Gaza, a “sociedade do asfalto” e as favelas do Rio de Janeiro

Dora Longo Bahia, A polícia vem, a polícia vai, 2018 Acrílica sobre vidro laminado trincado 50 x 80 cm
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Por SEGADAS VIANNA*

A justificativa para a violência da polícia da Israel carioca, igual a justificativa das Forças israelenses, é que ” as favelas abrigam os traficantes

Vamos criar um cenário onde as favelas do Rio de Janeiro seriam Gaza e a ” sociedade do asfalto” seria Israel.

Na Gaza carioca os traficantes (ou o Hamas) realiza ataques militares na região do Israel carioca ou se envolvem em conflitos com outros grupos armados. Frequentemente os traficantes,  ou o Hamas carioca, rapta, tortura e mata viventes do Israel carioca.

Da mesma forma que Israel age na Cisjordânia a polícia no Rio de Janeiro age como as Forças de Defesa de Israel invadindo as áreas pobres com grande poder bélico e não raro deixa vítimas civis em meio à essa população.

A justificativa da polícia da Israel carioca, igual a justificativa das Forças israelenses, é que ” as favelas abrigam os traficantes, os traficantes obrigam os moradores a escondê-los e que os traficantes vivem misturados com a população das favelas.  Exatamente a lógica do pensamento das Forças de Defesa de Israel com relação à população de Gaza

Ainda seguindo esta linha de pensamento as Forças de Defesa de Israel entendem que a solução para acabar com o Hamas é bombardear Gaza, incluindo a população civil, para exterminar o inimigo. É invadir por terra com blindados e helicópteros matando todos os considerados inimigos.

Ou seja, aplicando a lógica de Israel, e dos que apoiam a ação em Gaza vitimando os palestinos,  a solução para acabar com os traficantes deveria ser bombardear a população das favelas,  invadir estas áreas com grande poder bélico e considerar as vítimas civis como danos colaterais.

Quando trazemos para cenários próximos a nós a solução de Israel para acabar com o Hamas podemos enxergar,  por mais curta que seja a visão,  ou por mais que o opinante careça de maior aprofundamento cultural , o tamanho do absurdo e da crueldade deste tipo de solução que está sendo levada a efeito por Israel em Gaza. Por outro lado, da mesma forma que a polícia no Rio de Janeiro muitas vezes invade com tremendo poder bélico a favela, matando e ferindo dezenas, apreendendo o espólio da batalha com os traficantes sem que isso altere de verdade o cenário nestas áreas o mesmo se dará em Gaza.

Israel pode bombardear,  pode invadir, sequestrar, torturar e matar, porém sempre haverá redutos onde o Hamas continuará existindo, resistindo e lutando. Ações policiais ou militares que afetem a população em geral resultam apenas em uma imensa piora da imagem da força repressora junto à população civil atingida por estas ações.

Responder a brutalidade com brutalidade em geral só resulta em mais brutalidade. O resto é proselitismo ou conjectura.

* Segadas Vianna é jornalista.


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