A lição francesa

Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por ANDRÉ KAYSEL

Não há como derrotar a extrema direita sem a esquerda

No último dia 7 de julho, os franceses foram às urnas para o segundo turno das eleições legislativas antecipadas, convocadas pelo presidente Emmanuel Macron pouco menos de um mês antes. No primeiro turno, ocorrido apenas a uma semana antes (30 de junho), o partido de extrema direita Reunião Nacional (RN) obteve a maior votação (cerca de 33%), seguido pela coalizão de esquerda Nova Frente Popular (NFP) (28%), com a coalizão oficialista de centro “Juntos” amargando a terceira posição (20%).

Dados esses resultados, e com tão pouco tempo para o 2º turno, a maioria das sondagens de opinião e das análises políticas convergiam em apontar que, se provavelmente não conseguiria a maioria absoluta, a agremiação encabeçada por Marine Le Pen, ficaria muito próxima dela, podendo contar com o apoio da lista da direita tradicional, os “Republicanos” que ficaram em quarto lugar, para formar governo e indicar o novo primeiro-ministro, provavelmente o jovem Jordan Bardella.

Para a surpresa de toda(o)s, no último domingo a Nova Frente Popular, conformada pela Liga da França Insubmissa (LFI), de Jean-Luc Mélenchon, pelo Partido Socialista, os Comunistas e Verdes, ficou em primeiro lugar, ainda que longe da maioria absoluta (182 cadeiras), os partidários de Emmanuel Macron tiveram uma significativa recuperação, ficando em segundo lugar (168 acentos) e a extrema direita acabou em terceiro lugar (com 143 lugares), em um total de 577 que compõe a Assembleia Nacional Francesa.

Esse resultado inesperado foi o fruto de um impressionante esforço de coordenação e mobilização eleitoral, pelo qual as candidaturas de esquerda ou de centro com menos chances de ganhar renunciaram em sua maioria às disputas distritais, para que aquelas com mais chances pudessem bloquear a eleição de representantes da Reunião Nacional. Além disso, a eleição foi marcada, em ambos turnos, por uma forte mobilização eleitoral, com cerca de 66% e 67% de participação, respectivamente, as maiores registradas para pleitos legislativos nas últimas quatro décadas.

Agora, se abre o delicado dilema de compor uma coalizão de governo em um parlamento em que nenhum dos três blocos principais possui uma maioria absoluta (289 deputados), envolvendo interlocutores de esquerda e de centro/centro-direita, até à véspera fortemente enfrentados nas disputas que marcaram a política francesa durante a presidência de Emmanuel Macron.

Nesse sentido, salta à vista a linha editorial que tem prevalecido nos meios de comunicação hegemônicos, dentro e fora da França, que procura assinalar como principal obstáculo para a formação de um futuro gabinete “republicano” a LFI e seu líder Mélenchon, estigmatizados como “extremistas”, não raro tratados como quase equivalentes ou mesmo equivalentes à extrema direita da Reunião Nacional e de Marine Le Pen.

Essa linha de argumentação, que poderíamos batizar como de “extremo-centro”, não é nova e vem marcando o debate público francês e europeu nos últimos anos. Segundo os defensores dessa tese, cujo principal representante político é justamente o atual inquilino do Palácio do Eliseu, seria preciso evitar os “dois extremos”, de direita e de esquerda, ambos estigmatizados como “autoritários”, “antidemocráticos”, “ultrapassados”, etc.

Nos últimos meses, marcados internacionalmente pela escalada dos conflitos na Ucrânia e na Palestina, essa balança tem inclusive se inclinado favoravelmente à extrema direita, que vem subindo o tom de seu apoio a Israel, ao passo que a dita “esquerda radical” é estigmatizada como “antissemita”, simplesmente por se solidarizar com a causa da autodeterminação palestina e denunciar o que ocorre na faixa de Gaza como um genocídio.

De maneira mais geral, os adeptos do “extremo-centro” postulam que a única barreira eficaz contra a maré-montante da extrema direita, na França e no mundo, seria a adoção de uma política centrista e moderada, que combinasse medidas econômicas de livre-mercado com a defesa de políticas “multiculturais” de reconhecimento das diferenças, naquela formação discursiva que a teórica política Nancy Fraser vem chamando de “neoliberalismo progressista”.

Nesse quadro de referências, amplamente hegemônico nos grandes meios de comunicação corporativos, além de bastante força nos meios acadêmicos, o papel da esquerda seria, na melhor das hipóteses, o de acólita do “centro”, devendo deixar de lado suas preferências por políticas econômicas intervencionistas e igualitárias, que “assustariam os mercados”, em nome de uma grande convergência em torno da “moderação”. Trocando em miúdos, na “armadilha centrista”, supostamente imposta pelo ascenso irrefreável da extrema direita, a esquerda deveria conformar-se com desaparecer do espectro político, no máximo se encarregando da defesa das políticas de “reconhecimento”.

Ora, o recado que o eleitorado francês acaba de dar nas urnas vai justamente na direção contrária: descontentes com o autoritarismo tecnocrático de Emmanuel Macron, que impôs uma reforma da Previdência francamente impopular, sufragou mais as forças de esquerda do que o centro como antídoto preferencial para bloquear a Reunião Nacional, que, é bom lembrar, ainda assim teve um crescimento importante, consolidando-se como principal força partidária isolada do país.

As razões da preferência pela Nova Frente Popular podem ser encontradas em seu programa, que inclui medidas que incorporam diretamente preocupações bastante concretas de grande parte da população trabalhadora da França, como o aumento do salário mínimo ou o congelamento de alguns preços de gêneros de primeira necessidade, sem falar na revogação da reforma previdenciária. Nesse sentido, as pregações dos formadores de opinião do “extremo-centro” de que esse programa conduziria ao “caos econômico”, como disse durante a campanha o próprio Emmanuel Macron, só tem por efeito aumentar o apoio popular a extrema direita e a estigmatização dos imigrantes como bode expiatório, visto que o eleitorado popular francês rejeita massivamente as medidas de austeridade.

Cabe perguntar, ainda, o que há de tão “radical” ou “extremo” nas posições de Jean-Luc Mélenchon e da LFI: sobretaxar as grandes fortunas? Fortalecimento dos serviços públicos de bem-estar social? Ser contra a OTAN ou favorável à formação de um Estado palestino? Todos esses eixos – justiça distributiva, valorização do público e defesa da autodeterminação dos povos –, foram elementos-chave da maioria, senão de todos, os programas de esquerda, radicais ou moderados, dos últimos cem anos, com diferentes ênfases no Norte e no Sul globais.

Tratá-los como equivalentes de um programa que prega abertamente a deportação em massa de refugiados e a negação de cidadania plena a pessoas não-brancas é um autêntico absurdo para qualquer um que se diga “democrata” ou  mesmo “republicano”. Em outras palavras, se está tratando como equivalentes os herdeiros de Leon Blum e da Frente Popular dos anos 1930 e os do Marechal Petain e do colaboracionismo de Vichy.

Essa lógica dos “dois extremos” soa bastante familiar a ouvidos brasileiros. Afinal, quantas vezes durante o governo de Jair Bolsonaro (2019-2022) se escutaram vozes tratando como “extremas” as lideranças de Lula, cuja moderação e proclividade à conciliação são mais do que proverbiais, e do então presidente de extrema direita?

No ano passado, quando atual Presidente indicou Márcio Pochmann, um economista de esquerda de sólida trajetória acadêmica, para a direção do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), uma série de representantes dos grandes meios de comunicação brasileiros compararam a nomeação à do General Eduardo Pazuelo para o Ministério da Saúde durante o governo anterior, sugerindo que ambos seriam “negacionistas”, seja das “leis” da economia ou da medicina.

Por fim, nas últimas semanas, viu-se como um ataque especulativo à moeda nacional foi atribuído, quase em uníssono pelos comentaristas econômicos e políticos, às supostas declarações “incendiárias” de Lula, que se limitava a defender o gasto social e a criticar o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, por fazer política abertamente com a oposição, posando em público com o atual governador de São Paulo e provável candidato do bolsonarismo em 2026, Tarcísio de Freitas.

Ainda que as tomadas de posição de Lula e do Partido dos Trabalhadores (PT), no contexto brasileiro, sejam muito mais moderadas do que as de Jean-Luc Mélenchon e da LFI, na conjuntura francesa, o recado dos defensores do “extremo-centro” de ambos lados do Atlântico é o mesmo: a condição do compromisso para evitar a ascensão da extrema-direita, chame-se Marine Le Pen ou Jair Bolsonaro, é a completa retirada de qualquer pretensão da esquerda de implementar seu programa próprio, deixando intactos os pilares da austeridade fiscal e da acumulação rentista de capital.

O resultado, como aponta a economista italiana Clara Matei, em sua abordagem das políticas de austeridade na esteira da crise capitalista de 2008, é o de seguir alimentando as fontes do descontentamento popular das quais se nutrem as lideranças e agremiações da extrema direita, estigmatizando como bodes expiatórios, seja os imigrantes no Norte global, sejam grupos raciais ou de gênero subalternizados, no Sul.

Eis aí a grande lição das últimas eleições francesas, que seria muito útil aprender em terras brasileiras: não haverá como derrotar a extrema direita sem aceitar as forças de esquerda e suas plataformas programáticas como interlocutores, tanto na arena política, como no debate público. Temos uma longa tradição da qual nos orgulhar em defesa das maiorias sociais, sem a qual a democracia faz pouco ou nenhum sentido.

Nossos interlocutores liberais, que não precisam concordar conosco, poderiam ao menos, se possuem genuíno interesse em bloquear os herdeiros de Vichy ou da “operação Condor”, nos ouvir e se engajar a sério em um debate franco sobre a complexidade dos problemas agudos da contemporaneidade.

André Kaysel é professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Autor, entre outros livros, de Entre a nação e a revolução (Alameda). [https://amzn.to/4bBbu4P]


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja neste link todos artigos de

10 MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

__________________
  • O filósofo e o comediantefranklin de matos 08/07/2024 Por BENTO PRADO JR.: Prefácio do livro de Franklin de Matos – uma homenagem dos editores do site ao filósofo e professor da USP, falecido ontem
  • A Unicamp na hora da verdadecultura artista palestina 13/07/2024 Por FRANCISCO FOOT HARDMAN: No próximo dia 6 de agosto o Conselho Universitário da Unicamp terá de deliberar se susta as atuais relações com uma das instituições empenhadas no massacre em Gaza
  • A noite em que a Revolução Francesa morreuater 0406 01/07/2024 Por MARTÍN MARTINELLI: Prefácio do livro de Guadi Calvo
  • O Trabalhismo venceu, mas não é um partido de esquerdamaçã mpodre 07/07/2024 Por KEN LOACH: O líder trabalhista Keir Starmer não é um moderado, não é um centrista, mas sim um político de direita, intransigente e orientado para o livre mercado
  • Hospitais federais do Rio de JaneiroPaulo Capel Narvai 11/07/2024 Por PAULO CAPEL NARVAI: A descentralização dos Hospitais federais do Rio não deve ser combatida nem saudada, ela é uma necessidade
  • A lição francesaandré kaysel 10/07/2024 Por ANDRÉ KAYSEL: Não há como derrotar a extrema direita sem a esquerda
  • O balcãohomem caminhando preto e branco 08/07/2024 Por JOÃO CARLOS SALLES: Neoliberalismo na universidade pública
  • Nordeste — um novo cenáriovermelho ddddddddddd 10/07/2024 Por JOSÉ DIRCEU: O Nordeste passará a ser visto como exemplo para o Brasil, da mesma forma que escolas públicas do Ceará são referência em qualidade de ensino
  • A produção ensaística de Ailton Krenakcultura gotas transp 11/07/2024 Por FILIPE DE FREITAS GONÇALVES: Ao radicalizar sua crítica ao capitalismo, Krenak esquece de que o que está levando o mundo a seu fim é o sistema econômico e social em que vivemos e não nossa separação da natureza
  • Episódios stalinistas no Brasilfotos antigas 14/07/2024 Por ANGELA MENDES DE ALMEIDA: Uma história costurada com inverdades, mas que, muito tempo depois, acabaram por sair à luz do dia

PESQUISAR

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES