terrorista Irgun, comandado por Menachem Begin, introduziu pesada carga de explosivos na cozinha do hotel King David, em Jerusalém, onde residiam com suas famílias os funcionários do Mandato Britânico da Palestina (estabelecido pela Sociedade das Nações em 1923, após o colapso do Império Otomano).

A explosão estremeceu a velha Jerusalém: 91 mortos, entre os quais 28 britânicos, 41 árabes e 17 judeus e mais de uma centena de feridos. O objetivo imediato era destruir os arquivos britânicos, que continham ampla documentação sobre o terror sionista, mas eles queriam também apavorar a população palestina, constrangendo-a a fugir de suas casas. Comemorando, em julho de 2006, este feito que de que o facho sionismo se orgulha, Benjamin Netanyahu e seus asseclas colocaram no hotel King David uma placa comemorativa em homenagem aos terroristas do Irgun.

É longa e tenebrosa a lista de atentados sionistas contra os palestinos. Alguns dos mais atrozes ocorreram durante os meses que precederam o final do mandato britânico, fixado pela ONU para o dia 15 de maio de 1948. Decididos a conquistar o máximo de terreno para o Estado israelense que pretendiam proclamar naquela data, os sionistas, utilizando a fundo a superioridade de sua organização militar, ampliaram a escala de sua ofensiva. Entre dezembro de 1947 e março de 1948, muitas aldeias árabes (Beld Shaikh, Sasa, Karf etc.) foram varridas do mapa pela Haganah, a principal organização armada clandestina sionista e pelos agrupamentos Stern e Yrgun, dois esquadrões da morte especializados nas formas mais sórdidas e covardes de ação terrorista, nos quais os futuros primeiros-ministros Begin e Shamir aprimoraram suas peculiares carreiras militantes.

Decididos a ultrapassar a Haganah na caça ao árabe, eles atacaram de surpresa na madrugada de sexta-feira 9 de abril de 1948 a aldeia de Deir Yassin, cuja população indefesa foi chacinada numa orgia de bestialidade que sequer poupou mulheres grávidas, cujo ventre foi aberto a facadas. Duzentos e cinquenta e quatro palestinos foram trucidados; dezenas de meninas foram estupradas.[1]

Em dezembro de 1948, quando Menachem Begin, chefe máximo do Irgun, foi recebido por seus correligionários de Nova Iorque, membros eminentes da comunidade judaica, entre os quais Albert Einstein, lançaram um manifesto em que se dissociavam firmemente dos algozes de Deir Yassine: “[…]os terroristas [dos grupos Stern e Irgun] atacaram esta aldeia tranquila (Deir Yassin).[…] Massacraram […]a quase totalidade dos habitantes, deixando alguns vivos para exibi-los como prisioneiros nas ruas de Jerusalém. A maior parte da comunidade judaica ficou horrorizada com este ato. […] Mas os terroristas […] mostraram-se orgulhosos do massacre, convidando todos os correspondentes estrangeiros[…] para ver os cadáveres amontoados[…]”.

Anos depois, em carta a seu amigo Haim Ghori, datada de 15 de maio de 1963, Ben-Gurion, patriarca do sionismo social-democrata e principal fundador do Estado de Israel, assim caracterizou Menachem Begin: “[…] é um personagem talhado da cabeça à planta dos pés à imagem do modelo hitleriano. Está disposto a eliminar todos os árabes para completar as fronteiras do país. […]. Considero-o um grande perigo para Israel[…]”. Se chegar ao poder, prossegue Ben-Gurion, colocará “criminosos de sua espécie à frente da polícia e do exército”. E concluiu: “Não duvido de que Begin deteste Hitler, mas este ódio não prova que ele seja diferente de Hitler”. Sessenta anos depois, é certamente o caso de dizer deBenjamin Netanyahu o que Ben-Gurion disse de Menachem Begin.

Sob nossos olhos desfilam os insuportáveis horrores da “diplomacia” facho sionista em Gaza, aquela mesma que chamou o Brasil de “anão diplomático”. Argumentar com genocidas é perder tempo: eles só acreditam no “argumento” da força. Em vez disso, em 30 de outubro, exercendo a presidência do Conselho de Segurança, o ministro Mauro Vieira honrou a diplomacia brasileira ao expressar o consenso majoritário dos 120 países membros da ONU que votaram a favor de um cessar fogo imediato na faixa de Gaza, perguntando: “Quantas vidas serão perdidas até passarmos à ação?”. Se depender de Menachem Biden, protetor de Benjamin Netanyahu, quantas forem necessárias para esvaziar o ghetto de Gaza.

*João Quartim de Moraes é professor titular aposentado do Departamento de Filosofia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de A esquerda militar no Brasil (Expressão Popular) (https://amzn.to/3snSrKg).

Nota

[1] Um dos relatos mais objetivos da chacina de Deir Yassin, está no livro Ô Jerusalém, escrito pelos jornalistas Dominique Lapierre e Larry Collins, na edição francesa, Paris: Laffont, 1971, pp.363-369.

Os depoimentos dos poucos sobreviventes e os relatórios de policiais ingleses com mandato da ONU foram reunidos por Sir R. C. Catling, diretor-geral adjunto do Criminal Investigation Department na pasta “secreta e urgente” nº 179/11017/65.

A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja neste link todos artigos de

AUTORES

TEMAS

10 MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Jorge Luiz Souto Maior Celso Frederico Denilson Cordeiro Eliziário Andrade Ronald León Núñez Ricardo Musse Igor Felippe Santos Daniel Costa Luiz Werneck Vianna Manchetômetro Paulo Martins Fernão Pessoa Ramos Luciano Nascimento Eugênio Bucci Bernardo Ricupero João Carlos Salles Ronald Rocha Gabriel Cohn Carlos Tautz José Machado Moita Neto Jean Pierre Chauvin Lincoln Secco Mário Maestri João Lanari Bo Leda Maria Paulani Walnice Nogueira Galvão Airton Paschoa Luiz Eduardo Soares Francisco Pereira de Farias Plínio de Arruda Sampaio Jr. Marilia Pacheco Fiorillo Boaventura de Sousa Santos Andrew Korybko Priscila Figueiredo Luiz Marques Ricardo Antunes Henry Burnett José Raimundo Trindade Everaldo de Oliveira Andrade Ricardo Abramovay Tales Ab'Sáber Michel Goulart da Silva Luiz Renato Martins Ricardo Fabbrini Jorge Branco Milton Pinheiro Mariarosaria Fabris Daniel Afonso da Silva Luis Felipe Miguel João Sette Whitaker Ferreira Andrés del Río Alexandre de Oliveira Torres Carrasco Chico Alencar Rodrigo de Faria Vinício Carrilho Martinez Gilberto Lopes Celso Favaretto Berenice Bento Tadeu Valadares Renato Dagnino Francisco Fernandes Ladeira Lorenzo Vitral Marcos Aurélio da Silva João Adolfo Hansen Antonino Infranca Érico Andrade Slavoj Žižek José Geraldo Couto Julian Rodrigues José Micaelson Lacerda Morais Annateresa Fabris Liszt Vieira Eugênio Trivinho Eleutério F. S. Prado Gerson Almeida Fernando Nogueira da Costa Chico Whitaker Antonio Martins Paulo Capel Narvai Paulo Sérgio Pinheiro Juarez Guimarães Armando Boito Elias Jabbour Luís Fernando Vitagliano Valerio Arcary Daniel Brazil Atilio A. Boron Kátia Gerab Baggio Leonardo Sacramento Tarso Genro Rafael R. Ioris Osvaldo Coggiola Anselm Jappe Rubens Pinto Lyra Henri Acselrad Marilena Chauí Sandra Bitencourt Leonardo Boff Michael Roberts Otaviano Helene Dennis Oliveira Heraldo Campos Claudio Katz José Costa Júnior Yuri Martins-Fontes Luiz Carlos Bresser-Pereira Carla Teixeira Michael Löwy Marcus Ianoni Matheus Silveira de Souza Flávio R. Kothe Samuel Kilsztajn Lucas Fiaschetti Estevez Benicio Viero Schmidt Caio Bugiato João Paulo Ayub Fonseca Vladimir Safatle Bruno Machado André Márcio Neves Soares Ladislau Dowbor Ari Marcelo Solon Luiz Roberto Alves Paulo Nogueira Batista Jr Afrânio Catani Sergio Amadeu da Silveira Jean Marc Von Der Weid Bruno Fabricio Alcebino da Silva Alexandre Aragão de Albuquerque Marcelo Guimarães Lima João Carlos Loebens Ronaldo Tadeu de Souza Thomas Piketty Manuel Domingos Neto Bento Prado Jr. Valerio Arcary André Singer Remy José Fontana Antônio Sales Rios Neto Dênis de Moraes Alysson Leandro Mascaro José Dirceu Paulo Fernandes Silveira Alexandre de Lima Castro Tranjan Eleonora Albano Gilberto Maringoni Salem Nasser Marcos Silva João Feres Júnior Francisco de Oliveira Barros Júnior Maria Rita Kehl Marjorie C. Marona Eduardo Borges Flávio Aguiar José Luís Fiori Leonardo Avritzer Vanderlei Tenório Marcelo Módolo Luiz Bernardo Pericás Alexandre de Freitas Barbosa Fábio Konder Comparato

NOVAS PUBLICAÇÕES