As romãs de Valdemar Sguissardi

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Por ALMERINDO JANELA AFONSO*

A trajetória acadêmica de Valdemar Sguissardi esteve marcada por uma intensa circulação intelectual entre Brasil e Portugal, forjando laços de colaboração e amizade que ultrapassaram gerações de pesquisadores

1.

Conheci Valdemar Sguissardi em 1996, faz agora 30 anos. Em setembro desse ano participei no Seminário Internacional “Educação Superior e Condição Pós-Moderna”, promovido pela Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep), tendo como principais organizadores Valdemar Sguissardi e João dos Reis Silva Jr. (cf. Afonso, 1997).

Por essa altura também fiz uma intervenção sobre reformas educativas em Portugal, num seminário do Programa de Pós-Graduação em Educação da Faculdade de Educação da USP, e ainda participei com comunicação sobre o ensino superior em Portugal na XIX Reunião Anual da Anped – Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (Grupo de Trabalho de Políticas de Educação Superior), realizada em Caxambu.

Partilhei todos estes momentos com Licínio C. Lima, que fez as suas próprias intervenções, mas a intermediação, no meu caso, foi sobretudo de Afrânio Catani, com quem tinha estado no verão de 1992, altura em que fui recebido numa reunião do Departamento de Administração Escolar e Economia da Educação, da Faculdade de Educação da USP.

Coincidindo estar em São Paulo, também participei, com comunicação, no II Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais, organizado, nessa mesma universidade, pelo Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas.

Para a reunião departamental atrás referida levava um exemplar da tese de Licínio C Lima, a qual despertou o interesse imediato de alguns colegas, nomeadamente de Vítor Paro, conhecido especialista nessa área, certamente por curiosidade em conhecer um trabalho recente de investigação em administração educacional que começava a ter uma excelente receção na comunidade portuguesa de ciências da educação.

Todos estes colegas que acabei de nomear, como acadêmicos de referência que são, foram razão de posteriores intercâmbios científicos e outras realizações, de realização conjunta ou da iniciativa do Departamento de Sociologia da Educação e Administração Educacional da Universidade do Minho, muitos anos dirigido, justamente, por Licínio C. Lima, tendo, da minha parte, contribuído, na docência e investigação, nas áreas da sociologia da educação e das políticas educativas.

Vale a pena sublinhar que estes colegas brasileiros (e outros/as que poderia também referir) nunca deixaram de ser autores/as fundamentais que continuo a acompanhar, ou porque prezo os seus contributos e gosto de revisitar as suas publicações, ou por decorrência ocasional do ofício da escrita, ou, simplesmente, pela amizade que se renova, mesmo que em contactos esporádicos, sempre ampliando um pouco mais os já longos anos que me ligam a pessoas, experiências e realidades brasileiras.

2.

Valdemar Sguissardi esteve em momentos importantes da educação brasileira, interveio publicamente como militante e académico em diversas situações e contextos sociais e institucionais, alguns deles particularmente atravessados por tensões político-ideológicas, e deixou muitos trabalhos e contribuições que provocaram interpretações várias, e que, por isso mesmo, nem sempre terão tido (e ainda bem) uma receção consensual – mas isso é precisamente o que acontece, não raras vezes, aos melhores pesquisadores e autores.

Assumindo-se como intelectual de esquerda, regista em notas autobiográficas momentos marcantes de um percurso que começa com a formação inicial numa ordem religiosa, passam pela experiência da laicização e, em seguida, vão redefinir ou acentuar convicções e aproximações ao marxismo.

Com o desaparecimento de Valdemar Sguissardi fica, essencialmente, a memória de momentos estimulantes de interação académica, mas também de genuíno e divertido convívio (Valdemar era um típico gaúcho contador de estórias) e, sobretudo, um conjunto indispensável de análises e contributos rigorosos, teórica e empiricamente sustentados, tendo como referência a educação superior, em vários momentos e conjunturas sociais e políticas.

Como autor, ou com trabalhos em coautoria (onde se destaca João dos Reis Silva Jr.), tudo isso constitui um expressivo legado para todos os que estudam de forma rigorosa, crítica e civicamente empenhada, as políticas de educação superior.

Sem concessões em termos de densidade analítica e suporte empírico, como era apanágio noutros trabalhos, Lucídio Bianchetti e Valdemar Sguissardi escreveram um pequeno livro, intitulado Da Universidade à Commoditycidade, que tive oportunidade de prefaciar no início de 2017.

Nesse livro, são referidas três fases da educação superior brasileira, condicionadas por pressões ambíguas e contraditórias: neoliberais, neodesenvolvimentistas e de populismo autoritário. Depois desta última fase, marcada pela gestão do bolsonarismo, a educação, em geral, e a educação superior, em particular, foram “objeto de extrema desídia por parte das autoridades federais da área”, como deixa claro Valdemar Sguissardi (2023, p. 9), num dos seus últimos escritos. Atualmente, estamos no decurso de uma nova gestão do Presidente Lula (2023-2027), onde já é possível perceber o rumo das orientações políticas para o ensino superior.

Coautor de vários trabalhos de referência com Valdemar Sguissardi, recorro agora a João dos Reis Silva Jr. que continua, aliás, escrevendo textos extremamente instigantes, profundamente críticos e militantemente sugestivos.

Em um texto recente, para enunciar os contornos desta nova fase da universidade brasileira, sublinhei estas passagens: “Após um período de ataques diretos às universidades e à ciência, […] o retorno do financiamento veio acompanhado de maior controle epistemológico […]. O pesquisador aprende cedo o que pode perguntar, o que deve evitar e o que simplesmente não compensa pensar […]. É nesse contexto que a categoria da lucidez se torna decisiva”. […] Lucidez não é solução política nem programa institucional. É uma posição mínima diante de um tempo bloqueado. […] A lucidez não salva a universidade [mas] impede algo essencial: o fechamento completo do sentido” (Silva Júnior, 2026).

Estou certo de que as sinergias criativas das parcerias com Valdemar Sguissardi continuarão a estimular muitos trabalhos de João dos Reis, e a dar novos frutos – talvez com muitos benefícios, como os das romãs. Daquelas que Valdemar Sguissardi cultivava no alto do seu apartamento, e que fotografou para me enviar no Natal de 2017.

*Almerindo Janela Afonso, sociólogo, é professor aposentado do Instituto de Educação da Universidade do Minho.

Referências


AFONSO, Almerindo Janela. Integração europeia e (re)formulação das políticas de ensino superior em Portugal: alguns vectores de uma evolução recente. In SGUISSARDI, V. & SILVA JÚNIOR, João dos Reis (Orgs.). Políticas Públicas para a Educação Superior. Piracicaba: editora UNIMEP, 1997, p. 63-79.

BIANCHETTI, Lucídio & SGUISSARDI, Valdemar. Da Universidade à Commoditycidade. Campinas: Mercado de Letras, 2017.

SGUISSARDI, Valdemar. A democratização da educação superior depende de bons diagnósticos e de enfrentamento dos desafios (Prefácio). In: ARAGÃO, J.; BOVÉRIO, M. & PRANCIC, E. (Org.). Desafios da educação superior: políticas públicas e gestão. Jundiaí: Paco Editorial, 2023. p. 9-14. 4

SILVA JÚNIOR, João dos Reis. A lucidez em uma universidade sitiada. A Terra é Redonda, 06/01/2026. https://aterraeredonda.com.br/a-lucidez-em-uma-universidade-sitiada/.


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