A fantasia da mega sena

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Por NICOLÁS GONÇALVES*

A análise da desigualdade contemporânea expõe como o capital compra frações de existência e segurança, aprofundando o abismo entre aqueles que possuem o privilégio do ócio qualificado e os que vendem sua energia vital pela sobrevivência

1.

“Tempo é dinheiro”. A máxima, atribuída a Benjamin Franklin, tornou-se senso comum, um axioma moral da civilização capitalista. Ela ensina a parcimônia, a produtividade, a transformação de cada minuto em potencial de acumulação. É a ética do empreendedor de si mesmo, do sujeito que imagina sua vida como uma pequena firma. Contudo, e se estivermos olhando para o espelho pelo lado avesso?

A conversa cotidiana – da frustração com o trânsito à fantasia da Mega-Sena – revela uma verdade mais profunda e mais brutal. Em uma sociedade em que quase tudo tem preço, a equação fundamental não é que o tempo seja dinheiro, mas que o dinheiro seja tempo. O capital não converte tempo em valor; ele converte valor em soberania temporal.

A ocasião banal que desencadeou esta reflexão é sintomática: a “mega da virada”. Com um inédito prêmio de 1 bilhão de reais. Nos debates familiares, que acabam por tornar-se acalorados, sempre há a promessa da “doação” de parte do valor para amigos e parentes próximos em caso de uma, nem sei se podemos chamar assim, improvável vitória.

Brigas começam. “10 milhões é muito pouco, preciso de mais”, brada uma voz. Mas por que? Porque o que se vende ali mais do que a promessa de riqueza, é a fantasia de uma ruptura radical com a própria condição temporal. O apostador não compra apenas números; compra a ilusão de rasgar o contrato que rege seu uso das horas. O cheiro impregnado no bilhete não é de perfumes caros, ou ainda carros de luxo ou mansões, o cheiro que vem daquele bilhete com seis números é o de “liberdade”, “paz”, “descanso”.

É a promessa de comprar um novo tempo para a vida. Esse imaginário desnuda a falácia tranquilizadora de que “todos temos as mesmas 24 horas”. A sentença, repetida em manuais de autoajuda e discursos meritocráticos, é uma das lorotas mais eficazes do nosso tempo. Ela confunde a medida física, abstrata e vazia do relógio – o chronos igual para todos – com a experiência social concreta do tempo, o kairós qualificado, que é profundamente desigual.

O que o dinheiro compra, no frigir dos ovos, não são objetos, mas sim frações de existência. Ele compra a isenção do tempo desgastante, do tempo que consome o corpo e esgota a psique. Enquanto uma grande parcela da população gasta horas preciosas em deslocamentos caóticos em transportes públicos, outra paga para habitar centros urbanos acessíveis ou para se deslocar em veículos privados (ou de aplicativo, terceirizando o desgaste para outro), e ainda outra (aqui uma “parcelinha”) sobrevoa os céus das grandes cidades de heliporto em heliporto fazendo com que a distância horizontal da cidade se desfaça em meio ao ruído que espanta pássaros.

2.

Enquanto muitos dedicam as horas de folga a tarefas domésticas exaustivas – cozinhar, limpar, cuidar – outros pagam para ter esse tempo de “reprodução da vida” realizado por terceiros, quase sempre mulheres e pessoas negras, em uma cadeia de externalização do cansaço. Esta é a primeira e mais básica transação: o dinheiro converte-se em tempo livre cronológico, liberando um quantum de horas para serem preenchidas com algo que não a mera manutenção da sobrevivência.

Mas a conversão não para aí. O dinheiro não compra apenas tempo livre; compra a qualidade desse tempo. A igualdade do relógio é cruelmente irônica quando se observa que uma hora de vida no asfalto poluído de uma periferia sem áreas verdes não é a mesma coisa que uma hora em um parque arborizado num bairro planejado.

A página digital Mídia Ninja, no dia 29/12 apontou que o Rio de Janeiro, no mesmo minuto, enfrentava duas temperaturas absurdamente distantes. No Leblon, agradabilíssimos 28 graus, no Complexo do Alemão 48 graus Celsius. Vinte e quatro quilômetros separam os dois lugares. Encontramos aqui mais um elemento do desconforto da experiência do tempo causado pelo controle do poder econômico.  Uma hora de espera no SUS (experiência muitíssimo bem-sucedida, porém evidentemente subfinanciada) não equivale a uma hora de consulta num hospital privado de última geração.

O acesso à cultura, à educação estimulante, ao lazer não industrializado – tudo isto é tempo qualitativamente superior, tempo que alonga as possibilidades internas do sujeito e, não raro, a própria expectativa biológica de vida. O dinheiro, portanto, compra um tempo mais denso, mais saudável e mais longo. A desigualdade social se manifesta, assim, como uma desigualdade na textura e na duração da experiência temporal.

Há uma terceira e decisiva aquisição: o dinheiro compra futuro. Em um mundo de incertezas radicalizadas, a segurança é o bem supremo. Planos de saúde, previdência privada, seguros, investimentos: não passam de mecanismos de gestão do risco temporal. São apólices que garantem que, quando a doença, a velhice ou o acidente chegarem – eventos que definem o tempo biográfico – o indivíduo não será lançado ao abismo. Ele terá um amparo mercantil.

Para a classe trabalhadora definida pela cessão constante de seu tempo, o futuro não é um horizonte a ser planejado, mas uma ameaça a ser temida. Vive-se um presente contínuo e ansioso, em que o imprevisto é potencialmente catastrófico. Já para os detentores de capital significativo, o futuro se torna um ativo, um espaço a ser modelado por consultorias financeiras. Eles não apenas têm tempo livre hoje; têm a garantia (sempre relativa, mas real) de que terão tempo livre amanhã. O dinheiro, nesse sentido, é a materialização do poder sobre o porvir.

3.

Chegamos assim ao âmago da relação social capitalista contemporânea: o dinheiro compra, acima de tudo, o tempo de vida de outrem. A relação salarial é, em sua raiz, a transação na qual um segmento da existência de uma pessoa – suas energias físicas, mentais e emocionais – é alienado e colocado à disposição de outra. O que o patrão adquire não é simplesmente um conjunto de tarefas, mas um bloco de tempo vivo, que ele tentará moldar e intensificar ao máximo.

A estratificação do que costumávamos chamar de classe social, nessa perspectiva, pode ser redefinida: de um lado, as classes que vendem tempo; de outro, a classe(diminuta) que compra tempo. A famosa “exploração” é, em termos existenciais, a expropriação sistemática de tempo de vida alheio para a ampliação do tempo soberano do explorador. Importante ressaltar: aquele que compra tempo de outro, por ter o seu próprio tempo comprado por outro ainda, não faz parte da classe diminuta dos atuais senhores do tempo.

É aqui que devemos imergir em uma crítica da economia política do nosso tempo histórico. Para decifrar a qualidade deste nosso presente, em que a desigualdade temporal se agudizou de forma inédita, me parece preciso “invocar” (qual fosse um anti senhor do tempo) um pensador que se dedicou a escavar as camadas geológicas das temporalidades na era do capital financeiro: o filósofo Paulo Arantes.

Em obras como O novo tempo do mundo e Extinção, Paulo Arantes diagnostica um colapso. O que ruiu, argumenta ele, foi o “futuro” como categoria coletiva, como horizonte de expectativa compartilhado que orientava a ação política – seja a promessa liberal do progresso, seja o projeto socialista da emancipação. O que temos agora é o “fim do futuro”.

Em seu lugar, instala-se um presente perpétuo, um agora dilatado e achatado, marcado não pela esperança, mas pela gestão de riscos e pela expectativa de catástrofes (ambientais, financeiras, pandêmicas). O tempo global acelerou-se freneticamente nos circuitos financeiros e tecnológicos, mas a experiência(a sensação temporal) social dominante é a de uma paralisia, um slow motion da decadência.

A chave proposta por Paulo Arantes ilumina dramaticamente nossa tese sobre o dinheiro-tempo. Se o “futuro” como projeto comum desapareceu, ele não se tornou inacessível a todos. Pelo contrário: foi privatizado. O que define a classe dominante na financeirização é justamente sua capacidade de resgatar, para si, um futuro privado, blindado do colapso geral. Enquanto a maioria experimenta o tempo da catástrofe em um grande plano sequência – um desmonte contínuo de direitos, uma precarização sem fim, um pânico ambiental difuso –, uma minuta elite gestora e rentista vive em um regime temporal distinto.

É o tempo do portfólio, da alocação de ativos, da sucessão patrimonial. Um tempo elástico, cíclico, de longa duração (para usar o termo de Ferdinand Braudel, caro a Arantes), imune às angústias do assalariado. Seu “trabalho”, muitas vezes, é a gestão desse tempo-capital, um metabolismo financeiro que acontece em velocidade cibernética, gerando renda independente da produção concreta.

4.

Aqueles que vendem tempo, por sua vez, estão imersos no que poderíamos chamar, seguindo a trilha de Paulo Arantes, de tempo-fragmento. É o tempo da jornada de trabalho, do ponto eletrônico, do algoritmo do aplicativo que dita o ritmo da corrida. É o tempo esfacelado do trabalhador de plataforma, que não tem mais “dia de trabalho”, mas “tempos de tarefa” desconexos. É o tempo esvaziado de projeto, pois o salário não garante mais a construção de uma trajetória, apenas a sobrevivência no presente imediato.

Entre esses dois polos, a classe média profissional vive uma esquizofrenia temporal angustiante: vende tempo qualificado (sua expertise) a um preço mais alto para tentar comprar, de forma sempre incompleta e ansiosa, migalhas de segurança futura e lazer presente. É a classe mais obcecada por cronogramas, deadlines e planos de carreira justamente porque sua posição, e seu regime de tempo, são os mais instáveis.

Esta cisão em regimes temporais antagônicos – o tempo-futuro privado da classe que compra tempo versus o tempo-presente catastrófico das classes que vendem tempo – não é um mero efeito colateral, mas a própria dinâmica central do capitalismo contemporâneo. O que Paulo Arantes identifica como a “aceleração do tempo do mundo” sob o domínio financeiro é, na verdade, uma aceleração seletiva.

O capital financeiro opera em tempo real, em nanossegundos, em ciclos de valorização que nada têm a ver com o tempo de gestação da produção material ou da vida humana. Essa velocidade delirante, contudo, não significa “progresso” para a sociedade. Ela atua como um turbilhão que dessincroniza os tempos sociais. De um lado, uma minoria tenta (e até certo ponto consegue) sincronizar seu ritmo de vida com essa aceleração abstrata do capital.

Seus corpos e mentes são adaptados aos fusos horários globais, às teleconferências, às flutuações dos mercados. Seu tempo é desterritorializado. Do outro lado, a maioria experimenta essa aceleração numa chave regressiva. A exigência de “flexibilidade” do trabalho é a imposição de que o tempo vital do trabalhador se molde, de forma imediata e sem amparo, aos solavancos da demanda.

5.

Fala-se já há algum tempo da categoria “uberização”, sendo ela a epítome desse processo: o aplicativo comanda o ritmo em tempo real, mas o motorista ou entregador vive um tempo sólido de exaustão, preso ao volante ou à moto, em uma jornada sem início ou fim claros, sem horizonte que não esteja preso na eterna repetição das 24 horas do tempo de Chronos.

Torna-se o carro ou a moto em uma grande gaiola em que se corre em uma roda gigante que não leva a lugar algum. A aceleração financeira, portanto, produz simultaneamente a hiperaceleração do rentista, que ainda é capaz de experimentar um tempo vivo e a paralisia acelerada daqueles que só podem experimentar o tempo morto – um correr frenético para permanecer no mesmo lugar de insegurança.

A política, na clássica acepção de disputa por um futuro comum, definha nesse cenário. Se o futuro foi privatizado, a ação coletiva perde seu telos. As lutas, quando emergem, tendem a ser defensivas, pela preservação de direitos conquistados no passado, ou reativas, contra a catástrofe que já chegou (um despejo, um corte de verbas, um desastre ambiental). A forma “gestão” substitui a forma “projeto”.

Governos, mesmo progressistas, se vêem reduzidos a administradores de crises dentro dos estreitos limites ditados pelo tempo financeiro. A esquerda, muitas vezes, ainda fala a linguagem de um futuro emancipatório que soa, para as novas gerações imersas no tempo-fragmento, como um arcaísmo inacreditável.

Se o dinheiro já nos permite comprar horas, dias e anos – seja na forma de lazer, saúde ou segurança –, o que dizer quando a própria morte se torna negociável? A promessa da imortalidade tecnológica, visionada pelo cientista que trabalha na Google, Ray Kurzweil, não é apenas mais uma previsão audaciosa; é a culminância lógica de uma sociedade que transformou o tempo em mercadoria. Ray Kurzweil prevê que, ainda nesta década, poderemos fundir-nos com máquinas, ampliar nosso poder cognitivo na nuvem e estender a vida indefinidamente.

Mas essa “singularidade” não será um salto coletivo: será a mais radical das privatizações. Enquanto uma minoria gestora e rentista já vive hoje em um “tempo-futuro” blindado – administrando sucessões patrimoniais –, a imortalidade representaria a conquista final desse regime temporal exclusivo: a posse do tempo biológico infinito. Enquanto isso, a maioria continua imersa no “tempo-presente” esfacelado – entregando suas horas ao algoritmo, sem horizonte além da sobrevivência imediata.

A política, que outrora disputava um futuro comum, parece incapaz de responder a essa cisão. Se o futuro já foi sequestrado pelo capital, a imortalidade seria sua última fronteira colonizada. Resta perguntar: em um mundo onde até a morte(até então fronteira intransponível que funda ao menos uma perspectiva pós-futura de igualdade) terá um preço, que formas de resistência ainda serão possíveis? Como refundar um kairós coletivo – um tempo qualificado, cheio de sentido e acessível a todos – quando o próprio tempo vital se torna o bem mais escasso e desigual?

*Nicolás Gonçalves é doutor em sociologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

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