As ideias precisam circular. Ajude A Terra é Redonda a seguir fazendo isso.

A força da sociedade

Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por André Singer*

Com suas últimas atitudes, Jair Bolsonaro atravessou uma espécie de linha vermelha. Diante disso, as pessoas decidiram dizer: basta! E não foram somente pessoas que já se colocavam no campo da oposição.

As consequências políticas

A primeira consequência política da pandemia do coronavírus decorre de seu impacto no terreno da economia. A expansão do vírus provocou indiretamente uma queda expressiva no preço do petróleo, o que, por sua vez, ocasionou uma queda generalizada dos preços das ações nas bolsas de valores em todo o mundo, um movimento que vem se repetindo em meio a fortes oscilações. Nesse cenário, as moedas de quase todos os países se desvalorizaram perante o dólar norte-americano.

Na realidade, a situação da economia mundial já não era boa, ela não constituía uma sólida barreira de contenção para a recessão que, tudo indica, será provocada pela pandemia do coronovírus. O Brasil, por sua vez, não terá como escapar das consequências dessa recessão global. A economia brasileira tampouco vinha bem. O resultado do crescimento do PIB de 2019, 1,1%, mostrou que a economia brasileira está estagnada num patamar baixo, com altos índices de desemprego.

Diante desse anunciado cenário econômico que evidentemente tem um impacto direto sobre a política, a reação do governo de Jair Bolsonaro demonstra certa confusão. Num primeiro momento, o presidente, ainda nos EUA, fez uma declaração dizendo que a epidemia não era importante. Ao mesmo tempo, aqui no Brasil, seu ministro da economia, Paulo Guedes, fazia uma pressão sobre o Congresso para a aprovação de 19 medidas que estão paradas no legislativo. Só o número, 19, no entanto, já indica que não está muito claro o que o governo realmente pretende fazer para enfrentar as consequências econômicas da pandemia.

A outra consequência política da pandemia passa pelo manejo da questão de saúde pública. O problema sanitário irá requerer um esforço grande, concentrado, organizado e também investimentos do Estado nacional.

Depois dos panelaços

Levando em consideração todas as cautelas que convém ter, considero que a conjuntura mudou com os panelaços. Ela mudou não no sentido de que alguma coisa irá acontecer do dia para a noite ou que vai mudar da água para o vinho, mas alguma coisa nova começa a acontecer. O primeiro panelaço, na terça-feira, 17 de março, foi uma manifestação espontânea, não convocada por movimentos organizados, uma manifestação que se irradiou pelo país inteiro e uma manifestação que ocorreu, sobretudo, em bairros de classe média. Não custa lembrar que esses bairros de classe média foram locais em que Bolsonaro obteve grande apoio e votação nas eleições de 2018.

Estamos, portanto, diante de uma alteração de sentimento importante. Atribuo essa alteração às atitudes adotadas pelo presidente Jair Bolsonaro nos dias que antecederam os panelaços, em particular à sua decisão de comparecer a uma manifestação em Brasília em 15 de março. Tratava-se de uma manifestação contra o Congresso Nacional e contra STF. Ele não poderia ter apoiado e muito menos ter participado dessa manifestação, porque a Constituição exige que o presidente não impeça o livre exercício dos poderes que são paralelos ao poder executivo.

Além disso, ele desrespeitou abertamente as orientações de seu ministro da Saúde criando um contraste brutal entre as orientações médicas ante uma pandemia da maior gravidade e as ações do próprio presidente da República. Nesse momento, Jair Bolsonaro atravessou uma espécie de linha vermelha. Diante disso, as pessoas decidiram dizer: basta! E não foram somente pessoas que já se colocavam no campo da oposição.

Não é possível prever o que irá acontecer. Tudo indica, porém, que ainda que não seja uma transformação radical, a conjuntura começou a mudar. A sociedade começou a se mobilizar. A sociedade não pode tudo, é preciso observar como os atores políticos, como as instituições irão reagir, mas apesar disso, a sociedade pode bastante.

*André Singer é professor titular de ciência política na USP.

Artigo estabelecido a partir de entrevistas concedidas a Gustavo Xavier na rádio USP

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Fernando Nogueira da Costa Mariarosaria Fabris Boaventura de Sousa Santos Igor Felippe Santos Fábio Konder Comparato Marcelo Guimarães Lima Remy José Fontana Roberto Bueno Marcos Aurélio da Silva Francisco Fernandes Ladeira Paulo Martins Lincoln Secco Manuel Domingos Neto Caio Bugiato Julian Rodrigues João Paulo Ayub Fonseca Marilia Pacheco Fiorillo Bruno Fabricio Alcebino da Silva Sandra Bitencourt Claudio Katz Luiz Carlos Bresser-Pereira Marcus Ianoni Gerson Almeida Eduardo Borges Bento Prado Jr. Everaldo de Oliveira Andrade Daniel Brazil Sergio Amadeu da Silveira Rodrigo de Faria Luiz Roberto Alves Dênis de Moraes Luiz Bernardo Pericás Gabriel Cohn Anselm Jappe Luiz Eduardo Soares Milton Pinheiro Slavoj Žižek Luís Fernando Vitagliano Ricardo Antunes João Lanari Bo Alexandre de Lima Castro Tranjan Leonardo Sacramento Jorge Luiz Souto Maior Afrânio Catani Alysson Leandro Mascaro Roberto Noritomi Andrew Korybko Armando Boito Chico Whitaker Paulo Nogueira Batista Jr Tarso Genro Francisco de Oliveira Barros Júnior Thomas Piketty Salem Nasser André Singer Alexandre Aragão de Albuquerque Tales Ab'Sáber Eugênio Bucci Leonardo Avritzer Celso Frederico Eliziário Andrade Dennis Oliveira Maria Rita Kehl Henry Burnett Elias Jabbour Michael Roberts Daniel Costa Liszt Vieira Valerio Arcary Benicio Viero Schmidt Érico Andrade Antonino Infranca Manchetômetro Ladislau Dowbor Jean Marc Von Der Weid Paulo Sérgio Pinheiro Gilberto Lopes Paulo Capel Narvai José Dirceu Eleonora Albano Luis Felipe Miguel Leonardo Boff Otaviano Helene Flávio Aguiar Gilberto Maringoni Carla Teixeira André Márcio Neves Soares Carlos Tautz José Raimundo Trindade Valério Arcary João Feres Júnior João Carlos Loebens Antônio Sales Rios Neto Vladimir Safatle Fernão Pessoa Ramos Ricardo Musse Ronald León Núñez Ricardo Abramovay João Carlos Salles Atilio A. Boron Samuel Kilsztajn Airton Paschoa Henri Acselrad José Costa Júnior Annateresa Fabris Marilena Chauí Flávio R. Kothe Tadeu Valadares Walnice Nogueira Galvão Bernardo Ricupero Paulo Fernandes Silveira Celso Favaretto Jorge Branco Juarez Guimarães Leda Maria Paulani Rafael R. Ioris Mário Maestri José Micaelson Lacerda Morais Eleutério F. S. Prado João Sette Whitaker Ferreira Kátia Gerab Baggio Luiz Costa Lima Marcelo Módolo Bruno Machado Plínio de Arruda Sampaio Jr. Marcos Silva Lorenzo Vitral Yuri Martins-Fontes Vanderlei Tenório Luiz Renato Martins Michael Löwy Eugênio Trivinho Heraldo Campos Osvaldo Coggiola José Geraldo Couto Ronaldo Tadeu de Souza Berenice Bento Rubens Pinto Lyra Renato Dagnino Ari Marcelo Solon Luiz Werneck Vianna Ronald Rocha José Luís Fiori Francisco Pereira de Farias Antonio Martins Marjorie C. Marona Alexandre de Freitas Barbosa Priscila Figueiredo Jean Pierre Chauvin Vinício Carrilho Martinez Lucas Fiaschetti Estevez Chico Alencar Anderson Alves Esteves João Adolfo Hansen Denilson Cordeiro Ricardo Fabbrini Luiz Marques Luciano Nascimento José Machado Moita Neto Daniel Afonso da Silva

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada