Je suis Karl

Jean-Michel Basquiat, Sem título, 1982.

Por VALÉRIA DOS SANTOS GUIMARÃES*

Comentário sobre o filme dirigido por Christian Schwochow

Bom filme, às vezes esquemático demais, às vezes voltado a convertidos. Mas, no geral, aborda com competência a ascensão da nova extrema-direita na Europa e mostra bem como os sinais trocados servem de alerta para quem ainda acha que ter um jeito “moderno”, “descolado”, ser lgbtqia+, dar protagonismo às mulheres, ser roqueiro ou rapper, ir a baladas, beber e consumir drogas, usar roupas pretas e ainda se dizer “libertário” é sinal de ser progressista.

A festa em uma boate em Estrasburgo, que antecede o encontro desse grupo de jovens (todos brancos) autodenominados Re-generation Europe com a candidata da extrema direita francesa, é repleta de alusões a essa confusão de signos que já apareciam no filme antes, mas que aqui atingem seu ápice. A candidata, não por acaso, é uma clara alusão à Marine Le Pen, que também incorporou pautas ditas progressistas e recentemente moderou o discurso com o objetivo de atingir um público menos afeito às divisas de ódio, mas que se encontra insatisfeito com a escalada da violência em geral atribuída às classes dangereuses em que se encaixa tão bem o estereótipo do imigrante, principalmente os mulçumanos, as classes laborieuses por excelência na França.

O nacionalismo, aliás, se traduz também ao fim do comício da candidata, com todos cantando a plenos pulmões a Marseillaise– não mais um símbolo dos ideais da Revolução Francesa, tampouco do nacionalismo que marcou a entoação do hino na Guerra Franco-Prussiana (1870-71). Inclusive os jovens alemães presentes bradavam “Aux armes citoyens! Formez vos bataillons! Marchons, marchons…” finalizado animados aos gritos de “Vive la France!” – mostrando não mais uma Europa dividida entre latinos e pangermânicos, mas unida contra o inimigo comum.

Como se sabe, Le Pen é responsável pela frase “Chega disso de direita e esquerda. Isso já não existe”, repetida a certa altura pelo protagonista Karl (Jannis Niewöhner), dando aquela sensação a quem assiste ao filme de “já ouvi isso em algum lugar”. Karl é jovem, comunicativo, de aparência pacífica e quase anódina (e andrógina), e coloca em marcha todo seu poder de persuasão na liderança do grupo e na sedução de Maxi (Luna Wedler), a garota que perdera a família em um atentado provocado pelo próprio Karl – o que ela obviamente nem imagina.

Estrasburgo, por sua vez, é cidade conhecida por ser palco de disputas históricas e cujas fronteiras encarnam o simbolismo da fluidez do trânsito cultural daquela região e, principalmente, da reiterada suposta superioridade alemã sobre a França. Na boate, um hino de tons religiosos é entoado em coro, “Everything must change”, e antecede a distribuição de “balas”, dadas como hóstias aos iniciados. Todos de preto, maquiados, chapados e bebendo muito. Logo o MDMA faz efeito e a libido vai às alturas, exposta em uma sexualidade livre das amarras tradicionais. Meninas e meninos se beijam muito, dançando sob luzes e música alta em que se misturam palavras de ordem ditas pelo vocalista que canta um rap em francês “À la guerre, à la guerre!” e todos pulam e gritam juntos, e cheios de ódio são liderados pelo cantor que os exorta com o verbo no imperativo “Tout le monde fais ce signe, tout le monde fais ce signe!” (Façam todos este sinal!), mostrando o punho esquerdo cerrado e levantado. Mais uma vez um símbolo da resistência de esquerda é apropriado, mas aqui segurado pela mão direita: o Wrist Movement que aparece pouco antes referido em uma bandeira estendida na cabeceira da cama de Karl. Para um olhar incauto, difícil imaginar que ali se dava uma festa de jovens de direita, com tantos lugares-comuns atribuídos geralmente aos “desviados” antissistema – a guerra “contra o sistema” agora já não é mais a mesma. Antes característica dos protestos da esquerda, encontra-se anulada pelo uso invertido.

Dias antes um meeting da organização havia ocorrido em Praga, mas o formato era de um congresso acadêmico, outro habitat dos jovens universitários apropriado para a divulgação das plataformas nacionalistas sob o manto de pesquisa acadêmica séria. Até a mesa de distribuição de crachás e sacolinha estavam lá, só que no lugar da brochura da programação, papel e caneta, estava a camiseta preta da Re-generation, cujo símbolo geométrico alude ao Génération Identitaire, grupo de extrema-direita francês nacionalista branco e islamofóbico dissolvido por ordem oficial em março de 2021, acusado de incitar o ódio. Ali, os líderes prometiam salvar o futuro da Europa enquanto o congraçamento era feito à base de brindes de gin, distribuído gratuitamente em clima de festa. Uma “gin-generation“, como a influencer que divulga o evento identifica o grupo para suas redes sociais, repleta de vídeos e posts regados a milhares de curtidas.

O filme mostra bem, entre outros temas, como a extrema-direita vampirizou formas de expressão da juventude, do ambiente universitário às festas noturnas, incluindo símbolos antes mais associadas à rebeldia que aos conservadores com o fim de seduzir jovens para sua plataforma de intolerância e suprematismo, sobretudo aqueles que se veem vulneráveis pela falta de esperança nutrida pela atual fase do capitalismo. Sim, no caso específico do filme, atentados forjados pela própria organização (incluindo a morte do líder a fim de transformá-lo em mártir) são usados para converter até mesmo aqueles oriundos de famílias defensoras de valores humanitários, porém apavorados com a insegurança. Todavia está claro que é o clima de degradação social geral e de desigualdade no mundo que aprofunda esse medo, no caso, personificado pelo fantasma da imigração.

Esses jovens não encarnam mais o estereótipo do skinhead, roupas militares, adereços de luta, tatuagens no rosto e braços, visual agressivo e másculo, culto a Hitler, jaquetas de couro repletas de patchs de suásticas e saudações nazistas como sieg heil, expressão esta, inclusive, identificada no filme como “coisa do passado” a ser evitada. É essa verdadeira mélange que ajuda a confundir e convencer mais e mais jovens desiludidos e sem perspectiva.

Destaca-se também a cantora-líder, a Jitka (Anna Fialová) que encarna a figura da mulher “culta”, exemplo de estudante supostamente prodígio: na casa dos 25 anos, ela é exaltada como a “professora universitária mais jovem e mais inteligente de Praga”. Ou a “mais inteligente da Europa”, como ela mesma corrige, numa clara ironia do diretor Christian Schwochow sobre a autoestima desse povo fake, mas bem seguro de si – o que ajuda a convencer até os que têm alguma formação, imaginem aqueles que não têm muitas referências… Em um ambiente em que todos falam fluentemente três línguas, o alemão, o inglês e o francês (comum nessa região europeia), que têm acesso a um bom sistema de ensino, em que a maioria tem curso superior (cada vez concluído mais cedo), a diferença com os imigrantes cuja formação é, na maioria das vezes, precária e cujos “valores são diferentes”, como se observa a certa altura, fica ainda mais gritante.

A civilização contra a barbárie. Será? Ah, detalhe, essa mulher “descolada” aí é a mãe-de-família-agregadora-dos-lares cuja vida profissional é valorizada, mas sempre em prol da “re-generação”. Recado mais claro impossível. A inversão é usada pelo diretor como recurso de alerta, mas sobretudo de ironia. Um humor ácido que não deixa dúvidas de onde emana a violência que, a despeito de todo seu suposto “esclarecimento” e sua luta contra a violência do terrorismo, desconsidera todo o histórico colonial e justifica sem escrúpulos as próprias atitudes, tão ou mais terroristas.

Por último, mas não menos importante, o título faz uma clara alusão ao “Je suis Charlie” – inclusive na involuntária islamofobia que este suscitou. Se o original era contra a intolerância, o slogan “Je suis Karl” (que não é o Marx!) foi aqui usado justamente para exaltá-la, o que parece mostrar que o papel central do filme é menos denunciar a ascensão destes movimentos da extrema-direita, fenômeno que todos já conhecemos bem, mas alertar como eles se manifestam de formas nem sempre tão óbvias.

*Valéria dos Santos Guimarães é professora de história na UNESP.

Referência


Je suis Karl
Alemanha / República Tcheca, 2021, 126 minutos
Direção: Christian Schwochow
Roteiro: Thomas Wendrich
Elenco: Jannis Niewöhner, Anna Fialová, Daniela Hirsh, Melanie Fouché