A liberdade pós-moderna e bolsonarista

Imagem: Cottonbro
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por LUIZ MARQUES*

A liberdade incrustada na visão pós-moderna absolutizou os direitos da liberdade individual, produzindo muito da violência banalizada que perpassa o fetichismo da mercadoria nas sociedades de consumo periféricas

Desde Thomas Hobbes, o filósofo político que escreveu Leviatã (1651), sabe-se que a modernidade optou por limitar a liberdade em nome da segurança para escapar ao “estado de natureza”, sem lei nem moral, e adentrar o “estado social” com rígidas e coercitivas regras de sociabilidade. Mais ordem social significou mais dessossego, observou Freud no ensaio O mal-estar na civilização (1930). A sociedade era então orientada pelo “princípio da realidade”, aponta Zygmunt Bauman em O mal-estar da pós-modernidade (1997), à diferença do período subsequente em que o “princípio do prazer” assumiu a preeminência no juízo da história. Um giro civilizacional de 180°.

Para o sociólogo polonês da universidade de Leeds, no Reino Unido: “A compulsão e a renúncia forçada (antes), em vez de exasperante necessidade, converteram-se na injustificada investida desfechada contra a liberdade individual (depois)… Nossa hora é a da desregulamentação” – palavra mágica para a mercantilização de tudo e “todes”. O conceito de desregulamentação econômica migrou para múltiplas dimensões do social e alcançou a relação dos indivíduos com as normas do Estado, agora à mercê da aceitação de cada individualidade. É a partir dos valores da liberdade individual, sobre o assoalho do laissez-faire manchesteriano, que a presunção do direito irrestrito ao prazer impulsiona as condutas de confronto com as balizas convencionais (as leis e a moral) que constroem os paradigmas de coletividade. Sem a âncora neoliberal, a pós-modernidade seria uma aborrecida metafísica à deriva em tempos sombrios.

Os pensadores pós-modernos criaram a moldura teórica faltante ao neoliberalismo, que reduzía-se aos dez mandamentos do Consenso de Washington. Transportaram o receituário do deus-mercado de Hayek e Mises, de início focado na economia e a seguir transformado na hegemônica “nova razão do mundo”, em uma teoria apta para abranger o trâmite neoliberalizante no contexto de uma Weltanschauug. Assim, uma fluidez líquida envolveu a utopia com o véu espesso da triste desesperança no futuro.

“O reclamo de prazer, outrora desacreditado e condenado como autodestrutivo”, substituiu o ascetismo (a primazia da poupança) da ética protestante nas origens do capitalismo, conforme o estudo clássico de Max Weber. O hedonismo (o investimento para satisfação pessoal) tomou o lugar da sobriedade de costumes. O corpo virou uma mercadoria de consumo, com prazo de validade. O espírito virou uma máquina de calcular a quantidade de gozo, junto ao objeto que identifica o bem, com o prazer dos sentidos e, o mal, com a dor. A busca hedonista seria o imperativo categórico hoje.

A famosa “mão invisível” do mercado achou uma curiosa ocupação, passados dois séculos: acenar para a rejeição de mediações institucionais para explorar os excessos. “A liberdade individual tornou-se o maior dos predicados na autocriação do universo humano. Os homens e as mulheres pós-modernos trocaram um quinhão de segurança por um quinhão de felicidade”, em síntese. Os critérios empresariais de desempenho e de rendimento assumiram a função de bússola para o usufruto imediatista da vida, em meio aos mares revoltos de óbitos, ódios disseminados e cancelamentos sumários.

A noção de liberdade incrustada na visão pós-moderna absolutizou os direitos da liberdade individual, até para a divulgação de fake news. “Espero que nenhum poder (alusão explícita ao Tribunal Superior Eleitoral / TSE) regulamente a Internet. A nossa liberdade acima de tudo”, esbraveja o miliciano entre as emas de Brasília, no afã de fazer do Instagram a terra de Marlboro. “A marca dessa administração é a mentira”, ironiza o líder das pesquisas de intenção de voto. Pudera. O You Tube puniu 233 vídeos mentirosos em 2021, sendo 34 só de Bolsonaro. Imagine-se a campanha.

A narrativa negacionista, que agrava a letalidade da Covid-19, tem suporte no axioma das subjetividades orgulhosas de si. O pressuposto: a inviolabilidade do corpo sem consentimento prévio. Argumento utilizado contra a obrigatoriedade da vacinação pelo liberal Ruy Barbosa, que esgrimiu o grave perigo de moléstias que adviriam da vacina (virar “jacaré” ou “comunista”, de acordo com o genocida no Planalto Central) para desautorizar o médico sanitarista Oswaldo Cruz. Na doença pandêmica, ficou evidente o erro da concepção charlatanesca que abstraiu a salvaguarda dos direitos de terceiros e que menosprezou os protocolos recomendados pela OMS e a Fiocruz.

Para surpresa geral, cem anos de ciência adiante, profissionais das áreas biológicas ecoam a irresponsável asneira morticida, ocultando a motivação subterrânea para um anticientificismo duro. “A defesa da ideia abstrata e descontextualizada de liberdade não passa de retórica de Bolsonaro e seguidores. Não faltam docentes que, a pretexto das liberdades individuais, subordinam os conhecimentos científicos à ideologia neofascista e fazem pose de libertários”, denuncia Paulo Capel Narvai, indignado, em um oportuno artigo intitulado A Necroliberdade Bolsonarista publicado no site A Terra é Redonda.

O mote para o texto do professor de saúde pública foi a nota de desligamento da coordenadora do curso de graduação em Medicina da UnB, que se insurgiu contra a exigência da reitoria de um passaporte vacinal para circulação nas dependências da instituição. Tergiversação à parte, a decisão contrariou suas convicções ideológicas (o senso vulgar desgasta o termo, equiparando-o a uma idiossincrasia). Há fotos da douta nas redes sociais em manifestações de extrema-direita, com camiseta da CBF e pintura verde-amarela facial. Pena, porque “a ignorância nunca ajudou a quem quer que fosse”, para evocar a sentença de Karl Marx, pinçada da epígrafe de José Paulo Netto na biografia que dedicou-lhe. Nossa bandeira jamais será vermelha. Taoquei?

O episódio ilustra o fato de que a liberdade pós-moderna (neoliberal) deságua na liberdade bolsonarista (neofascista). O próprio Bauman, ao encerrar o best-seller mencionado, admite: “A sociedade liberal oferece com uma das mãos (a promessa incondicional de liberdade) o que retira com a outra (a liberdade individual, para ir e vir – sem máscara)”. Afinal, “o dever da liberdade sem os recursos que permitem uma escolha verdadeiramente livre é, para muitos (leia-se 99% da população), uma receita sem dignidade, preenchida, em vez disso, com a humilhação e a autodepreciação”. O destaque à liberdade, no caso, não enfrenta as iniquidades provocadas pela dinâmica de acumulação capitalista por receio das doutrinas igualitaristas. O medo paralisa.

Bauman ouve o galo cantar. Não atina sobre o que fazer ou desfazer. Reconhece “os comunitários, que se afligem com a falta de possibilidade de escolher na sociedade em que ser um indivíduo é equivalente a ser um livre selecionador, mas em que a liberdade de escolha prática é um privilégio”. A encruzilhada dramática “exigirá fazer algo para retificar a atual distribuição de recursos”. Não obstante, adverte: “Na engenharia social, o remédio proposto quiçá torne a enfermidade ainda mais grave… O comunitarismo (projeto calcado no ideal do bem comum) não é um remédio para as falhas inerentes do liberalismo” Trauma típico de quem viu de perto o stalinismo.

Esse é o desconforto causado pela leitura de obras sob égide intelectual da pós-modernidade. Descrevem a cultura neoliberal com vívido derrotismo, como se não houvesse saída possível para a dominação do “pensamento único”. Sem querer, reiteram a tese de Margaret Thatcher: There is no alternative (Não existe alternativa).

“Na política pós-moderna, a liberdade individual é o valor supremo e o padrão pelo qual todos os outros méritos e vícios da sociedade como um todo são medidos”, arremata le vieux penseur. Este dogma culturalista tem contribuído para a expansão do neofascismo. O hiperindividualismo narcísico, mais do que o elo do sentimento de “comunidade nacional”, embala o movimento bolsonarista que flerta com símbolos que remontam à Segunda Guerra, por força do hábito, e não pelos condicionamentos ativos no presente. Entende-se que recorra à liberdade individual – o álibi eleito para a perversidade – para legitimar os inúmeros crimes em série do brutal negacionismo.

A participação numa mobilização cidadã de desagravo acerca da violência racista e xenófoba que assassinou o jovem congolês Moïse Kabamgabe, de forma covarde, possui maior potencial de conscientização política que os insights arrolados pelo pós-modernismo sobre a marcha da cotidianidade no capitalismo. O psicanalista Tales Ab’Sáber, ao se debruçar sobre a questão da “ordem e violência”, chama a atenção para o emblemático lema da bandeira, onde “o peso autoritário e fantasmagórico da noção de ordem” antecede “o progresso, seja lá o que se conceba por tal, democracia ou integração social”. O desgoverno vigente anda com as muletas do ordenamento neofascista e neoliberal, como Bolsonaro e Moro, forjado na sujeição à potência estadunidense e na carência total de empatia com o sofrimento do povo brasileiro.

Tales Ab’Sáber desnuda a peculiaridade da Terra brasilis: “É provável que no Brasil tenha se constituído um verdadeiro campo político e psíquico, de uma ação pela ordem que não corresponda aos direitos universais, relativos à história do processo normativo e político ocidental”. Estaríamos aquém das leis e da moral, ao estilo das milícias que de arma em punho nos empurram de volta para o estado de natureza hobbesiano.

O tema da violência banalizada perpassa o fetichismo da mercadoria nas sociedades de consumo periféricas que são, igualmente, espaços dos sem-terra, sem-teto, dos que têm fome, dos precarizados, dos que desistiram de procurar um emprego formal e nem entram nas estatísticas de exclusão, de tão excluídos do sistema produtivo que estão. No entanto, a resiliência mantém a brasa sob as cinzas. Como nos versos do poeta negro Solano Trindade, estátua em Recife/PE: “Meus avós foram escravos / Olorum Ekê / Eu ainda escravo sou / Olorum Ekê / Os meus filhos não serão”.

Já apontado por Nelson Rodrigues, o “complexo de vira-lata” atávico perpetua a servidão. Atavismo que emerge na tecla de cronistas para revelar-se, em ato falho do jornalismo forjado por preconceitos, inclusive nas oportunidades em que pretendem levantar a autoestima do “povo de pequeno cérebro e grande coração” (sic, sic). Estereótipo herdado das elites do atraso sem responsabilidade republicana. Quem foi protagonista na formatação do antipetismo e acusou, pejorativamente, de “populistas” as políticas sociais, assistenciais e afirmativas nos governos progressistas (2003-2016), incensando os falsos heróis do entreguismo a soldo, não compreende a delícia e o orgulho do pertencimento à nação brasileira. A pertença é o nascedouro do que Lucien Goldmann denomina de “reformismo revolucionário” – o elã da vontade política, o barro da identidade de classe, a coragem para reinventar a sociedade.

A propósito, ver a esquete que circula na internet em que, sobre um pano de fundo amarelo, se lê em letras verdes: Desarme-se. A peça é alto-astral: “Desarme-se e vem com Lula refazer aquele país em que a gente sabe como ser feliz”. Sem orgulho, não é possível lutar e vencer, ensinaram as revoluções (China, Cuba, Vietnã, Nicarágua), mas também movimentos sociais contemporâneos a exemplo do MST e do MTST. É tempo de conversar com os arrependidos de boa-fé e ajudá-los a encontrar o rumo.

*Luiz Marques é professor de ciência política na UFRGS. Foi secretário estadual de cultura do Rio Grande do Sul no governo Olívio Dutra.

 

Veja neste link todos artigos de

10 MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

__________________
  • Franz Kafka, espírito libertárioFranz Kafka, espírito libertário 13/06/2024 Por MICHAEL LÖWY: Notas por ocasião do centenário da morte do escritor tcheco
  • A sociedade da história mortasala de aula parecida com a da história usp 16/06/2024 Por ANTONIO SIMPLICIO DE ALMEIDA NETO: A disciplina de história foi inserida numa área genérica chamada de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas e, por fim, desapareceu no ralo curricular
  • Sobre a ignorância artificialEugenio Bucci 15/06/2024 Por EUGÊNIO BUCCI: Hoje, a ignorância não é uma casa inabitada, desprovida de ideias, mas uma edificação repleta de baboseiras desarticuladas, uma gosma de densidade pesada que ocupa todos os espaços
  • Um olhar sobre a greve das federais de 2024lula haddad 20/06/2024 Por IAEL DE SOUZA: Com alguns meses de governo, comprovou-se o estelionato eleitoral de Lula, acompanhado do seu “fiel escudeiro”, o Ministro da Fazenda, Fernando Haddad
  • Carta ao presidenteLula 59mk,g 18/06/2024 Por FRANCISCO ALVES, JOÃO DOS REIS SILVA JÚNIOR & VALDEMAR SGUISSARDI: “Concordamos plenamente com V. Exa. quando afirma e reafirma que ‘Educação é investimento, não é gasto’”
  • Retomar o caminho da esperançafim de tarde 21/06/2024 Por JUAREZ GUIMARÃES & MARILANE TEIXEIRA: Cinco iniciativas que podem permitir às esquerdas e centro-esquerdas brasileiras retomarem o diálogo com a esperança majoritária dos brasileiros
  • Chico Buarque, 80 anoschico 19/06/2024 Por ROGÉRIO RUFINO DE OLIVEIRA: A luta de classes, universal, particulariza-se no requinte da intenção construtiva, na tônica de proparoxítonas proletárias
  • Por que estamos em greve?estátua 50g 20/06/2024 Por SERGIO STOCO: Chegamos a uma situação de penúria das instituições de ensino federal
  • Manual teológico do neopentecostalismo neoliberaljesus salva 22/06/2024 Por LEONARDO SACRAMENTO: A teologia transformou-se em coaching ou fomentador da disputa entre trabalhadores no mundo do trabalho
  • Oportunismo, doença infantil do esquerdismocadeira 5 18/06/2024 Por HERLON MIGUEL: Considerações sobre a greve na Universidade Federal da Bahia

AUTORES

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES