O escaravelho de má sina

Imagem: Vasco Prado

Por PRISCILA FIGUEIREDO*

Sete poemas

 

Vai!
AS borboletas andam
cada vez mais remotas.
Vi ontem pousada em cima
dessa porta entreaberta
uma enorme, matissianíssima,
quase improvável
nesta cidade.

Era linda
e melhor ainda que veio me encontrar
sem medo (o perdi há tempos)
de pegar com a mão
quase todo inseto e não só:
a lagartixa pelo rabo,
ou mesmo de de virar pro lado
devido o escaravelho de má sina
que vive berrando
com as pernas pro alto me acudam
que vou dar um troço!

Prestigiei a borboleta e lhe peguei
nas asas como com a pinça;
olhei a cabecinha que me pareceu
meio confundida e soltei o ser
todo no ar.
Imagine, parece até que eu ensinava
alguma coisa a ela, como se jogar
na vida ou flanar – não era:

“Dá no pé e não para ––
tá todo mundo aqui louco
pra te matar.”

 

O vereador de Piraí (RJ) José Paulo Carvalho de Oliveira, o Russo (PT do B), afirmou no dia 8 de outubro, em uma sessão comemorativa aos 25 anos da Constituição, que mendigos não deveriam votar e que poderiam virar ração para peixe.
“Die toten – sie betteln noch” (Paul Celan)

O que Francisco de Assis diria

se ele e a ordem de mendicantes
que fundou virasse
ração de peixe ––
talvez ele dissesse:
“Irmão peixe, nos dê licença
de escorregar pra dentro
de sua boca;
você nem precisa
mexer a mandíbula
estamos triturados,
até sua mal
afamada memória
é capaz que melhore;
e quando
chegar sua vez
de escorregar pra dentro
guarde bem:
nem tudo
foi moído
através do ciclo ––
os mortos, eles ainda
mendigam”.

 

Um provável pensamento
Imaginei que não me viam
estando assim enrodilhado sob a mesa,
mas este rabo que não sossega
foi logo denunciando onde estou;
nem sempre é possível
acalmá-lo ou acomodá-lo:
ele está comigo
– não ousaria dizer em nenhuma circunstância
ele me pertence, embora
partilhe dos mesmos nutrientes,
cresça tanto quanto eu mesma vou espichando,
comunique aos outros minha alegria.

Creio que é assim meio
indócil
porque vê mais longe
seja rastejando
seja se empinando
como um farol;
o vejo conversando com todos,
dos vermes às abelhas,
tira suas próprias conclusões
e o deixo com elas.

Não se sabendo entretanto
inteiramente livre,
projetado para o mundo
de uma parte obscura e mal-cheirosa,
que a mim mesma não é dado encarar,
terá sempre um ar humilde
apesar de todo o atrevimento
que pena que a gente não arrancou ele fora no início, esse
      ………….. …   .             …….                                                  [rabo!
quase posso ouvir minha dona dizendo isso.

Não deixa de doer um pouquinho
mesmo sabendo que da sua perspectiva
eu e ele não somos
exatamente a mesma coisa.

 

O coração de um dia
Às vezes é mais forte que tudo a vontade
de tirar leite de pedra.
Não sabemos nem mesmo se tem
leite no interior dela, ou será antes
um choro fino e indescoberto.

Deve de ser verdade que a pedra
“já foi gente um dia que nem nóis”
ou a humanidade toda dos homens trampando
como ainda trampam em pedreiras graníticas —
assombroso como a pedreira da milícia evoca
as descritas na Bíblia, como o sol
que castiga os homens sem camisa
é sempre uma sina de 40 graus pra mais
seja no Rio ou no Egito antigo.

Na pedra também os sortilégios da inveja
ou da arcaica maldade aprisionaram
a virgem ofendida e o órfão, e toda sorte
do amor condenado
de modo que se ela cascalha, se parece
o que há de mais sólido, escuta:
toda pedra foi coração um dia;
achamos que a lápide diz do morto
mas ela é antes o dorso de outro morto,

antigo e mais calcificado.
Escorado em si mesmo, o ser ali
tão curtido, metamorfose de dor,
a custo cede mesmo oferecendo a nuca.
Quando por fim se desagrega,
vê-se logo que não tem mais choro —
ter vindo a ser assim duro foi dos golpes
que levou dos homens, não da fortuna.

 

A partir de uma charge de março de 2020
O céu se fixou em azul suspeito –
que me importa se é suspeito?
quisera estar agora sob seu manto

o sol brilha por si e por si como jamais
o não-humano encaracola e brinca
e em grupo se aglomera em rodovias

olhos se empilham nas casas
lançando raios a curta distância

 

Eco romântico
Por que você não me acolheu?
Eu tinha uns defeitinhos, mas pensei
que você não ligava… até gostava
porque eram meus defeitinhos.
Lembro de você dizer que não,
que eu não aparecia, que eu era antes
uma aparição entrando pela sua porta.
Você sempre exagerado!
mas eu acreditava, ué,
por que não acreditaria?

De primeiro você chorava,
seu olhar parece acusava
a própria felicidade,
isto é, a que lhe era de direito,
mas também a felicidade ela-mesma,
tal qual graça de Deus ou revolução,
refúgio à beira
de um grande lago solitário,
ou mesmo um sonho muito modesto,
um sonho mínimo: “Então é isso
que você quer da vida, meu filho?”.
Pois você foi esperá-la em mim até vir
de uma vez a cólera…

Eu, tão imperfeita, eu também queria
a felicidade, felicidade…
Ao menos um eco porque não tem
meia felicidade, mas eco ou sombra,
isso ela pode ter.
Como seus olhos luziam de vê-la
em mim, assim parecia…
não me importei que em mim a visse
desde que a mim me visse também.

 

Pai
Já faz quase nove anos,
não sei se nove é muito,
não sei se é pouco, sei que dura
como se você não tivesse ainda acabado
 ……………………………                                               de morrer.
Nunca revi em sonho seu belo perfil romano;
uma vez sua figura apareceu bem longe,
mas era tão longe… ou era você
que não tinha mais feição.

Minha memória anda falhando tanto que tem hora
confundo o ouvido com o não-ouvido,
o ser de carne e osso com a película sonora;
não lembro se você estava na sombra
quando me esperava sair do edifício
da escola, ou se aguentava firme no sol. Sei
que esperava alegre,
que me dava um beijo na testa —
e isso não é um fio que puxei,
é de conhecimento meu e seguro.

Lembro sempre do senhor com a mala moída
na alça, cheia de contratos a propor, logo frustrados.
Ainda espero ver completa a sua imagem, mas uma peça
me pregam nesta casa em que não sou senhora:
é que te metamorfosearam em murmúrio,
vindo de detrás de umas tantas portas familiares,
e às vezes é um riacho que fala muito baixinho.

Uma borboleta batia as asas salpicadas de azul,
fazia um ruído de nada; de novo te adivinhei
sob forma abstrata e musical, melhor,
pré-musical. Também a ventania soprando
até fazer cair uma fruta
(ou era a fruta que assoviava?)
Me acostumei que você ressurja em rumor,

tão delicado que me concentro pra escutar.
Se você soubesse como sua filha mais velha está curtida
e pouco delicada, num mundo menos ainda,
se exibindo na rudeza de imagens,
saltando na rede como um peixe
com seus últimos recursos de vida.
Mas é bom que você não saiba, é melhor.

*Priscila Figueiredo é professora de literatura brasileira na USP. Autora, entre outros livros, de Mateus (poemas) (Bem te vi).