A geração de 1930

Michelangelo Pistoletto, Vênus dos trapos, instalação, 1967.
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Por JOÃO PEDRO MARQUES*

Ao contrário de uma sociedade onde o espaço público é respeitado e protegido, a sociedade brasileira se organiza em torno de interesses particulares e relações informais, o que dificulta o desenvolvimento de uma ética cívica sólida

A chamada “geração de 1930” representou um marco decisivo na interpretação da história e da formação social do Brasil. Inseridos em um contexto de intensos debates sobre identidade nacional, modernização e construção do Estado, intelectuais como Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado Jr. elaboraram interpretações inovadoras sobre a colonização portuguesa e seus efeitos de longa duração na sociedade brasileira. Ainda que não constituíssem um grupo homogêneo do ponto de vista teórico ou político, esses autores compartilhavam a preocupação em compreender as bases históricas das desigualdades, das formas de sociabilidade e das instituições que moldaram o país.

Essa geração destacou-se por romper com leituras lineares, evolucionistas e eurocêntricas da história nacional, propondo análises que articulavam dimensões culturais, políticas, sociais e econômicas da colonização. Nesse movimento, Freyre privilegiou a análise das relações sociais e culturais, enfatizando a miscigenação como elemento constitutivo da sociedade brasileira; Sérgio Buarque de Holanda voltou-se para o legado ibérico, o personalismo e as dificuldades de consolidação de instituições impessoais; enquanto Caio Prado Jr. ofereceu uma interpretação materialista, centrada no sentido econômico da colonização e na inserção dependente do Brasil no sistema mundial.

Diante da densidade e da diversidade dessas interpretações, o presente trabalho foi organizado em duas partes complementares. Nesta primeira parte, o foco recai sobre as interpretações culturais e político-institucionais da colonização brasileira, a partir das obras de Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda, buscando evidenciar tanto suas convergências quanto suas tensões analíticas. Na segunda parte, será examinada a interpretação de Caio Prado Jr., que desloca o centro da análise para as estruturas econômicas e para a lógica da colonização como empreendimento voltado à exploração e à dependência externa.

Ao proceder dessa forma, busca-se não apenas apresentar as principais teses desses autores, mas também evidenciar como suas leituras, produzidas no interior da geração de 1930, continuam fundamentais para compreender dilemas persistentes da sociedade brasileira, como a relação entre público e privado, a fragilidade institucional e as desigualdades sociais herdadas do período colonial.

Gilberto Freyre: A miscigenação como base da sociedade brasileira.

Gilberto Freyre (1900–1987) foi um sociólogo, antropólogo e historiador brasileiro, amplamente reconhecido como um dos maiores intérpretes da sociedade brasileira. Nascido em Recife, Pernambuco, Freyre estudou no Brasil e nos Estados Unidos, onde foi fortemente influenciado pelo pensamento sociológico. Em 1933, em meio ao governo de Getúlio Vargas, Freyre publicou a sua obra mais famosa, “Casa-Grande & Senzala”, uma análise pioneira da formação da sociedade brasileira, enfatizando a influência das relações entre senhores de engenho e escravizados na construção cultural, social e racial do país.

“Casa-Grande & Senzala” foi escrita em meio a uma forte tentativa de construção da Identidade Nacional Brasileira, valorizando as várias etnias e culturas que contribuíram para a formação do país, e assim, é um dos primeiros estudos que definem o conceito de Democracia Racial, isto pois Freyre via a miscigenação como algo positivo no sentido de encurtar distâncias sociais. Essa valorização, se contextualizarmos com o momento em que a sua obra foi escrita, parte ao encontro do projeto de nação proposto no século XX, com a tentativa de resolver conflitos de classe, gênero e raça. Diz ele:

“A escassez de mulheres brancas criou zonas de confraternização entre vencedores e vencidos, entre senhores e escravos. Sem deixarem de ser relações – as dos brancos com as mulheres de cor – de superiores com inferiores, e no maior número de casos, de senhores desabusados e sádicos com escravas passivas, adoçaram-se, entretanto, com a necessidade experimentada por muitos colonos de constituírem família dentro dessas circunstâncias e sobre essa base. A miscigenação que largamente se praticou aqui corrigiu a distância social que de outro modo se teria conservado enorme entre a casa-grande e a mata tropical; entre a casa-grande e a senzala.” (FREYRE, 2006)

De acordo com o autor, as relações sociais na História de nosso país, tendiam a ser harmônicas, porém, foram abaladas pela indústria do açúcar e pela escassez de mulheres brancas. Sobre isso ele diz:

“No Brasil, as relações entre os brancos e as raças de cor foram desde a primeira metade do século XVI condicionadas, de um lado pelo sistema de produção econômica – a monocultura latifundiária; do outro, pela escassez de mulheres brancas, entre os conquistadores. O açúcar não só abafou as indústrias democráticas de pau-brasil e de peles, como esterilizou a terra, em uma grande extensão em volta aos engenhos de cana, para os esforços de policultura e de pecuárias. E exigiu uma enorme massa de escravos. A criação de gado, com possibilidade de vida democrática, deslocou-se para os sertões.” (FREYRE, 2006)

Ao estudar o contato entre as culturas europeia e ameríndia, Gilberto Freyre afirma que diferente de espanhóis e ingleses, os portugueses tiveram contato com uma cultura rasteira e inferior aos que as outras nações encontraram, sem grandes templos, adoração a deuses e hierarquia, afirmando muitas vezes a inferioridade cultural dos povos indígenas no Brasil. Diz:

“Considerando neste ensaio o choque das duas culturas, a europeia e a ameríndia, do ponto de vista da formação social da família brasileira – em que predominaria a moral europeia e católica – não nos esqueçamos, entretanto, de atentar no que foi para o indígena, e do ponto de vista de sua cultura, o contato com o europeu. Contato dissolvente. Entre as populações nativas da América, dominadas pelo colono ou pelo missionário, a degradação moral foi completa, como sempre acontece ao juntar-se uma cultura, já adiantada, com outra atrasada.” (FREYRE, 2006)

O escravo negro na vida sexual e de família do brasileiro é o conteúdo de Casa-Grande & Senzala que Gilberto Freyre deu mais ênfase, devido aos séculos de comércio de pessoas escravizadas da África ao Brasil e pela grande contribuição cultural que as várias culturas advindas do continente tiveram na formação do país. Na defesa da miscigenação, diz Freyre:

“Quanto à miscibilidade, nenhum povo colonizador, dos modernos, os excedeu ou sequer igualou nesse ponto aos portugueses. Foi misturando-se gostosamente com mulheres de cor logo ao primeiro contato e multiplicando-se em filhos mestiços que uns milhares apenas de machos atrevidos conseguiram firmar-se na posse de terras vastíssimas e competir com povos grandes e numerosos na extensão de domínio colonial e na eficácia de ação colonizadora.” (FREYRE, 2006)

Gilberto Freyre rebate a tese de que a cultura dos africanos era inferior à das sociedades indígenas, e vai além, defende que na verdade eram superiores até mesmo do que os portugueses. Por isso, tece as suas críticas aos conceitos adotados pelo Darwinismo Social e pela Eugenia, muito utilizadas em fins do século XIX e início do século XX:

“Escrever ‘nem pelos artefatos, nem pela cultura dos vegetais, nem pela domesticação das espécies zoológicas, nem pela constituição da família ou das tribos, nem pelos conhecimentos astronômicos, nem pela criação da linguagem e das lendas, eram os pretos superiores aos nossos silvícolas’, é produzir uma afirmativa que virada pelo avesso é que dá certo. Por todos esses traços de culturas material e concorrer melhor que os índios à formação econômica e social do Brasil, às vezes melhor que os portugueses.

Pode-se juntar, a essa superioridade técnica e de cultura dos negros, sua predisposição como que biológica e psíquica para a vida nos trópicos. Sua maior fertilidade nas regiões quentes. Seu gosto de sol. Sua energia sempre fresca e nova quando em contato com a floresta tropical.” (FREYRE, 2006)

Apesar de sua visão inovadora, Freyre foi criticado por romantizar as relações coloniais, muitas vezes negligenciando a violência e a opressão que caracterizaram o sistema escravocrata e a miscigenação. Ainda assim, sua abordagem antropológica foi fundamental para reposicionar o papel das culturas africana e indígena na construção da identidade nacional.

Sérgio Buarque de Holanda: A colonização e o legado do Iberismo e personalismo.

Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), foi um dos maiores sociólogos e historiadores do Brasil, sendo professor de diversas universidades no Brasil, como a antiga Universidade do Distrito Federal e também universidades internacionais, como a universidade de Roma.

Em 1929, na Alemanha, Holanda conheceu a obra do sociólogo Max Weber, e através do método denominado “Tipo Ideal” ou “Tipo Puro”, desenvolveu o seu principal trabalho, “Raízes do Brasil” (1936), um marco nos estudos sobre a formação social e cultural brasileira, cujo objetivo é entender a formação da identidade brasileira a partir de suas raízes ibéricas, analisando como essas influências moldaram a cultura, a política e a sociedade do Brasil contemporâneo.

Em Raízes do Brasil, Sérgio Buarque introduziu o conceito do “homem cordial”, caracterizando uma forma de comportamento social brasileira baseada em relações pessoais e afetivas, em contraste com estruturas burocráticas e impessoais típicas do mundo moderno. A cordialidade é entendida aqui como uma forma de sociabilidade que abrange tanto a amizade quanto a inimizade, sendo uma expressão das relações interpessoais que se baseiam em laços emocionais e familiares. Segundo o autor:

“A vida em sociedade, entre nós, nunca foi organizada em bases exclusivamente impessoais, mas sempre temperada pela influência do sangue, do parentesco, da amizade, das simpatias e antipatias espontâneas.” (HOLANDA, 1997)

Buarque destaca que essa cordialidade é “estranha a todo formalismo e convencionalismo social”, o que significa que as interações são mais informais e pessoais, mas também podem ser ambivalentes, pois a inimizade pode ser tão cordial quanto a amizade. Essa cordialidade é vista como uma herança ibérica que influencia a cultura e a política do país. Nas palavras do autor:

“A contribuição brasileira para a civilização será de cordialidade – daremos ao mundo o ‘homem cordial’. O termo não significa apenas um homem gentil, ordeiro e pacífico; representa, antes, o predomínio, na nossa sociedade, dos valores da esfera privada sobre os da esfera pública.” (HOLANDA, 1997)

Nesse sentido, a cordialidade é vista como uma herança da cultura ibérica, que se manifestou na sociedade brasileira desde a colonização. Essa característica é associada a um estilo de vida que valoriza a espontaneidade e a intimidade nas relações, mas que também pode levar a uma falta de organização e hierarquia, refletindo as limitações do iberismo. Sobre isso diz:

“O patrimonialismo, herança da tradição ibérica, fez com que os interesses particulares dominassem o espaço público, criando dificuldades para a construção de uma sociedade verdadeiramente democrática.” (HOLANDA, 1997)

A interpretação da cordialidade também revela uma ambiguidade, pois, embora seja uma característica que pode facilitar relações sociais, ela também pode contribuir para a superficialidade das interações e a manutenção de estruturas de poder que não promovem a verdadeira democratização. Buarque sugere que essa cordialidade, ao mesmo tempo que é uma qualidade do brasileiro, pode ser um obstáculo para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária. De acordo com o autor:

“No Brasil, as relações de compadrio e favoritismo foram transpostas para as esferas administrativa e política, reforçando o caráter patrimonialista das instituições e dificultando a separação entre o público e o privado.” (HOLANDA, 1997)

Holanda argumenta que a colonização portuguesa, em especial, se distingue da colonização de outras partes da América, como a América do Norte, por seu caráter menos metódico e mais adaptativo. Para ele, enquanto a colonização inglesa na América do Norte era marcada por uma forte disciplina e planejamento institucional, a colonização portuguesa no Brasil era movida por uma tendência ao improviso, à flexibilidade, e a uma grande capacidade de adaptação às circunstâncias locais, mas sem criar instituições robustas. A respeito disso diz:

“O colonizador português, diferentemente de outros povos europeus, revelou uma extraordinária capacidade de adaptação às condições do novo mundo, mas sem um planejamento rígido ou o estabelecimento de instituições sólidas.” (HOLANDA, 1997)

E acrescenta que:

“A empresa colonizadora portuguesa, a despeito de seu dinamismo, não seguiu uma orientação metódica e bem planejada, mas antes se valeu do improviso e da adaptação às circunstâncias.” (HOLANDA, 1997)

Esse “iberismo” — termo que usa para descrever a influência dos valores culturais da Península Ibérica — se reflete, segundo Holanda, na maneira como a vida social brasileira desenvolveu uma aversão às formalidades e à burocracia, em contraste com sociedades que herdaram a tradição anglo-saxã de maior rigidez institucional. Para o autor:

“A cultura ibérica contribuiu para o estabelecimento de uma sociedade onde as normas formais são frequentemente secundárias em relação às relações pessoais e de parentesco.” (HOLANDA, 1997)

Essa herança ibérica, na visão de Holanda, gerou uma sociedade brasileira onde as fronteiras entre o público e o privado são confusas, levando ao fortalecimento do personalismo e à dificuldade de institucionalização de normas estáveis e eficazes. Ao contrário de uma sociedade onde o espaço público é respeitado e protegido, a sociedade brasileira se organiza em torno de interesses particulares e relações informais, o que dificulta o desenvolvimento de uma ética cívica sólida. Sobre isso diz Holanda:

“O patrimonialismo representa um obstáculo à criação de instituições impessoais e universais, pois a gestão do público frequentemente se confunde com interesses privados.” (HOLANDA, 1997)

E complementa dizendo:

“Nosso horror às normas e regulamentos tem origem na forma como nos acostumamos a resolver os problemas cotidianos pelo recurso direto às pessoas, e não às instituições.” (HOLANDA, 1997)

Assim, o iberismo, embora tenha facilitado a colonização, também representa um obstáculo à modernização do Brasil. Ele associa essa tradição ibérica a características como o patrimonialismo, a cordialidade política e o familismo, que dificultam a racionalização e a impessoalidade nas instituições, elementos considerados essenciais para o desenvolvimento moderno. Diz ele o seguinte a respeito disso:

“O estilo de colonização português, com sua flexibilidade e ausência de rigidez institucional, favoreceu a formação de uma sociedade avessa à disciplina necessária para a modernidade.” (HOLANDA, 1997)

Em síntese, a análise de Sérgio Buarque de Holanda sobre o legado do iberismo no Brasil, apresentada em Raízes do Brasil, demonstra como os valores e práticas culturais herdados da colonização portuguesa moldaram significativamente a identidade e a organização social do país.

O conceito de “homem cordial” encapsula a ambivalência dessa herança, enquanto promove uma sociabilidade baseada em laços afetivos, também dificulta a consolidação de instituições impessoais e democráticas. A informalidade e o personalismo, frutos do iberismo, explicam não apenas a fragilidade das estruturas públicas, mas também os desafios de construção de uma cidadania plena e de uma ética cívica robusta no Brasil contemporâneo.

Assim, as interpretações de Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda, embora distintas em seus pressupostos teóricos e em seus objetos privilegiados, dialogam de maneira profunda ao buscarem compreender os fundamentos históricos da sociedade brasileira a partir da experiência colonial. Ambos reconhecem que a colonização portuguesa deixou marcas duradouras nas formas de sociabilidade, nas relações de poder e na organização da vida social, ainda que atribuam sentidos diferentes a esse legado.

Freyre enfatiza a dimensão cultural da colonização, destacando a miscigenação e as relações domésticas como elementos centrais na formação da sociedade brasileira. Sua análise valoriza a plasticidade cultural do colonizador português e a incorporação de elementos africanos e indígenas, propondo uma interpretação que ressalta continuidades, acomodações e formas específicas de convivência social. No entanto, essa ênfase na harmonia relativa das relações sociais acabou por gerar críticas, sobretudo pela tendência a atenuar a violência estrutural da escravidão e das hierarquias raciais que marcaram o período colonial.

Sérgio Buarque de Holanda, por sua vez, desloca o foco da análise para o plano político-institucional, examinando como o legado ibérico contribuiu para a formação de uma sociabilidade marcada pelo personalismo, pelo patrimonialismo e pela dificuldade de separação entre as esferas pública e privada. O conceito de “homem cordial” sintetiza essa ambiguidade, pois ao mesmo tempo em que expressa uma forma específica de sociabilidade baseada em vínculos afetivos, cria os obstáculos à construção de instituições impessoais, burocráticas e democráticas.

Nesse sentido, enquanto Freyre tende a interpretar a colonização a partir de suas possibilidades integradoras e culturais, Sérgio Buarque evidencia seus limites estruturais para a consolidação da modernidade política no Brasil. A comparação entre ambos demonstra não tão somente diferenças de abordagem, mas também a riqueza analítica da geração de 1930, que, ao articular cultura, política e história, ofereceu interpretações decisivas para compreender as bases da sociedade brasileira.

Essa leitura conjunta permite perceber que as heranças coloniais não se manifestam apenas no plano econômico, mas também nas formas de sociabilidade e nas instituições políticas. É justamente esse deslocamento do debate — da cultura e da política para a economia — que será aprofundado na segunda parte deste trabalho, por meio da análise da interpretação materialista de Caio Prado Jr. sobre o sentido da colonização brasileira.

*João Pedro Marques é graduando em Ciências Sociais na UFRJ.

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