Em que mundo mora Byung-Chul Han?

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Por EDUARDO HENRIQUE BARBOSA DE VASCONCELOS*

O caráter elitista e eurocêntrico da filosofia de Han, cuja “casa” idealizada ignora a precariedade material e a exploração do trabalho no Sul global

“Era uma casa muito engraçada / Não tinha teto, não tinha nada / Ninguém podia entra nela não / Porque na casa não tinha chão”
(Vinicius de Moraes, A casa).

1.

No final de 2025 e início de 2026, recebi no meu whatsapp, encaminhado por diferentes amigos, um artigo de cunho jornalístico apresentando uma síntese das ideias do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han (Pyong-Chol Han). Posteriormente, em uma rápida pesquisa na internet, identifiquei que havia mais de um texto sobre o assunto, publicados e assinados por diferentes profissionais em diferentes sites.[i]

Guardadas as especificidades de cada um desses textos, eles convergem em seu formato curto em tom de resumo e como uma apresentação das ideias do filósofo, sul-coreano radicado na Alemanha, sobre a vida e a casa. Dessa maneira, o caráter informativo dos artigos logo pode ser (mal)compreendido como uma indicação (in)direta para um manancial rápido e acessível de soluções para os problemas do novo tempo do mundo.[ii]

Hoje, enfrentamos uma realidade em constantes transformações, para não falarmos em uma grande regressão, como sugerem alguns autores.[iii] A casa vem se transformando em um paradigma social e pessoal nos mais diferentes países e, em realidades específicas como a europeia ou em parte dos Estados Unidos, a casa, ainda é um aspecto concreto e palpável para uma parte da população.

Entretanto, nos países em desenvolvimento, ela ainda é restrita, limitada e improvisada. Muitas vezes essa casa é apenas um pequeno espaço para cinco, oito ou mais pessoas. Geralmente localizada em subúrbios desprovidos de saneamento básico, água tratada, coleta regular de lixo. E essa situação ainda pode ser muito mais complexificada ao observarmos as dificuldades enfrentadas pelas mulheres que desenvolvem múltiplos trabalhos, submetidas diariamente jornadas duplas ou triplas, tendo, dessa maneira, que conciliar trabalho externo com o cuidado dos filhos, marido e a manutenção da casa.

Mas a síntese das ideias lastreadas no filósofo sul-coreano e divulgadas nas matérias jornalísticas não abordam esses aspectos, seja por desconhecimento dele sobre as diversas ramificações do assunto, seja pela falta de interesse de seus divulgadores em se debruçar sobre esse tipo de questão que, seguramente, é imprópria à experiência internacional do filósofo e do seu público internacional.

2.

Dessa forma, fala-se de uma casa padrão, uma casa conformada na contemporaneidade pelos princípios do Estado do bem-estar social (cada vez mais em extinção em um mundo pautado pelos princípios do neoliberalismo), e que na realidade brasileira se aproxima da experiência de casa e do viver da dita classe média que, paulatinamente, vê a imposição de uma ordem econômica mundial e as políticas nacionais desfazendo seu trabalho, diminuindo seus ganhos salariais, aumentando o preço dos alimentos, dos serviços demandados, do plano de saúde, da gasolina…

Ficar em casa, um verdadeiro mantra desde o advento da pandemia do Covid-19, especialmente para os defensores da ciência e das vacinas, passou a ser o locus privilegiado do bem-estar, autocontrole, de fazer só o necessário (repouso, horário fixo de alimentação, cuidado do corpo, limpeza e manutenção da casa).

Com o fim da pandemia estar em casa não significou estar protegido do capitalismo de vigilância[iv] e do looping contínuo do trabalho, pois na sociedade digital aumentou exponencialmente o trabalho, agora gerido e pago por metas e produções, que não mais fica restrito do lado de fora da casa. O trabalho mal pago, desvalorizado e em escala crescente não tem mais limites, freios ou controle.

Esse “novo” trabalho, feito em casa, sempre é mais lucrativo para o patrão que continua a pagar ao trabalhador apenas uma parte do que ele produz e agora, com o trabalho em casa, não há hora para começar e nem para terminar. Além disso, o trabalhador tem que pagar pelo seu próprio equipamento (internet, ar-condicionado, computador, impressora, conta de energia, etc.).

Por outro lado, ficar em casa permite a qualquer um ter “o mundo aos seus pés” com milhares de streamings para assinar, aplicativos de comida com toda a culinária do mundo disponível e milhares de lojas para entregar suas comprar na sua porta, “do alfinete ao avião desde que o pagamento seja aprovado pelo cartão”. Por tudo isso, ficar em casa é um paradigma, mas não sem tensão, sem conflito e controle da situação por parte dos trabalhadores.

Vemos, hoje, o capitalismo cada vez mais global,[v] centrado no consumo individual e a casa também está sendo consumida, destruída e cada vez mais cara, cada vez menor, cada vez mais vazia. Tal fenômeno aos poucos vem batendo na porta das grandes cidades da Europa e o resumo das ideias de Byung-Chul Han nada diz sobre essa situação[vi].

Ao observarmos o assunto no Brasil, mesmo com uma longa produção bibliográfica abordando a casa como objeto de estudo,[vii] Casa Grande & Senzala de Gilberto Freyre é um bom exemplo dessa, perpassando as mais diferentes áreas com diferentes enfoques, nos artigos de divulgação do filosofo sul-coreano não há nenhuma problematização ou cotejo das suas ideias à luz das múltiplas realidades do Brasil e não refletidas na Europa ou na Coreia do Sul.[viii]

*Eduardo Henrique Barbosa de Vasconcelos é professor de história na Universidade Estadual de Goiás (UEG).

Notas


[i] BORGES. Lucas. Filósofo: ‘Ficar em casa é a forma mais lúcida de resistência. O silêncio do seu lar é o único lugar onde você ainda consegue se ouvir’. O filósofo Byung-Chul Han propõe uma forma de rebelião contra a sociedade atual. In: https://www.itatiaia.com.br/trends/filosofo-ficar-em-casa-e-a-forma-mais-lucida-de-resistencia-o-silencio-do-seu-lar-e-o-unico-lugar-onde-voce-ainda-consegue-se-ouvir; PACHECO, Maria Eduardo. Byung-Chul Han e o valor filosófico de simplesmente ficar em casa. In: https://www.correiobraziliense.com.br/cbradar/byung-chul-han-e-o-valor-filosofico-de-simplesmente-ficar-em-casa/; FERNANDES, Joaquim Luppi. Ficar em casa é a forma mais lúcida de resistência, segundo o grande filósofo Byung Chul Han: Resistência de ficar em casa: o ato de rebeldia para salvar sua sanidade. In:https://catracalivre.com.br/noticias/ficar-em-casa-e-a-forma-mais-lucida-de-resistencia-segundo-grande-filosofo-byung-chul-han/

[ii] Aqui, tomo de empréstimo o título seminal de Paulo Arantes. Ver: Arantes, Paulo Eduardo. O novo tempo do mundo: e outros estudos sobre a era da emergência. São Paulo: Boitempo, 2014.

[iii] APPADURAI, Arjun et ali. A Grande Regressão: um debate internacional sobre os novos populismos e como enfrentá-los. Tradução Silvia Bittencourt et.al. São Paulo: Estação Liberdade, 2019

[iv] ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância: a luta por um futuro humano na nova fronteira do poder. Rio de Janeiro. Intrínseca, 2021.

[v] CHESNAIS, François. A mundialização do capital. São Paulo: Xamã, 1996.

[vi] WHITTLE, Helen. Como crise de moradia afeta meninas e mulheres na Alemanha. In: https://www.dw.com/pt-br/como-crise-de-moradia-afeta-meninas-e-mulheres-na-alemanha/a-70208491

[vii] Alguns exemplos dessa produção: ARAGÃO, Solange Moura Lima de. Ensaio sobre a casa brasileira do século XIX. São Paulo: Edgard Blucher, 2011; BETIOLI, Diego. Em casas: Contos, encontros e desencontros em tempos de pandemia. Brasília. Kalytek Editora, 2022; BONDUKI, Nabil. Origens da Habitação Social no Brasil: arquitetura moderna, lei do inquilinato e difusão da casa própria. São Paulo. Estação Liberdade, 1998. DAMATTA, Roberto. A Casa e a Rua. São Paulo. Ed. Brasiliense 1985; FREYRE, Gilberto. Casa-grande & senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. São Paulo: Global, 2003; GUIMARÃES, Dinah & CAVALCANTI, Lauro. Morar: a casa brasileira. Rio de Janeiro: Avenir, 1984;

MURATA, Elza Kioto Nakayama Nenoki. Em Busca Da Casa Perdida: vozes e Imaginario de meninos de rua. São Paulo. Annablume, 2003; RISÉRIO, Antônio. A Casa no Brasil. Rio de Janeiro. Topbooks Editora, 2021; SAIA, Luís. Origens da casa brasileira. In: Risco Revista De Pesquisa Em Arquitetura E Urbanismo. (Online), 18-19, 170-176. 2024. https://doi.org/10.11606/issn.1984-4506.v0i18-19p170-17; OLIVEIRA, Martha Tahhy. Trabalhar em casa na era do fim do emprego. São Paulo. Editora Olho d’Água. 2001; LOPES, Denilson. A Volta da Casa na Literatura Brasileira Contemporânea. In: LUSO-BRAZILIAN REVIEW, Madison, v. 43, p. 119-130, 2007.

[viii] Agradeço a leitura, o estímulo e os comentários de Ana Soares. Flavia Pedrosa e Aruanã Passos.

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