A fraqueza de Deus

image_pdf

Por MARILIA PACHECO FIORILLO*

Ele se afastou do mundo, transtornado pela degradação de sua Criação. Só a ação humana pode trazê-lo de volta

Os primeiros cristãos, muito antes da consagração dos evangelhos ditos canônicos (havia dezenas em circulação, que foram expurgados[1]) e rapidamente derrotados pela oficialização do catolicismo como religião oficial do Império Romano (século IV) sabiam disso. Sabiam muito bem que, se havia uma mensagem prometendo boas-novas, era preciso antes responder (e resolver) uma pergunta originária: Unde malum, isto é, de onde viria o mal.

Foram chamados de gnósticos pela sua repugnância ao dogma e hierarquias e pela convicção de que a resposta estava na gnose (o conhecimento íntimo, intuitivo e pessoal da divindade), não na fé obediente. Foi fácil aniquilá-los, pelo seu anarquismo avant la lettre, pela mania de revezar funções (bispo hoje, amanhã na plateia; nenhum cargo era vitalício e até mulheres podiam oficiar um culto) e principalmente por jamais se fixarem num lugar, perambulando de vilarejo a vilarejo, andarilhos que espalhavam as palavras ao vento.[2]

Mas o que sabiam os gnósticos a ponto de torná-los tão incômodos, indesejáveis, e mesmo ameaçadores? Não eram segredos ocultos, fórmulas mágicas, amuletos encantados, abracadabras – a calúnia que prevaleceu na história oficial da Igreja. Nem eram exatamente místicos, outra vertente que as religiões entronizadas detestam, vide o sufismo para o islamismo salafista. O que os gnósticos conheciam e cultivavam era o poder da imaginação – inventar e pavimentar um caminho próprio, rejeitando a superstição recém promovida a verdade universal (aliás, católico é a tradução do grego ‘universal’). Conheciam e punham em prática. Pois o gnosticismo é tudo, menos um quietismo.[3]

As nuances das doutrinas gnósticas são tantas que, até hoje, atrapalha-se quem tenta classificá-las. Falar em gnosticismo é falar de combinações de ideias, permutações, mesclas, improvisações. “Tantas sentenças quantas forem as cabeças”, como zombava um de seus grandes adversários, o cioso padre da Igreja Tertuliano de Cartago. Por sorte, esse caminho torto (heterodoxo) teve um intérprete à altura, igualmente imaginativo, mas superlativamente mais claro: o filósofo Hans Jonas (1903-1993), autor do insuperável The Gnostic Religion.[4]

O judeu alemão Hans Jonas estudou com o filósofo Martin Heidegger e com o teólogo Rudolph Bultmann na década de 1920, época em que conheceu Hannah Arendt (famosa por sua análise do totalitarismo), de quem ele se tornaria amigo e com quem compartilharia uma ‘ética da responsabilidade’, ela ressaltando a política, ele enfatizando o futuro. Nos anos 1930, como tantos intelectuais que fugiam da ascensão do nazismo, emigrou para a Inglaterra, e em seguida para a Palestina, o Canadá e Nova York, onde ensinou filosofia na New School of Social Research.

Sua obra Gnosis und spätantiker Geist, publicada em 1934 na Alemanha, é um clássico sobre o tema, pois sua original abordagem permitiu, enfim, decifrar a esfinge: Hans Jonas trata o gnosticismo não como um fato historicamente circunscrito, mas como um fenômeno existencial. Mais tarde, em seu livro Mortality and Morality, a search for the good after Auschwitz (“Mortalidade e moralidade, uma investigação sobre o bem após Auschwitz”), Hans Jonas esboçaria uma peculiar teologia, segundo a qual Deus está longe de ser o criador onipotente, como querem (exigem!!) as religiões monoteístas.

Ao contrário, é um ser vulnerável, desorientado, no limite do exílio. Isso porque doou tanto de si para arquitetar o Cosmos que se esgotou. Um tanto para estrelas e planetas, outro tanto para este mundo, a vida mais manejável das plantas e bichos, e, finalmente, como último gesto de auto-doação, o conturbado e incontrolável ser humano. Estava quase sem forças quando moldou o homem que este escapou-lhe ao controle – e começou, lamentavelmente, a investir contra os propósitos da divindade.

Este Deus ainda possui certo poder de persuasão sobre alguns episódios humanos, mas já não possui mais a energia e a capacidade de coibir ou proibir abusos e deformações. Às vezes, pode até influenciar, mas é incapaz de decidir o que quer que seja. Anêmico, desvitalizado, se exila em si próprio enquanto gradualmente exila-se de suas criaturas.

Não está morto, como disseram, mas perplexo e paralisado, em coma. A essa perda de potência soma-se outra desvantagem: o próprio Deus pode ser vitimado pelo que ocorre no universo, aí compreendidas, sobretudo, as ações humanas. Ou presenteado, se o homem justo prevalecer, ganhando a luta contra as abominações.

O tema da criatura capaz de regenerar o criador é retomado por Hans Jonas em O conceito de Deus após Auschwitz. Monstruosidades como as que aconteceram em Auschwitz, ele escreve (a velha questão do mal, tão cara aos gnósticos), não podem ser explicadas pelos argumentos tradicionais, e nenhuma teodiceia, ou tratado sobre a bondade de Deus, conseguiria justificar tais abjeções, por mais piruetas intelectuais que empreenda.

Horrores como os ocorridos em Auschwitz – ou, agora, na Palestina, Afeganistão, Ucrania, Yemen, Congo, Sudão, El Salvador, como os que ocorreram em Kosovo, Sarajevo, Ruanda, Darfur, Libéria, Síria; lista cada vez mais extensa – nos convencem de que o mundo, se um dia foi criação divina, já há muito deixou de ser. Ou Deus não era feito só de bondade, ou não participou do último ato da Criação.

Assim, caso se queira restaurar sua presença, é preciso redefinir seu papel. Se Ele existe, não tem nenhuma responsabilidade pelo curso da história. Seria inimaginável que, em sua onipotência e onisciência, e, sobretudo, onipresença, sancionasse tantas atrocidades.

É a cara feia da própria história, pois, que nos obriga a redefini-Lo, já que Ele não pode e nem deve ser associado ao Senhor da barbárie.

No início era a queda

Mas como manter Deus, ou pelo menos o devaneio de Sua existência, se Ele se lançou para fora do mundo?

A solução de Hans Jonas é mais ou menos aquela de Kant, quando este “despertou do sono dogmático” da metafísica graças à terapêutica leitura do cético Hume. Kant salvou a metafísica acrescentando a ela o filtro do empirismo – estava inventada a “metafísica transcendental”, cujo grande proveito foi o de resolver a eterna angústia sobre a validade do conhecimento estipulando que a verdade de uma coisa sempre estará condicionada aos óculos de nossa percepção.

Hans Jonas fez parecido: manteve Deus, como Kant manteve a metafísica, mas o relativizou. As prerrogativas continuavam lá, apenas temporariamente suspensas. Em vez do Deus que havia concebido e continua interferindo nos negócios do cosmos, como querem os monoteísmos, Hans Jonas sugere um Deus que, justamente porque concebeu e interferiu, acabou perdendo seu lugar.

Foi gradativamente se debilitando ao se envolver demais em seu próprio trabalho. O Deus transcendental, portanto, desapareceu no meio do caminho: hoje é um Deus no ostracismo, divorciado de sua Criação, expulso por suas próprias criaturas, e tremendamente necessitado da ajuda delas para voltar à ativa.

A definição tem sabor claramente gnóstico. A triste sina do Deus de Hans Jonas é a mesma vivida pelo Deus dos valentinianos, sethianos, marcionitas[5] e outros heréticos dos primeiros séculos. O esquema se repete: havia um ser de absoluta perfeição que, por generosidade, resolveu dar parte de si para criar o universo; sua decisão mostrou-se uma temeridade, como a do incauto rei Lear ao dividir seus domínios entre as filhas ingratas.

Assim, o Deus original, fonte de tudo, que havia abdicado de seu sossego por um impulso de doar-se à infinita variedade do vir-a-ser, isto é, para ceder algo dele que materializasse as estrelas, os planetas, plantas e bichos e, equivocadamente, pessoas, este Deus, ao abandonar seu repouso, condenou-se a vagar eternamente, longe dos seus.

No início, pois, foi a Queda. Esse o erro primordial, a Queda inaugural: ao deixar seu lugar, a divindade aventurou-se nos até então inexistentes tempo e espaço, no acidente e na circunstância, no efêmero e no imprevisível. Mergulhou com tanto ímpeto no propósito da Criação que esqueceu a rede de segurança. Concentrado em seus afazeres, Deus não tomou a precaução de deixar de reserva alguma porção de Si, para qualquer eventualidade. Entregou-se totalmente, como fazem os jovens apaixonados.

Mas, como em todo romance, cedo ou tarde a realidade se impõe. E a realidade com que Deus se viu às voltas, no finalzinho de seu projeto, foi a de que sua obra se desgovernava, tomava rumos inesperados e, pior, estava totalmente irreconhecível.

A divindade havia se comprometido tanto com o destino de sua Criação, havia gasto tanto de si, que não tinha mais potência para corrigir os erros de rota. O Lear de Shakespeare não teve alternativa a não ser enlouquecer e morrer. Deus tinha duas: podia desfazer o equívoco num piscar de olhos, destruindo o mundo, ou podia, por pura compaixão, permitir que o mundo, mesmo disparatado, continuasse existindo. Escolheu a segunda: preferiu poupar o mundo, mesmo que com isso esgotasse seu último fôlego. Dito e feito: o Cosmos sobreviveu, mas Deus não se reconheceu mais nele. Desalojado, renunciou.

Na teologia mito-poética de Hans Jonas, o tempo, o mundo e a vida desfiguraram a integridade divina. Deus se recusou a continuar sendo quem era para que o mundo pudesse existir. Esse esfacelamento do poder divino se agravou com a complexidade da evolução biológica. O aparecimento do homem no topo da escala evolutiva foi o golpe de misericórdia na autoridade divina: com o homem veio o livre-arbítrio, e com isso o mundo ficou à mercê das sandices humanas.

O irônico, talvez, é que o projeto divino inicialmente imaginado se perderá no esquecimento do tempo, o mesmo tempo que havia corroído e corrompido sua integridade. Essa tragédia só não acontecerá se os próprios homens, por uma decisão moral, retomarem o plano original. Essa seria a função da ética: trazer de volta a justiça não só para os homens, mas para que Deus possa se sentir de novo à vontade em sua obra. Os justos vão restaurar o mundo para que, nele, haja lugar para Deus.

Evidentemente, o Deus de Hans Jonas não precisa enviar seu Filho, já que Ele mesmo está padecendo com o espetáculo que involuntariamente montou ao presenciar um circo de horrores tão pouco afeito à sua natureza. Ao Deus de Hans Jonas, também, repugnam por princípio banhos de sangue, e o assassinato de seu próprio Filho lhe pareceria um sadismo e uma futilidade. Este Deus abomina a luxúria do sofrimento – o que, diga-se de passagem, já é uma heresia e tanto. Pode agonizar, mas estoicamente, sem estardalhaço.

Seu ressurgimento, se houver, será circunspecto e discreto, sem fantasmagorias, penitencias, imolações, sem aquela encenação mórbida e sadomasoquista (a representação do sacrifício) que, na Igreja, acompanha esse cortejo.

Será um resgate, não uma ressurreição. Difícil, lento, porém, quem sabe, mais duradouro. Pois caberá aos justos da Terra provar-Lhe que o bem só enfrentará o mal se cada homenzinho, homúnculo, partícula de humanidade fizer a sua parte.[6] Sem alarde. Com a compostura devida e merecida.

*Marilia Pacheco Fiorillo é professora aposentada da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP). Autora, entre outros livros, de O Deus exilado: breve história de uma heresia (Civilização Brasileira).

Notas


[1] Crossan, J.D. ‘o Jesus Historico”, Imago 1991 e “Four Other Gospels:shadows on the contours of canon, Polebridge Press, 1999.

[2] Patterson, S.J. The Gospel of Thomas and Jesus, Sonoma, Polebridge Press, 1993

[3] Smith, M. Jesus the magician-charlatan or son of God, Berkeley, Seastone, 1998 e Rudolph, K. Gnosis, the Nature and History of Gnosticism, Harper & Row, 1987

[4] Beacon Press, 1963

[5] Grupos de pendor gnóstico

[6] Fiorillo, Marilia, O Deus Exilado, Civilização Brasileira, 2008.

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Rússia e China na guerra no Irã
18 Mar 2026 Por VALERIO ARCARY: No xadrez geopolítico da guerra contra o Irã, Rússia e China movem suas peças com cautela: Moscou não pode, Pequim não quer — e o regime persa descobre, na solidão estratégica, que alianças têm limites quando os interesses das potências apontam em outra direção
2
Em defesa das bibliotecárias e bibliotecários
12 Mar 2026 Por FELIPE SANCHES: As bibliotecas estão atravessadas pela política e, se negarmos seu papel político, fechamos os olhos ao seu papel estratégico no desenvolvimento cultural, educacional, científico e econômico do Brasil
3
No radar geopolítico – EUA x Irã
14 Mar 2026 Por RUBEN BAUER NAVEIRA: O que o Irã pretende é forçar os americanos a pedirem por negociações que não serão por algum "cessar-fogo", mas que envolverão concessões dolorosas, como o fim de todas as sanções e o desmantelamento das bases militares americanas no Oriente Médio
4
Os impactos da guerra no Irã
16 Mar 2026 Por LUIS FELIPE MIGUEL: Ao atacar o Irã sem estratégia, Trump revela o vazio de sua política externa e a submissão a Israel; no Brasil, o impacto imediato é a alta dos combustíveis, que exige do governo Lula coragem para romper de vez com a paridade internacional e proteger a economia popular do choque inflacionário
5
Além de Jürgen Habermas e Richard Rorty
19 Mar 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: Ou nos parecemos com o que a Inteligência artificial e a internet nos fornece, ou não acreditamos na nossa própria realidade! Estamos no mundo, ontologicamente, se estamos na infosfera
6
A “filosofia” do cérebro podre
15 Mar 2026 Por EVERTON FARGONI: Uma crítica radical à colonização algorítmica da consciência, onde a promessa de prazer imediato culmina na falência do pensamento, da autonomia e da vida democrática
7
Hamnet – a vida antes de Hamlet
11 Feb 2026 Por GUILHERME E. MEYER: Comentário sobre o filme de Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
8
Pecadores
16 Mar 2026 Por BRUNO FABRICIO ALCEBINO DA SILVA: Comentário sobre o filme dirigido por Ryan Coogler , premiado com quatro estatuetas no Oscar 2026
9
Fernando Haddad entrevistado por Breno Altman
19 Mar 2026 Por RODRIGO PORTELLA GUIMARÃES: Há uma relação de trabalho muito diversa do operariado dos séculos XIX e XX, que implica um novo projeto de esquerda. Precisamos compreender na prática as novas frações de classe e desafios, provocação central ofertada por Fernando Haddad
10
Jürgen Habermas (1929-2026)
16 Mar 2026 Por MARCO BETTINE: Filósofo da esfera pública e do agir comunicativo, Habermas recusou o pessimismo da primeira geração frankfurtiana para mostrar que a modernidade ainda pode fundamentar racionalmente a crítica social
11
Um país (des)governado
13 Mar 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: A guerra no Irã não é imperialismo, é o espasmo de um país sem projeto, governado por um homem que trocou promessas por bombas
12
A pornô-política
14 Jun 2020 Por RICARDO T. TRINCA: O político obsceno tem prazer pelo domínio, sob a forma de uma prestidigitação, algo que pode ser encontrado também nos mágicos
13
Sonhos de trem
14 Mar 2026 Por VANDERLEI TENÓRIO: Comentário sobre o filme dirigido por Clint Bentley.
14
A honra de Donald Trump e a de Cuba
19 Mar 2026 Por GABRIEL COHN: O desafio atual para o Brasil consiste em não permitir que os EUA se ponham como núcleo e árbitro da nova ordem, como nesse momento tentam fazer em relação aos seus possíveis competidores
15
Por que a música?
15 Mar 2026 Por FRANCIS WOLFF: Trecho da primeira parte do livro recém-editado
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES