Por GABRIEL TELES*
O relógio do juízo final marca 85 segundos, mas o colapso já é o ar que respiramos — uma emergência normalizada
1.
Por um instante, o mundo parece suspenso. Não porque tudo tenha parado, e sim porque tudo continua funcionando apesar de já não haver chão firme. As engrenagens giram, os mercados abrem, as guerras seguem localizadas, o cotidiano se reproduz. Nada explode de uma vez. O fim não chega. Ele se instala lentamente, como ruído de fundo. É a partir desse silêncio tenso que o Bulletin of the Atomic Scientists deve ser lido.
O boletim surgiu em 1945, fundado por físicos diretamente envolvidos no Projeto Manhattan, poucos meses após Hiroshima e Nagasaki. Cientistas como Albert Einstein, Leo Szilard e J. Robert Oppenheimer compreenderam que a ciência havia ultrapassado qualquer capacidade política existente de controle. O Bulletin nasce, assim, como um dispositivo público de advertência. Seu objetivo era simples: traduzir riscos técnicos extremos em linguagem política inteligível, deslocando o debate do interior dos laboratórios para o espaço público.
Em 1947, esse esforço ganhou uma forma simbólica duradoura com a criação do Doomsday Clock. A meia-noite do relógio não representa um evento específico, nem uma profecia literal. Ela simboliza o ponto de autodestruição civilizacional produzido pela ação humana, inicialmente associado à guerra nuclear e depois ampliado para outros riscos existenciais. Quando o relógio marca meia-noite, isso indica a falência plena dos mecanismos sociais, políticos e tecnológicos de contenção. Trata-se do colapso como resultado histórico, não como acidente.
Ao longo do século XX, o relógio oscilou acompanhando momentos dramáticos da ordem mundial. Em 1953, após os testes das bombas de hidrogênio pelos Estados Unidos e pela União Soviética, os ponteiros se aproximaram perigosamente da meia-noite, sinalizando a entrada da humanidade em uma era de destruição termonuclear potencialmente irreversível.
Em 1962, durante a crise dos mísseis em Cuba, o mundo viveu sua aproximação mais aguda de um confronto nuclear direto, consolidando a percepção de que a sobrevivência coletiva dependia de equilíbrios instáveis e decisões tomadas sob pressão extrema.
Nos anos seguintes, acordos de controle de armas e o período de détente entre as superpotências afastaram temporariamente os ponteiros. Em 1991, com o fim da Guerra Fria e a assinatura do tratado START, o relógio atingiu sua maior distância da meia-noite. Aquela breve abertura alimentou a ilusão de que o risco existencial havia sido superado pela integração liberal e pela governança multilateral. O século XXI encarregou-se de desfazer essa expectativa.
2.
Desde os anos 2000, o relógio voltou a se mover em direção ao limite, impulsionado por uma convergência inédita de ameaças. O risco nuclear reaparece, somado ao colapso climático, à erosão das instituições internacionais, à biotecnologia sem governança e à aceleração tecnológica desacoplada de mediações políticas. O tempo deixou de ser regulado por ciclos de crise e estabilização. Entrou em regime de compressão contínua.
É nesse contexto que, em 2026, o Bulletin of the Atomic Scientists anunciou que o relógio marcava 85 segundos para a meia-noite. O dado não acrescenta apenas um novo marco à série histórica do Doomsday Clock. Ele condensa uma experiência histórica mais profunda: a sensação de que o tempo deixou de funcionar como promessa e passou a operar como cerco. Já não se trata de uma contagem regressiva orientada por um futuro previsível. Trata-se de um presente espesso e saturado, no qual o futuro perdeu a capacidade de organizar expectativas coletivas.
Desde sua criação, o relógio operou como metáfora da ameaça nuclear. Hoje, funciona como síntese de uma convergência de crises. Armas nucleares, colapso climático, biotecnologias fora de controle, inteligência artificial militarizada e ecossistemas informacionais corroídos pela desinformação deixaram de aparecer como riscos isolados.
Esses vetores se reforçam mutuamente e produzem um quadro no qual a exceção tende a se estabilizar. O relógio avança porque o mundo perdeu freios estruturais, institucionais e simbólicos.
Há, ainda assim, um limite estrutural no próprio Doomsday Clock. O boletim observa os riscos a partir de indicadores técnicos, institucionais e geopolíticos visíveis. Armas, tratados, emissões, algoritmos, laboratórios, conflitos interestatais. Tudo isso importa. Ainda assim, essa leitura permanece na superfície dos fenômenos. Ela capta os sintomas, registra a proximidade do desastre e calibra o alarme. O que escapa é o solo comum sobre o qual essas ameaças se acumulam e se reforçam.
Os membros do Bulletin anunciam crises múltiplas, embora não nomeiem aquilo que as articula em profundidade. Subterraneamente, um mesmo processo sustenta o colapso climático, a militarização tecnológica, a corrosão política e a instabilidade social: a crise estrutural da acumulação do capital. O relógio mede o tempo da catástrofe, porém não alcança a lógica que a produz. Registra o fim iminente sem interrogar o modo de vida que transforma destruição em requisito de funcionamento.
3.
Nesse ponto, o próprio instrumento revela sua insuficiência. Um relógio supõe contagem, controle residual do tempo e possibilidade de ajuste antes do limite final. O presente histórico já não opera nesse registro. O colapso avança por saturação, pelo esgotamento das mediações sociais e pela incapacidade sistêmica de produzir futuro. A questão já não é quanto tempo falta para a meia-noite. É o fato de que o tempo deixou de organizar a experiência coletiva.
Os 85 segundos expressam algo já visível no plano social. O colapso deixou de ser hipótese futura para se manifestar como forma cotidiana de administração da vida. Estados operam em regime permanente de emergência. Mercados funcionam pela antecipação do desastre e pela extração de lucro a partir do medo. Populações inteiras aprendem a viver em cenários de instabilidade crônica, nos quais direitos surgem como concessões provisórias e a violência se naturaliza como método de governo.
Há aqui um deslocamento decisivo. O colapso não é apenas ambiental, militar ou tecnológico. Ele é temporal. O presente se alonga indefinidamente, sem promessa de superação. A política passa a administrar danos em vez de produzir projetos. A ideia de progresso se dissolve, substituída por narrativas de sobrevivência. O relógio marca 85 segundos porque o mundo já opera como se a meia-noite tivesse ocorrido em câmera lenta.
Nesse sentido, o Doomsday Clock não anuncia o fim. Registra a normalização do fim. A catástrofe deixa de ser evento e se converte em condição histórica. Isso ajuda a compreender por que alertas científicos cada vez mais precisos convivem com paralisia política crescente. O problema não está na falta de informação. Ele reside na erosão das mediações capazes de transformar conhecimento em ação coletiva. A racionalidade que governa o capitalismo contemporâneo já incorporou a destruição como custo operacional.
Paulo Arantes insistiu que vivemos um tempo de expectativas rebaixadas, no qual a história parece ter perdido motor. O relógio a 85 segundos materializa essa intuição. Ele constata um esgotamento estrutural. A incapacidade de frear tendências destrutivas tornou-se parte constitutiva da ordem social. A governança global fracassa por coerência sistêmica, já que o próprio sistema depende da reprodução permanente do risco.
Falar em colapso social, nesse quadro, significa reconhecer um processo prolongado de desorganização, no qual a vida social segue funcionando sob parâmetros cada vez mais violentos, desiguais e instáveis. O relógio se aproxima da meia-noite enquanto o mundo continua trabalhando, produzindo, consumindo e guerreando, como se essa normalidade fosse neutra, quando ela constitui o sintoma central da crise.
Talvez seja necessário, então, outro aparelho. Não mais um relógio, e sim um sismógrafo do colapso social. Um instrumento capaz de captar fraturas lentas, abalos contínuos e falhas que se acumulam sem explosão imediata. Um dispositivo que registre a decomposição do trabalho, da política, da vida cotidiana e da própria ideia de expectativa. O relógio ainda alerta. O sismógrafo mostraria que a terra já se move sob nossos pés há bastante tempo.
*Gabriel Teles é doutor em sociologia pela USP. Autor, entre outros livros, de Karl Korsch e as armas da crítica: a reconstituição do marxismo crítico-revolucionário (Appris) [https://amzn.to/4gWrov6]






















