Por CARLOS EDUARDO ARAÚJO*
Um território de encantamento, um santuário do verbo, onde o tempo se dobra sobre si mesmo, permitindo que vozes de séculos distintos conversem como velhos amigos
Em um vídeo publicado no YouTube, em 20 de março, o escritor Ignácio de Loyola Brandão abre as portas de sua biblioteca pessoal, revelando não apenas suas preferências literárias, mas também sua relação íntima com os livros. Entre críticas e elogios, ele revisita obras de autores consagrados, menciona aqueles que mais o marcaram e até compartilha o título de um livro que jamais leria. A partir desse registro, emerge um retrato de sua formação intelectual e de seu olhar crítico sobre a literatura, evidenciando como sua biblioteca reflete sua trajetória como leitor e escritor.
A biblioteca de Ignacio de Loyola Brandão não é um mero conjunto de estantes carregadas de livros. É um território de encantamento, um santuário do verbo, onde o tempo se dobra sobre si mesmo, permitindo que vozes de séculos distintos conversem como velhos amigos.
Essa “bagunça organizada”, é um reflexo da própria vida: intensa, pulsante, repleta de vozes, histórias e vestígios de um espírito inquieto. Ali, entre prateleiras abarrotadas e pilhas instáveis de livros, que, intrépidos, sobem escada acima, desenha-se um mapa de sua trajetória intelectual, seus amores literários e suas obsessões. Ele vive entre os livros como um marinheiro que jamais abandona o navio, mesmo em meio às tempestades do tempo.
Moby Dick, “um dos maiores livros que eu li”, repousa em sua coleção como um totem da grandeza literária. Herman Melville, com sua prosa oceânica e sua fúria metafísica, certamente encontrou em Ignacio de Loyola Brandão um leitor apaixonado, alguém que entende que a literatura não é apenas narrativa, mas desafio, confronto, luta contra as próprias sombras. E se Herman Melville é um farol, William Faulkner é o ápice: “Ele é top do top pra mim”, confessa o escritor, como um discípulo que, na juventude, almejava capturar o mesmo fluxo alucinado de palavras, os labirintos febris do Sul profundo.
Mas a biblioteca também guarda suas inquietações. O pesar diante da publicação póstuma de um livro inacabado de Gabriel García Márquez traduz um temor profundo: o de que a obra de um escritor seja exposta antes de atingir a perfeição sonhada. “Todo autor deveria, antes de morrer, queimar definitivamente os textos que ainda não estivessem prontos para publicação.” Há algo de trágico e de lúcido nessa declaração, como se Ignacio de Loyola Brandão soubesse que a literatura exige um pacto definitivo com a plenitude – e que nada, nem mesmo a glória, deve vir antes dela.
O vídeo revela um Ignacio de Loyola Brandão que ainda carrega a exuberância de sempre, mas agora com os primeiros sinais visíveis do tempo. A retórica fluente, a paixão pela literatura e a memória afiada ainda estão ali, mas há algo novo nos gestos mais lentos, na voz que se tornou mais tênue, mais compassada. Aos 88 anos, ele ainda se move por sua biblioteca como um guerreiro que se recusa a abandonar o campo de batalha.
E talvez seja por isso que, ao segurar a biografia de Marighella, escrita por Mário Magalhães, ele o chame de “o maior de todos os combatentes contra a ditadura”. O gesto não é casual. Marighella, a resistência, a luta. Loyola Brandão também é um resistente – contra o tempo, contra o esquecimento, contra a mediocridade. Sua biblioteca é um território de batalha e de afeto. Os livros não são apenas volumes encadernados, mas trincheiras onde ele se mantém firme, cercado por aqueles que moldaram sua escrita, seu pensamento, sua vida.
Talvez seja essa recusa em se render ao efêmero que o levou a emoldurar folhas de árvores recolhidas em suas viagens pelo mundo, tentando capturar o instante, aprisionar a beleza fugaz da natureza em um quadro. E talvez seja por isso que ele se comove com a disciplina ferrenha de Érico Veríssimo, cuja frase emoldurada ecoa como um lema pessoal: “Refazer sempre, refazer custe o que custar. Refazer cada página, palavra, ponto, vírgula, acento. Gastar um ano, se preciso, para construir apenas uma frase, mas uma boa frase.”
Loyola Brandão construiu sua vida assim, palavra a palavra, frase a frase, livro a livro. Agora, aos 88 anos, ainda segura seus exemplares com a reverência de quem sabe que a literatura não é apenas uma vocação, mas uma forma de permanecer.
E há a Alemanha. Os dois anos que viveu lá deixaram marcas. Os livros alemães em sua estante não são apenas documentos de um passado vivido, mas portais para a história, para a cultura, para uma experiência que o transformou. A bagunça organizada de sua biblioteca é, no fim das contas, a cartografia de uma mente que nunca deixou de buscar. Ignacio de Loyola Brandão vive entre os livros como quem respira – cada volume um fôlego, cada leitura um sopro de eternidade.
A biblioteca de Ignacio de Loyola Brandão é um mundo de camadas, um labirinto de memórias e descobertas, onde cada livro é um marco de sua jornada. Entre as prateleiras abarrotadas, ele nos guia por suas obsessões, suas paixões literárias, seus encontros com a história e com os grandes autores que moldaram sua visão de mundo.
Berlim o impressionou. O muro, essa cicatriz brutal que dividia a cidade, transformou-se em uma imagem indelével. A cidade foi um impacto, uma revelação, uma ferida aberta que ele sentiu na pele e traduziu em palavras. “O Verde Violentou o Muro” nasceu dessa experiência – da opressão de uma cidade fendida, dos contrastes entre o Oriente e o Ocidente, da vida pulsando entre ruínas e ideologias. Ele adorou Berlim, mas não como um turista encantado; adorou-a como quem reconhece ali um campo de batalha da humanidade, um espaço de tensão e reinvenção.
Na estante de livros alemães, há um traço de voracidade: “Li tudo”, afirma, para logo se corrigir: “quase tudo”. Ele se debruçou sobre a história, mas há um limite intransponível. A biografia de Hitler foi lida na íntegra – um mergulho no abismo –, mas Mein Kampf permanece e permanecerá para sempre não lido, intocado. “Um livro horroroso”, sentencia. Há leituras que ampliam, que iluminam, que expandem a alma. E há aquelas que degradam, que envenenam. Ignacio de Loyola Brandão as sabe diferenciar.
Mas é nos grandes escritores que ele encontra faróis. Ernest Hemingway, em especial, é um mestre. Um professor seu lhe disse que Ernest Hemingway modificou a forma como a literatura norte-americana era escrita – e Ignacio de Loyola Brandão absorveu essa lição como um princípio fundamental. A prosa limpa, direta, intensa. A economia das palavras que, paradoxalmente, multiplica os significados. Ernest Hemingway não foi apenas uma referência; foi um divisor de águas em sua formação.
Na biblioteca de Ignacio de Loyola Brandão, os livros não são apenas volumes enfileirados. São marcos, bússolas, relâmpagos que iluminaram sua trajetória. E quando ele apanha um exemplar de Angústia, de Graciliano Ramos, o gesto tem o peso de uma revelação. “Esse foi o maior de todos para mim”, sentencia. Não é uma afirmação casual. Ele não apenas leu Angústia; ele o devorou, o respirou, o absorveu até a última gota, até as entranhas. “Eu li e reli umas vinte vezes.”
O que tanto o fascinou? A concisão. O texto seco, implacável, sem gordura, sem excessos. Uma literatura esculpida à navalha, onde cada palavra carrega um peso absoluto. Os personagens de Graciliano Ramos, movidos por um desespero subterrâneo, por uma tensão que lateja entre as linhas, parecem ter se entranhado na alma de Loyola Brandão.
Mas sua biblioteca não se encerra no regionalismo brutalista de Graciliano Ramos. Há nela espaços para múltiplas sombras, e entre elas brilha o nome de Patricia Highsmith. Uma escritora que o impressionou profundamente, mestre da tensão psicológica, dos personagens ambíguos, dos jogos de obsessão e violência contidos em narrativas quase minimalistas. Patricia Highsmith, com sua escrita precisa e sua atmosfera carregada de inquietação, deve ter encontrado eco na própria maneira como Ignacio de Loyola Brandão constrói seus enredos, seus personagens à beira do abismo.
Entre Faulkner e Hemingway, entre Moby Dick e Berlim, entre Graciliano e Highsmith, Loyola Brandão tece sua teia literária. Sua biblioteca não é só um reflexo de suas leituras, mas de suas paixões, de suas perplexidades, de sua sede de compreender o mundo por meio da literatura. E, aos 88 anos, ao mostrar seus livros, ao tocar cada volume com o carinho de quem percorreu uma longa estrada ao lado deles, ele nos revela mais do que uma coleção: revela a cartografia de sua alma.
Na biblioteca de Ignacio Loyola Brandão, há livros que são mais do que leituras: são portas para memórias, fragmentos de encontros que marcaram sua trajetória. Entre esses momentos inesquecíveis, dois pertencem a Clarice Lispector. Ele a encontrou duas vezes – e a presença dela, enigmática e fulgurante, ficou gravada em sua lembrança como um lampejo raro.
O primeiro encontro aconteceu graças a Lygia Fagundes Telles. Lygia, sempre generosa, fez as honras da apresentação, aproximando Ignacio de Loyola Brandão de Clarice Lispector, essa escritora que parecia habitar um universo próprio, cercada de mistério, de pausas longas, de frases que carregavam um magnetismo peculiar. Loyola ficou impressionado. Como não ficar? Clarice não era apenas uma escritora excepcional; era um acontecimento. Seu olhar profundo, sua fala entrecortada, sua presença quase espectral faziam dela um ser à parte, alguém que não cabia nas categorias comuns.
Na vastidão da biblioteca de Ignacio Loyola Brandão, entre pilhas de livros que desafiam a ordem e uma “bagunça organizada” que só ele decifra, há um ponto de partida, um instante inaugural de encantamento. Foi quando tinha dez anos e recebeu de sua madrinha um presente inesperado: Alice no país das maravilhas.
Para um menino que começava a se perder nas palavras, aquela história foi uma revelação. Alice não era apenas uma personagem; era um convite para um mundo onde o impossível era regra e a lógica podia ser subvertida a qualquer instante. Ignacio de Loyola Brandão ficou fascinado. O nonsense de Lewis Carroll o arrebatou, mostrando que a literatura não precisava seguir caminhos retos, que podia ser jogo, sonho, espelho. Talvez tenha sido ali, com aquela pequena edição em suas mãos, que ele percebeu que os livros podiam ser portais para algo muito maior do que a realidade imediata.
Dessa porta aberta pela imaginação infantil, ele seguiu para outras viagens. De Alice para Moby Dick, de Melville para Faulkner, de Graciliano para Hemingway. Mas aquele primeiro encantamento permaneceu. Porque todo leitor traz dentro de si a lembrança do primeiro livro que o enfeitiçou. E, para Ignacio de Loyola Brandão, essa memória tem nome e cor: Alice no país das maravilhas.
Na biblioteca de Ignacio de Loyola Brandão, entre tantos volumes que atravessam séculos e fronteiras, há algo além do papel e da tinta: há o peso da história, da memória, do pensamento crítico. E é nesse espaço, cercado por livros que moldaram sua vida, que ele fala sobre censura. Uma palavra que, para ele, não deveria mais encontrar lugar no mundo, mas que, ironicamente, segue ressurgindo, vestida de novos moralismos, de novos dogmas, de novas formas de interditar o pensamento.
Seus próprios livros já foram alvo desse movimento, assim como tantas outras obras essenciais. Ele menciona Monteiro Lobato, cuja genialidade é agora obscurecida por rótulos que tentam reduzir sua complexidade ao recorte de um momento específico. Não se trata de negar as marcas do passado, mas de compreendê-las no contexto em que surgiram. Afinal, um escritor não é um monumento inerte – é um ser de seu tempo, um reflexo de suas contradições.
Ignacio de Loyola Brandão clama por essa necessidade de contextualização histórica. O que não se pode fazer, segundo ele, é simplesmente apagar, cancelar, lançar ao limbo autores que, em algum instante de suas vidas, ostentaram posturas que hoje soam anacrônicas. Os livros não são estátuas que se derrubam ao sabor dos ventos. São diálogos, são espelhos, são fios que nos ligam ao passado e nos ajudam a entender o presente.
E, no meio de sua biblioteca caótica e encantadora, Loyola Brandão reafirma aquilo que sempre defendeu: a literatura deve ser espaço de liberdade, de questionamento, de pluralidade. Jamais de silenciamento.
Na biblioteca de Ignacio de Loyola Brandão, os livros não são apenas livros. São fragmentos de uma vida, vestígios de memória, pontos de ancoragem no tempo. Ele pega nas mãos um volume, a biografia de Getúlio Vargas, escrita por Lira Neto, e, ao folheá-la, é como se voltasse a um instante da infância. Era um menino quando o pai o levou para ver Getúlio. A multidão se acotovelava, os adultos murmuravam, olhares fixos na figura histórica que passava. Mas ele, pequeno demais, não viu nada. Apenas sentiu a presença mítica daquele homem, que o pai idolatrava e do qual recebeu, depois de uma carta a ele dirigida, uma coleção de livros, supostamente escritos pelo político.
Essa cena perdida no tempo se junta a tantas outras guardadas em caixas de fotografias que ele coleciona como quem preserva relíquias. São instantes congelados, momentos idos, fragmentos de um passado que resiste ao esquecimento. Entre uma página e outra, entre um livro e outro, Ignacio de Loyola Brandão se reconhece em suas próprias lembranças – uma infância de descobertas, uma juventude de inquietações, uma vida inteira dedicada às palavras.
E talvez seja por isso que sua biblioteca não seja apenas um espaço de leitura, mas um museu íntimo, onde livros, fotografias e folhas emolduradas contam uma história que é sua, mas que, de alguma forma, também é a nossa.
A madrugada ainda se estende quando Ignacio Loyola Brandão atravessa os corredores de sua casa e adentra sua biblioteca encantada. São cinco da manhã, e o mundo lá fora ainda dorme. Mas ali, entre suas estantes, o tempo tem outro ritmo, outro fuso, outro sopro. Ele se senta à escrivaninha, ajeita os papéis, abre um livro, rabisca notas, começa a escrever. E ali permanece até as dez, envolto no silêncio e na cadência de suas palavras.
Não é apenas um escritor. É um alquimista de frases, um obcecado pelo ofício, alguém que, como Érico Veríssimo, acredita que cada palavra deve ser lavrada, relida, retrabalhada até que se torne inevitável.
A frase do autor gaúcho está emoldurada na parede, como um mandamento: “Refazer sempre, refazer custe o que custar. Refazer cada página, palavra, ponto, vírgula, acento. Gastar um ano, se preciso, para construir apenas uma frase. Mas uma boa frase.”
E ali, entre estantes que carregam sua história, sua formação e suas paixões, Ignacio de Loyola Brandão é o guardião de sua própria memória. Ele caminha entre os livros como quem percorre velhos caminhos conhecidos, revisita autores que moldaram sua sensibilidade, reverencia aqueles que o ensinaram a ver o mundo através da literatura.
Na biblioteca de Ignacio de Loyola Brandão, cada livro é uma peça do quebra-cabeça de sua vida. As influências se cruzam, os autores se conversam, as experiências se entrelaçam. O jovem que quis escrever como Faulkner, que encontrou em Hemingway uma bússola, que se deixou arrebatar por Moby Dick, que se impressionou com a concisão implacável de Graciliano Ramos, que caminhou pelas ruas de Berlim com olhos ávidos, agora, aos 88 anos, se cerca de seus livros como um rei em meio a um império de papel. E enquanto houver páginas a serem lidas, histórias a serem contadas, sua voz continuará a ecoar, forte, vibrante, insubmissa, sob o peso da velhice implacável.
*Carlos Eduardo Araújo é mestre em Teoria do Direito pela PUC-MG.
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