A 2000 metros de Andriivka

Frame de "A 2000 metros de Andriivka", dirigido por Mstyslav Chernov/ Divulgação
image_pdf

Por JOÃO LANARI BO*

Comentário sobre o documentário dirigido por Mstyslav Chernov

O título mesmo define o espaço dramático do que se passa na tela, dois mil metros que separam o batalhão ucraniano do vilarejo Andriivka, no oblast de Donetsk, leste da Ucrânia. Não é muita coisa: a pé, alguns minutos; um morteiro pode atravessar a distância em pouco mais de 30 segundos.

Numa guerra de trincheiras, sobrevoada por drones e com soldados armados até os dentes, a travessia pode ser muito mais lenta. E mortífera: a percepção de imediaticidade que emana desse testemunho ocular – nos créditos, vários combatentes são listados como câmeras das cenas de batalha – é visceral e nauseante, no limite do torpor.

Câmeras adaptadas no capacete, que dão a sensação de olhos que se movem num piscar de olhos, denotam uma pulsação a um só tempo cardíaca e escópica. Com uma agravante: ao reproduzir o ponto de vista em primeira pessoa do atirador, como nos videogames, a imagem reforça uma identificação subjetiva entre espectador e atirador, incluindo trepidação do quadro e o consequente entorpecimento de quem assiste tudo isso no produto final.

É um mérito da edição combinar esse frenesi de captação com momentos de estabilidade, entrevistas tomadas no subsolo das trincheiras, e sequências de funerais de militares caídos nesse particular combate. Cada milímetro de avanço ucraniano, entretanto, é inevitavelmente penoso – pelas vidas que se perdem, pela absurdidade que emerge desse espaço desolado.

Estamos em setembro de 2023, quando Mstyslav Chernov junta-se à 3ª Brigada de Assalto e parte para o front, para registrar um fragmento de batalha no âmbito da contraofensiva ucraniana perto de Bakhmut, onde Andriivka tem importância estratégica. A 2000 metros de Andriivka acompanha a missão da brigada: levar a bandeira azul-amarela da Ucrânia a um sargento, Fedya, que a hasteará no vilarejo a fim de marcar a conquista do território.

A via de acesso é uma estreita faixa de floresta arrasada por granadas, drones suicidas e bombardeios, resumo do que se tornou a outrora fértil paisagem da região. O acesso, em linha reta, é de apenas dois mil metros – imagens de drones fornecem o bird-eye desse pequeno atalho, cercado de campos vazios e áridos.

A guerra: soldados rastejando para se manter fora da visão das balas, tiros e palavrões, inimigos em geral enfiados numa toca de tatu. Mstyslav Chernov concentra diálogos com alguns desses soldados, que narram suas motivações e expectativas – por óbvio, o sentimento de defesa da pátria diante do invasor é dominante.

Pela narração, somos informados que dos quatro brigadistas com quem ele se encontrou inicialmente para ver as imagens gravadas em seus capacetes, apenas um permanece vivo. Os funerais – tal como registrados em “A Invasão”, de Sergei Loznitsa – envolvem a comunidade onde residia o soldado, muitas vezes não longe do campo de batalha.

A 2000 metros de Andriivka aponta para um microcosmo da guerra da Ucrânia, a partir da invasão da Rússia em fevereiro de 2022. O documentário de Mstyslav Chernov é um filme exaustivo, que não capta toda a extensão do traumático cotidiano da guerra, mas logra expor uma pequena parte dele e é um triunfo da realização cinematográfica.

Nessa guerra injustificável e fratricida – por tudo o que Ucrânia e Rússia têm em comum – seriam entre 46 e 70 mil soldados ucranianos e entre 90 e 100 mil russos que teriam morrido, sem contar os civis, com número bem mais elevado do lado ucraniano. Esses números podem ser maiores – provavelmente jamais se saberá com razoável acurácia o alcance da tragédia.

O dado novo, disruptivo e imprevisível, é a ascensão de Donald Trump na presidência dos EUA e a (presumida) aproximação com o Kremlin. Observadores apressados alardearam uma “vitória russa” prestes a ocorrer – algo de difícil previsão, para dizer o mínimo. No momento em que essa resenha é escrita, Donald Trump publicou nas redes “mexa-se, Putin”, explicitando, à sua (tosca) maneira, os impasses vigentes no conflito.

O cérebro do mandatário na Casa Branca imaginava um deal rápido para dividir a Ucrânia e terminar a guerra, mas as dificuldades são incontornáveis.

Parece recorrente na expectativa de triunfo de Moscou a ideia (equivocada) de que a invasão da Ucrânia seria parte de uma luta ideológica contra o imperialismo “atlantista”, revivendo a Guerra Fria – quando o cenário é o de um país de tradição expansionista tentando assegurar domínio sobre seu entorno.

O desejo de Vladimir Putin é uma Ucrânia vassala, como a Belarus, permitindo controle econômico e político. Vladimir Putin, a propósito, lidera um país onde se registram altas taxas de concentração de renda (20% dos mais ricos ganham seis vezes mais do que os 20% menos favorecidos) – autocracia e capitalismo, com o objetivo de garantir a influência regional.

A Rússia moderna sinaliza, enfim, um retorno ao czarismo pré-comunismo, liquidando sete décadas e pouco de políticas igualitárias da antiga União Soviética. Equipada, agora, com arsenal nuclear de alcance global.

Mstyslav Chernov – que estreou como diretor em “20 dias em Mariupol”, de 2023 – é seco e direto sobre seu filme: “não se trata de uma moeda de troca política, mas sim de pessoas reais. E é isso que precisamos ter em mente: que essas são pessoas reais. Não se trata de números nem de distâncias”.

*João Lanari Bo é professor de cinema da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB). Autor, entre outros livros, de Cinema para russos, cinema para soviéticos (Bazar do Tempo). [https://amzn.to/45rHa9F]

Referência


A 2000 metros de Andriivka (2000 meters to Andriivka)
Ucrânia, documentário, 2025, 107 minutos.
Direção e roteiro: Mstyslav Chernov
Montagem: Michelle Mizner.
Fotografia: Alex Babenko


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Para além de Marx, Foucault, Frankfurt
25 Jan 2026 Por JOSÉ CRISÓSTOMO DE SOUZA: Apresentação do autor ao livro recém-publicado
2
Avaliação e produtivismo na universidade
23 Jan 2026 Por DANICHI HAUSEN MIZOGUCHI: A celebração das notas da CAPES diante do estrangulamento orçamentário revela a contradição obscena de uma universidade que internalizou o produtivismo neoliberal como nova liturgia acadêmica
3
O teto de vidro da decolonialidade
29 Jan 2026 Por RAFAEL SOUSA SIQUEIRA: A crítica decolonial, ao essencializar raça e território, acaba por negar as bases materiais do colonialismo, tornando-se uma importação acadêmica que silencia tradições locais de luta
4
A ilusão da distopia
27 Jan 2026 Por RICARDO L. C. AMORIM: O novo capitalismo não retorna ao passado bárbaro; ele o supera com uma exploração mais sofisticada, onde a submissão é voluntária e a riqueza se concentra sem necessidade de grilhões visíveis
5
O Conselho da Paz de Donald Trump
24 Jan 2026 Por TARSO GENRO: Da aridez de Juan Rulfo ao cinismo da extrema direita mundial, Tarso Genro denuncia a transição da cena pública para uma era de tirania privada, em que a gestão do caos e a aniquilação de povos desafiam a humanidade a resgatar o frescor de suas utopias perdidas
6
Júlio Lancellotti
28 Jan 2026 Por MARCELO SANCHES: A relevância de Padre Júlio está em recolocar a fé no chão concreto da vida, denunciando o cristianismo que serve ao poder e legitima a desigualdade
7
Notas sobre a desigualdade social
22 Jan 2026 Por DANIEL SOARES RUMBELSPERGER RODRIGUES & FERNANDA PERNASETTI DE FARIAS FIGUEIREDO: A questão central não é a alta carga tributária, mas sua distribuição perversa: um Estado que aufere seus recursos majoritariamente do consumo é um Estado que institucionaliza a desigualdade que diz combater
8
Enamed e cretinismo parlamentar estratégico
27 Jan 2026 Por PAULO CAPEL NARVAI: É mais prático e eficaz fechar cursos e colocar um fim na farra da venda de diplomas disfarçada de formação. Mas não é nada fácil fazer isso, pois quem consegue enfrentar congressistas venais?
9
Hamnet – a vida antes de Hamlet
19 Jan 2026 Por JOÃO LANARI BO: Comentário sobre o filme dirigido por Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
10
Energia nuclear brasileira
06 Dec 2025 Por ANA LUIZA ROCHA PORTO & FERNANDO MARTINI: Em um momento decisivo, a soberania energética e o destino nacional se encontram na encruzilhada da tecnologia nuclear
11
Poder de dissuasão
23 Jan 2026 Por JOSÉ MAURÍCIO BUSTANI & PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.: Num mundo de hegemonias em declínio, a dissuasão não é belicismo, mas a condição básica de soberania: sem ela, o Brasil será sempre um gigante de pés de barro à mercê dos caprichos imperiais
12
Hamnet
24 Jan 2026 Por RICARDO EVANDRO SANTOS MARTINS: Entre a fitoterapia de Agnes e a poética de Shakespeare, o filme revela como o saber silenciado das mulheres e o trabalho de luto desafiam a fronteira da morte
13
O exemplo de Sorbonne
29 Jan 2026 Por EVERTON FARGONI: A recusa da Sorbonne aos rankings é um ato de insubordinação: nega a redução do conhecimento a métricas e reafirma a universidade como espaço de crítica, não de produtividade alienada
14
Entradas: fotografias — Um ensaio de antropologia visual
25 Jan 2026 Por ANNATERESA FABRIS: Comentários sobre o livro de Carlos Fadon Vicente
15
O declínio da família no Brasil
21 Jan 2026 Por GIOVANNI ALVES: A explosão de lares unipessoais e a adultescência prolongada são duas faces da mesma moeda: a desintegração da família como infraestrutura antropológica, substituída por uma solidão funcional ao capital financeirizado
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES