Minha participação na resistência armada ao golpe de Estado chileno

Imagem: Kazimir Malevich
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Por BELUCE BELLUCCI*

Considerações sobre o livro recém-publicado de Mário Maestri

1.

Fui exilado no Chile no mesmo período que Mário Maestri. E, como ele, participei, no momento do golpe, da resistência armada com um grupo de camponeses do Consejo provincial campesino, na província de Valdívia, no Sul do país, e acabei sendo deportado para a Argentina, depois de preso e torturado, sem, entretanto, que descobrissem minha verdadeira identidade.

Devo confessar que ao ler o seu texto me identifiquei política e emocionadamente com as dificuldades, angústias e decepções que ele brilhantemente nos apresenta.

Neste comentário quero destacar um ou dois aspectos levantados por Mário Maestri, que tiveram impactos de longo alcance para a esquerda, levando-a mesmo a um impasse na atual conjuntura. Embora, penso, ainda não totalmente digeridos por ela mesma. Mário Maestri indica a ponta do iceberg: “[…] com os anos fez-se silêncio sobre pelo o que se lutara, uma sociedade socialista” e “impôs-se a narrativa que a ditadura viera para golpear a ‘democracia’ ”. A defesa da democracia passou a ser a bandeira da esquerda, como se isto bastasse para sermos “felizes para sempre”.

O que estava em jogo naquele processo de lutas de classes nos anos 1970? O cerne do golpe nunca foi ditadura x democracia, mas sim capitalismo x socialismo. A atitude denunciada por Mário passou a ser crucial para a esquerda.  Não bastasse que a democracia saudada teria sido aquela restabelecida em 1990, em pleno domínio neoliberal.

Uma canção de Inti Illimani, sucesso em todo período da Unidade Popular, já alertava: “Porque esta vez no se trata de cambiar un presidente, será el pueblo que construya un Chile bien diferente”. O povo chileno desejava o socialismo e não apenas mudar um presidente. As medidas da Unidade Popular, algumas de cunho reformador, assistencialista, mas fundamentais de serem tomadas; e outras transformadoras – como as nacionalizações – incomodavam a fundo a ordem capitalista.

Da mesma forma que a organização e a mobilização das massas populares. Nas grandes manifestações, nas autogestões do abastecimento; ou como quando da greve nacional dos camioneiros. Era evidente a mobilização popular crescente na defesa do governo popular e na conscientização pelas transformações sociais. “este gobierno es una mierda, pero es mi gobierno”, proclamava a população.

As classes dominantes também tinham ciência de que o que estava em jogo era a luta entre capitalismo e socialismo. O fascismo não pode ser considerado apenas um fenômeno histórico, mas uma possibilidade permanente do capitalismo. Os poderosos recorrem a um e outro modelo de governo sempre que seu poder econômico esteja em perigo. E naquele momento estava, e ainda contavam com o respaldo do grande capital internacional. “Como se a ‘via eleitoral chilena’ não fosse apenas uma estrada utópica para se alcançar e construir o socialismo no país, já que esperava e se propunha que o imperialismo e o grande capital ficariam imóveis, sem se servir das armas, para defender seus privilégios ameaçados.”

2.

O próprio companheiro Salvador Allende se orgulhava do que Che Guevara lhe escrevera na dedicatória em seu livro La guerra de guerrillas que o presenteara: “A Salvador Allende, que por outros caminhos procura o mesmo.” Che Guevara referia-se à guerra de guerrilhas ou via eleitoral, mas ambos perseguindo o socialismo.

Porém – e sempre há um: O que fazer? – Aqui entendido pelo lado do povo, o que quer dizer a Unidade Popular e os partidos à esquerda –, para garantir que os ganhos populares não fossem perdidos e assegurar a passagem de um governo popular para um governo socialista? Seria possível nos marcos da democracia quebrar a lógica da propriedade privada sem que os proprietários se levantassem? Como obter força militar popular que garantissem as transformações desejadas?

Evidente que estas respostas não cabem no relato de Mário Maestri, porém ele aponta caminhos perdidos: “A naturalização da derrota apoiava a proposta de não haver responsabilidades na esquerda pelo desfecho trágico, praticamente sem resistência. E sem que nenhuma direção política na esquerda chamasse a população disposta à resistência.”

As instruções que não vieram para organizar a resistência no dia do golpe, não poderiam vir, já que, nem a UP, nem o MIR, prepararam ideológica, política e militarmente as massas para tal eventualidade. O MIR falava em guerra prolongada, é certo, mas sua capacidade de resistência concreta foi muito inadequada, e na prática a preparação se mostrou precária e não se converteu em política eficiente, mesmo que não vitoriosa.

Entretanto, o desastre da resistência militar do MIR, e de setores do PS e MAPU, se redime pelo exemplo, de coragem e abnegação de muitos de seus militantes que foram mortos, desaparecidos, presos, torturados, mas deixaram o legado da resistência necessária. A resistência foi praticamente inexistente por parte do povo chileno, sem preparação e orientação. A grande parte da UP não acreditava que poderia haver golpe e, assim, não se preparou para enfrentá-lo, pese ter sofrido com as mesmas consequências.

Hoje, em 2026, com o retorno de um pinochista ao governo do Chile, a esquerda continua, como desde março de 1990, defendendo a democracia x ditadura. A perda do discurso socialista, “impondo-se a narrativa que a ditadura viera para golpear” a “democracia”, empareda a esquerda. Sendo o fascista eleito por eleições diretas, como se fica? Irá a esquerda defender a democracia e o quadro institucional ou lutar pelo socialismo? Isso, evidentemente, incomoda aos partidos de esquerda que lutam apenas pela democracia.

3.

Agora vou me referir ao papel do Brasil no apoio a Augusto Pinochet no golpe de Estado em 1973 e na perseguição aos exilados brasileiros no Chile. Foram necessários 50 anos para que um governo brasileiro reconhecesse tal participação. Apenas em 2023 isso se dará, quando cerca de 500 brasileiros que estiveram exilados no Chile entre 1964 – 1973, organizados através de um grupo de WhatsApp Viva Chile!, entre os quais Mário Maestri, assinaram um Manifesto de agradecimento ao povo chileno pelo acolhimento. Cento e cinquenta destes foram a Santiago em caravana para eventos referentes à data.

Uma das atividades realizadas foi a instalação de uma placa na Plaza Brasil no centro de Santiago, e outra na embaixada do Brasil, que registra o agradecimento ao povo chileno pelo acolhimento aos refugiados brasileiros, e homenageia os seis brasileiros então assassinados ou desaparecidos pelos golpistas. A placa na embaixada reconhece a participação de agentes da ditadura brasileira na repressão aos brasileiros.

Na solenidade com autoridades chilenas e brasileiras, a prefeita de Santiago, os ministros da Justiça e o dos Direitos Humanos do Brasil, o embaixador brasileiro em Santiago Paulo Roberto Soares Pacheco leu nota oficial em que reconhece, pela primeira vez, a participação ativa do governo brasileiro no golpe de 1973 e a perseguição aos exilados políticos brasileiros. Foi um reconhecimento do internacionalismo do capital com 50 anos de atraso.

Mário Maestri é um professor, historiador, analista político, escritor e um dos grandes intelectuais brasileiros e do continente latino-americano. É um intelectual no sentido marxista, que busca não apenas interpretar o mundo, mas transformá-lo. Seu texto, fruto de esforço teórico, traz sua vida dedicada a ação nos movimentos populares, nos sindicatos, nas frentes econômicas, ideológicas, políticas, nas lutas de massas e armadas e nos partidos políticos. Pertence ao grupo dos intelectuais orgânicos.

Sua bela e tardia narrativa sobre a sua participação na resistência armada ao golpe de Estado no Chile em 1973 – quando ainda éramos jovens -, é enriquecida pelos conhecimentos adquiridos ao longo dos anos, o que lhe permitiu aprofundar e indagar com o rigor necessário cada momento vivido, sem desconsiderar os perigos que isto pode representar. Como as armadilhas da memória que tece narrativas sincréticas entre histórias reais e ficcionais, vividas ou adquiridas que ao serem recuperadas passam a ser suas, e agora, também, nossas.

Obrigado por trazê-las da memória para o registro histórico nesta edição em três idiomas, mesmo sabendo que ficamos com a “morte no coração”.

*Beluce Bellucci, economista, é doutor em história econômica pela Universidade de São Paulo (USP).

Referência

Mário Maestri. Minha participação na resistência armada ao golpe de Estado chileno – 11 de setembro de 1973. Joinville, Clube de Autores 2026, 214 págs. [https://amzn.to/3PoUkSM]

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