A contribuição das Ciências Humanas e das Humanidades para o desenvolvimento do Brasil

Imagem: Caroline Cagnin
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Por RENATO JANINE RIBEIRO & FERNANDA ANTONIA SOBRAL*

Propostas para o ciclo de debates organizado pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC)

Os temas específicos das ciências humanas, e em certa medida também das Humanidades, têm dominado boa parte da cena política, com as propostas de inclusão social e de combate às desigualdades e injustiças. Por isso mesmo, é preciso fincar a importância da pesquisa nessas áreas, que é justamente o que pode dar base às próprias políticas que muitos em nossa sociedade têm considerado prioritárias em nosso tempo. Como bem afirmou Max Weber em suas conferências seminais sobre a vocação do cientista e a do político, trata-se de missões até complementares, mas diferentes. O foco desta Conferência, portanto, estará em questões cruciais para o momentum que vivemos, que precisam ser abordadas de forma científica.

Por ciências humanas (e sociais), entendemos aquele conhecimento científico – que, portanto, segue critérios de cientificidade próximos aos das demais ciências, talvez antes de mais nada o da “falseabilidade” de Karl Popper – que avança rumo a algo que chamamos de verdade. Essa verdade, está claro, não é dogmática nem definitiva; está sempre em sursis, em progresso.

Por humanidades, entendemos aquelas áreas de conhecimento rigoroso, como a literatura, a arte e a filosofia, que se distinguem por (i) não buscarem a verdade, (ii) não conhecerem a ideia de progresso. Nelas, como diz Jorge Luis Borges num conto, não se fala sobre o mundo: agrega-se algo a ele. A ideia de obra, de criação, é essencial aqui. Mas é evidente que essas obras, filosóficas, artísticas ou literárias, dialogam com os seres humanos.

A primeira mesa tratará da destruição do laço social, ocorrida nos últimos anos mundo afora, indagando o que a causou (um panorama da sociedade em conflito quase letal), o que a facilitou (o instrumento das redes sociais, possivelmente) e como enfrenta-la (de que forma recuperar a convicção de que temos referentes comuns a partilhar, que assim permitam a volta do diálogo).

Já a segunda mesa focará tema pouco discutido, que é o seguinte: ao que parece, o avanço tecnológico ao longo da História é mais rápido do que o aprendizado, pela psique humana, de como lidar com essas conquistas. Os casos mais recentes são o da energia nuclear, que faz sua entrada triunfal no mundo sob a forma da bomba atômica, com a morte de mais de 200 mil pessoas em agosto de 1945, e ainda paira sob forma de ameaça à vida humana; e o da internet e das redes sociais, que permitiriam uma proximidade dos seres humanos sem precedente, mas têm sido usadas para o ódio e o crime, mais do que para a amizade e o amor.

A terceira mesa, por sua vez, abordará a questão da inclusão social, quer a das minorias, quer a da maioria silenciada (para usar o termo de Fernando Morais, nos anos 1980) e pobre, discutindo a eficácia das políticas públicas nesta direção, bem como as lições que delas se podem tomar para conseguir o ideal de igualdade e equidade no trato dos diferentes.

Finalmente, a quarta mesa terá por tema uma utopia possível. Os avanços tecnológicos permitem um nível de vida melhor do que jamais existiu, o fim da fome e da miséria, mais que isso, uma vida próspera para todos. Temos hoje ou teremos em breve os meios para uma real igualdade entre os seres humanos, somada a uma liberação de tempo livre que pode viabilizar o sonho do ócio criativo, apresentado por Domenico De Masi nos anos 1980. Para tanto, é preciso saber conectar conhecimentos de distintas áreas, de modo que as possibilidades técnicas lembradas na 2ª mesa, bem como a inclusão social defendida na 3ª, se unam em torno de uma proposta para a humanidade nova e enriquecedora.

Programação


9h/11h30 – MR 1 – Redes sociais, cultura de ódio, polarização: o tecido social sob ameaça: Wilson Gomes (UFBA), Marilene Correa (UFAM).

(i) Quais as razões sociais e econômicas que levaram a uma polarização extrema em nossa sociedade?

(ii) Qual o papel da Internet e das redes sociais nesse fenômeno?

(iii) Como (re)construir laços sociais numa sociedade polarizada?

11h30-13h – MR 2 – A cabeça está atrasada em relação à tecnologia? Renato Janine Ribeiro (USP/SBPC), Christian Dunker (USP), Tatiana Roque (UFRJ).

Ao longo da História, nota-se que muitas invenções aparecem, que podem ser positivas para a humanidade, mas cujos efeitos nocivos são os primeiros a aparecer. Isso vale para os armamentos, culminando na bomba atômica, que continua sendo capaz de pôr fim à vida humana. Vale também para a Internet, com o uso pelo ódio daquilo que poderia servir à emancipação e cooperação entre os humanos. Como reverter isso? Como reduzir o ódio nas cabeças?

13h-14h – Almoço

14h-15h30 – MR 3 – Pesquisas científicas e sua contribuição para a inclusão social. Coordenação de Fernanda Sobral (UnB/SBPC). Palestrantes: Irlys Barreira da UFCE , Anete Ivo da UFBA  e Edna Castro da UFPA

(a) De que maneira podemos promover maior inclusão social em nosso País?

(b) De que modo as ciências do sociais integradas às demais, podem contribuir para projetos efetivos neste rumo?

16h-18h30 – MR 4 – Uma utopia com base científica, para a humanidade e o planeta. Coordenação Renato Janine Ribeiro. Participantes: Ricardo Abramovay, Marina Silva, João Cezar de Castro Rocha (UERJ).

Precisamos articular a solução dos seguintes problemas:

(1) Reduzir o impacto negativo da ação humana sobre a natureza, inclusive baixando o consumismo e produzindo bens de consumo sustentáveis; (2) como lidar com os empregos que não contribuem para o aprimoramento e crescimento pessoal? (3) Aproveitar os avanços científicos e tecnológicos para reduzir o tempo gasto em atividades monótonas e produtoras de infelicidade, ao mesmo tempo que se valoriza o lazer criativo; (4) implantar uma cultura da paz, fortalecendo a cooperação e reduzindo a parte do confronto nas relações humanas; (5) fortalecer o espírito público e a busca do bem comum; (6) resolver a equação que, somando vidas mais longas e queda na natalidade, permite que menos pessoas produzam para muito mais gente.

Em suma, fazer que os ganhos de produtividade, decorrentes da automação ( = máquinas) e da informática, melhorem a vida humana, aumentando a expectativa de vida mas, também, promovendo um lazer criativo e feliz.

*Renato Janine Ribeiro é professor titular aposentado de filosofia na USP. É o atual presidente da SBPC. Autor, entre outros livros, de Maquiavel, a democracia e o Brasil (Estação Liberdade). https://amzn.to/3L9TFiK

*Fernanda Antonia Sobral é professora aposentada do Departamento de Sociologia da UnB.Atualmente é vice-presidente da SBPC.

O evento on-line será realizado nesta terça-feira, 26 de março.

Será transmitido pelo canal Youtube da SBPC: www.youtube.com/canalsbpc


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