A hegemonia da lógica da financeirização

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Por PAULO GHIRALDELLI*

Sem compreender a simbiose entre plataformização e financeirização, toda análise do capitalismo contemporâneo permanece cega para a alma dos trabalhadores e vazia de transformação possível

1.

Fiz uma observação crítica  – publicada no site A Terra é Redonda – ao livro de Fernando Haddad, Capitalismo superindustrial.[i] Cometi dois tropeços. Primeiro, questionei o título do livro. O título era uma questão secundária em minhas observações, eu não deveria ter tocado no assunto.

Segundo tropeço: disse que no mundo atual passamos por uma desindustrialização. Não deveria ter falado isso. Dependendo da perspectiva que o leitor adota, a minha frase pode ser facilmente rebatida. O que temos hoje em dia é um crescimento de empresas de vários tipos, as transnacionais, e que estão enredadas no âmbito da financeirização.

Caso alguém queira considerá-las como indústria, falando de um modo geral, não há qualquer problema. Se assim fizer, pode até considerar que está havendo uma reindustrialização do mundo.[ii]

Mas esses tropeços não foram inúteis. Motivaram o professor Eleutério Prado a dar atenção ao meu artigo e produzir o seu próprio, comentando um certo itinerário do livro do Fernando Haddad. Este artigo também foi publicado no site A Terra é Redonda. Assim, ampliamos a conversação sobre o capitalismo atual. Gosto disso, pois sem a conversação fica difícil qualquer desenvolvimento intelectual. O professor Eleutério Prado na USP, como o professor Ladislau Dowbor na PUC-SP, nunca param de nos ensinar. Cabe a nós procurar aprender.

Se eu entendi o que Eleutério Prado disse, penso que posso sintetizar da seguinte maneira. Fernando Haddad vem seguindo uma escola de pensamento que tem em Ruy Fausto o elaborador do termo “pós-grande indústria”. A expressão teria surgido nos escritos de Ruy Fausto. Particularmente, diz respeito aos famosos Grundrisse.[iii] Mais especificamente, trata-se da célebre passagem em que Marx fala da incorporação da ciência ao trabalho e da redução extrema do tempo de trabalho.

Sabe-se que essa parte dos rascunhos de Karl Marx gerou grande polêmica entre marxistas, sobre uma futura não validade da teoria do valor de Marx, mas isso não importa aqui. Lembro apenas que Marx estava tentando dar pistas – para si mesmo – sobre como poderia ser o futuro da laboratividade humana.

Por sua vez, Ruy Fausto interpretou essa fase futura sob o nome de pós-grande indústria. Segundo Eleutério Prado, Fernando Haddad teria acertado ao descartar o “pós” e tomado o nosso tempo como a época do capitalismo superindustrial. O “pós-grande indústria” teria o defeito da incompletude, aludiria apenas ao que “vem depois”, sem especificações, agora já possíveis de vislumbrar.

2.

Gostei da explicação de Eleutério Prado. Dá-se a Marx o que é de Marx, nomeia-se o que é de Ruy Fausto e, enfim, parabeniza-se Fernando Haddad por ser um uspiano da gema, uma vez que, segundo Eleutério Prado, ele próprio e Leda Paulani são uspianos na linha de preocupações de Ruy Fausto.

Desse modo, a USP estaria unida historicamente ao Ministério da Fazenda do governo Lula, em uma orientação de esquerda. Não é pouca coisa em um país como o nosso, com universidades bem novas, louvar a formação de escolas de pensamento, ainda mais no âmbito da esquerda.

Também sou uspiano. Todavia, por conta de carreira dupla, em filosofia e filosofia da educação, passei por diversas escolas e grupos de estudos, e ganhei uma filiação de pensamento cuja preocupação põe Karl Marx como um clássico, certamente, mas sem qualquer dever de encontrá-lo todas as vezes que escrevo.

Dito isso, quero lembrar que, a respeito dos estudos marxistas e, em especial, sobre o tema dos Grundrisse, escrevi uma objeção a David Harvey – postada no site A Terra é Redonda – sobre o descarte que ele promoveu ao termo capitalismo cognitivo. Digo isso para contar para o leitor, e em especial ao Eleutério Prado, que tenho alguma familiaridade com os Grundrisse e com o debate sobre o trecho citado por Fernando Haddad. Acho que, dizendo isso, facilito a conversação.

Feita essas observações, passo então ao problema que está acima da questão de se aceitamos ou não a expressão “capitalismo superindustrial”.

Sobre o capitalismo atual, começo observando que, em geral, grosso modo há quatro estilos de narrativa sobre o que estamos passando nos últimos cinquenta anos. Os economistas tendem a descrever esses anos a partir do movimento do capital, considerando as novas formas de acumulação. O capitalismo centrado na lógica do capital industrial teve de abrir espaço para a lógica do capitalismo financeiro.

Os sociólogos tendem a observar as mudanças no mundo do trabalho: notam o fordismo cedendo para o toyotismo e, em seguida, para a uberização, digitalização e toda a parafernália dos ditames da Inteligência Artificial associados à internet.

Os filósofos procuram enxergar essas duas alterações e, então, tentam entender as subjetivações produzidas, os tipos de subjetividade de nossa época. Por fim, os estudiosos da política chamam tudo isso de neoliberalismo, como o que substituiu o horizonte dado pelo Welfare State.

3.

Quando escrevi o livro Capitalismo 4.0[iv] procurei levar em conta esses quatro tipos de narrativa. Considerei a terminologia política, o neoliberalismo, mas também busquei ver como a lógica do capitalismo financeiro se fez em simbiose com o capitalismo de plataforma; como a lógica das mudanças do mundo do trabalho, inclusive do mundo empresarial, geraram novas formas de pensar, agir e sentir de todos nós, e como que isso não se deveu a alterações exclusivamente tecnológicas.

Assim, ao não autonomizar a tecnologia, talvez eu tenha seguido Karl Marx. Olhei para a tecnologia como fruto das exigências da mudança do regime de acumulação do capital e não o contrário, e justamente isso é que não encontrei em Fernando Haddad. Sendo ele o marxista – como explica o artigo de Eleutério Prado – e eu não, eu tinha lá as minhas razões em esperar de Fernando Haddad uma atenção para simbiose entre plataformização/digitalização e financeirização.

Na primeira parte do meu livro Capitalismo 4.0, creio que fiz a tarefa de casa, mostrando o que mudou no capitalismo em geral, e só então, na segunda parte, passei em revista os autores que destacaram as subjetividades emergentes, principalmente nos últimos vinte anos ou trinta anos. Também nessa parte se fez presente uma intuição marxiana: o capitalismo produz antes que mercadorias, a subjetividade humana.

Não encontrei no livro do Fernando Haddad um quadro suficiente sobre as subjetividades. Poderia dizer: foi o gosto do autor e pronto. Todavia, essa falta me pareceu ser o que o conduziu ao impasse do final do livro, ou seja, a incógnita a respeito de quanto os homens podem ou não transformar o que temos.

O livro termina com uma esperança de transformação, mas ela é vaga. Eis o problema: trata-se de uma esperança de Fernando Haddad como homem de esquerda, mas que independe do livro. Esperança por esperança, muita gente tem. Embora ele tenha se preocupado com a lógica do capitalismo cognitivo, ou seja, com os desdobramentos de uma parte da simbiose que citei, ele simplesmente não deu ênfase ao polo chamado financeirização.

4.

Ora, sendo Fernando Haddad o ministro da Fazenda, e tendo ele sido fustigado cotidianamente pelas exigências vindas do mercado financeiro, é claro que eu senti uma ausência em seu livro. O capitalismo cognitivo descrito por ele aparece sem seu par, o capitalismo financeiro. Isso deu um sabor pouco marxista ao livro, e ficou como que incompleto.

Creio que veio daí as dificuldades dele, no final, pois não conseguiu dizer o que as pessoas podem querer mudar, e o que podem fazer se querem de fato mudar. Quando a alma humana não é mostrada, como saber, ao menos em princípio, o que ela poderá produzir? E alma dos trabalhadores mudancistas ficou soterrada no livro de Fernando Haddad.

Alertei para isso na minha nota crítica. Mas, ao fazê-lo, procurei não citar livros que Fernando Haddad não tivesse usado. Ele usou um livro de Yanes Varoufakis, um autor que radicaliza teses do chamado “tecnofeudalismo”. Eu não concordo com o nome “tecnofeudalismo”. Segundo o que entendo, vivemos no capitalismo. Mas, penso, o livro de Yanes Varoufakis deveria ter produzido em Fernando Haddad uma curiosidade sobre a acumulação capitalista em conjunto com o advento do capitalismo cognitivo. Há no livro de Yanes Varoufakis alguns dados que poderiam tê-lo alertado exatamente para o problema da hegemonia da lógica da financeirização em nossos tempos.

Ora, é incrível que Fernando Haddad, vindo do problema do capitalismo cognitivo, não tenha imaginado que Karl Marx, se estivesse entre nós, trataria do tema associadamente: capitalismo cognitivo e capitalismo financeiro, isto é, plataformização e financeirização.

Aliás, penso que Karl Marx seria o primeiro a enfatizar isso: notar o trabalho ser alterado junto com os efeitos da lógica da acumulação. Esta foi a sugestão de Gilles Deleuze, antes mesmo da internet se tornar popular e dar o mundo as características que se fizeram sentir depois dela, principalmente aquelas que ocorreram após as crises das empresas “ponto com”.

Foi segundo essa ótica integrada que Gilles Deleuze tratou o tema em seu fecundo “Sociedade do controle”. Este seu artigo foi seminal para mim. Norteou parte do meu Capitalismo 4.0. Depois de ler o artigo do professor Eleutério Prado, vinculando a curiosidade do Fernando Haddad à questão do cognitivismo contida nos Grundrisse, fiquei ainda mais convencido de que o ministro da Fazenda poderia ter ruminado mais tempo o seu escrito.

Insisto: não vamos compreender o que estamos passando se não levarmos a sério a simbiose ocorrida – e que se acentua – entre capitalismo de plataforma e capitalismo financeiro.

*Paulo Ghiraldelli, filósofo, youtuber e escritor, é pós-doutor em Medicina Social pela UERJ. Autor, entre outros livros, de Capitalismo 4.0: sociedades e subjetividades (CEFA Editorial). [https://amzn.to/3HppANH].

Notas


[i] Fernando Haddad. Capitalismo superindustrial: caminhos diversos, destino comum. Rio de Janeiro, Zahar, 2026.

[ii] A melhor indicação desse tema está em A finança mundializada, de François Chesnay (São Paulo: Boitempo, 2005). Ainda sobre o tema, Mariangela Cabelo-Ghiraldelli e eu propusemos a Ilan Lapyda que publicasse sua tese: Introdução à financeirização: David Harvey, François Chesnais e o capitalismo contemporâneo (São Paulo/Ibitinga: CEFA Editorial, 2023). Este livro contém um sugestivo prefácio do professor Luiz Carlos Bresser Pereira.

[iii] Marx, Karl. Grundrisse – Manuscritos econômicos de 1857-1858, Esboços da crítica da economia política. Boitempo, 2011.

[iv] Capitalismo 4.0: Sociedades e Subjetividades, CEFA Editorial, 2025.

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