Usufruto dos demônios

Imagem: Banski
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Por DANIEL BRAZIL*

Comentário sobre o livro de Whisner Fraga

Desde o advento da literatura beat, de forma mais programática, e até em alguns precursores isolados, a escrita entrelaçada de prosa e poesia aparentando delírios verbais, mas calcada na observação da realidade, delineou uma nova estética literária.

Os epígonos do gênero pecam, de maneira geral, por sucumbirem a uma exploração de sonoridades e significados aparentemente inovadores, com ressonâncias muito mais pessoais que sociais. Exploram, tateiam, amalgamam a linguagem, porém muitas vezes se parecem com bêbados falando com o próprio umbigo. Utilizam imagens espetaculosas, eventualmente até belas, mas de significado obscuro, que não dialogam com o conjunto da escrita ou com o seu tempo-espaço. Pouca pepita para muito cascalho.

Alguns cacoetes são tão recorrentes que chegam a cansar. O uso de & em vez de e, a escrita sem pontuação ou lógica aparente. Raros são os escritores que se apropriam da riqueza que uma escrita libertária permite sem perder de vista o mundo de fato, a dimensão do social, e, principalmente, o leitor. Whisner Fraga é um desses.

Usufruto de demônios é uma coletânea de textos curtos e cortantes do romancista e contista mineiro. Cultor de imagens contundentes e adjetivos inusitados, Fraga faz a gentileza de permitir ao leitor, o tempo todo, estabelecer conexões com a vida real. Escrito sob o impacto da pandemia, mas expandindo sua visão a outros episódios, o livro pode ser lido como uma série de reflexões amadurecidas durante o trágico período.

Mas não se trata apenas disso. Os pequenos textos (poucos ultrapassam uma página) vão lentamente tecendo uma trama de significados e personagens que se delineiam no aparente caos. A interlocutora helena (Whisner Fraga não utiliza letras maiúsculas em sua escrita) surge no início, e retorna em vários momentos. Pode-se até supor que o autor dialoga com um ideal helenístico de civilização enquanto relata as agruras da peste, mas esse simbolismo se esvai nos textos seguintes, quando começa a relatar a relação com a criança, a filha. Whisner Fraga está falando de gente, de pessoas palpáveis.

O autor descreve, de forma muito original, o desmoronamento das instituições, das relações, dos alicerces de um mundo em desequilíbrio. A segurança fictícia, o emprego esgarçado, a frieza das estatísticas, a desumanidade da medicina comercial, a ruína de um Brasil flertando com o fascismo, a inoperância dos movimentos coletivos perante a perversidade do sistema.

Tudo isso emerge através uma escrita extremamente trabalhada, que amplia o universo de significados através de fragmentos onde brilham momentos de intensa carga imagética e dramática.

“Um boi uiva a trégua

É o sexto da fila e ainda mais três horas para o caminhão estacionar: o motorista abrirá o baú, como a mãe, na infância, descerrava as franjas da janela, quando uma recendência azul se movia pelas narinas dos irmãos, desviados como ele, talvez andarilhos como ele, os que restaram, estaria algum ali, naquela vastidão de farrapos sinuosamente enfileirada atrás de si? , não pode averiguar, não vale o risco de perder o lugar, dali a pouco o rugido do diesel estacará a poucos metros, e pode sonhar a janta, o almoço, o homem desliga o motor, desce, vasculha a carga; não será suficiente para todos, mas é preciso começar: um osso pra cada um.”

Whisner Fraga, autor de diversas obras, é também um dedicado divulgador da literatura brasileira contemporânea, mantendo um canal no Youtube (Acontece nos Livros), onde comenta autores novos e também clássicos. Ou seja, um escritor que lê muito, gesto mais civilizado que escrever, como afirmava Jorge Luis Borges. Só isso já o diferencia da multidão de individualistas que escreve para si ou, no máximo, para seu pequeno grupo. E o seu provocativo talento se revela essencial num “tempo de homens partidos” como o Brasil de 2022, território devastado que se tornou usufruto de demônios, e que precisamos recuperar.

*Daniel Brazil é escritor, autor do romance Terno de Reis (Penalux), roteirista e diretor de TV, crítico musical e literário.

Referência


Whisner Fraga. Usufruto dos demônios. Campinas, Ofícios Terrestres, 2022.

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