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Imagem: Efrem Efre
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Por JEAN MARC VON DER WEID*

Não temos muito tempo para acertar a estratégia de ação para as próximas quatro semanas e o relógio está clicando

A ressaca foi grande, mas precisamos botar a cabeça no lugar. Para começar precisamos entender o que se passou no primeiro turno. O jogo parecia jogado e estaríamos ganhando de goleada. As pesquisas erraram? Ouvi ou li análises de responsáveis por várias das pesquisas e a minha conclusão de leigo é que havia duas premissas que se revelaram incorretas.

A primeira é que os indecisos, que apareciam em várias pesquisas situados entre 11 e 13% do eleitorado, se repartiam mais ou menos em partes iguais entre os candidatos e o não voto (brancos e nulos). Como o número real destes últimos ficou idêntico ao indicado pelas pesquisas, mais ou menos 5%, os indecisos (na declaração espontânea) devem ter migrado prioritariamente para Jair Bolsonaro. Seria o voto enrustido, que muitos analistas achavam que seria mais lulista que bolsonarista.

A segunda premissa incorreta é que havia uma maré de vira-voto a favor do Lula nos últimos dias, demonstrada pelo vigor das manifestações que se multiplicaram país afora, com ou sem a presença do candidato. É um erro comum da esquerda achar que gente em manifestação é um indicativo de voto. Muita gente, eu inclusive, apontou para a baixa significação das carreatas e motociatas de Jair Bolsonaro, do ponto de vista do número de eleitores. É fato, mas não quer dizer nada em relação à intenção de voto da maioria. Ou seja, Jair Bolsonaro levou a maioria ampla dos indecisos e saiu de 35 a 38% (entre o menor e o maior índice nas pesquisas) para os 43,5 que obteve nas urnas. Ou seja, os indecisos entregaram entre 8 e 5% dos votos para o energúmeno. Também levou a metade dos votos de Ciro Gomes e Simone Tebet, uns 5%, que desidrataram como gelo ao sol com o voto útil de direita.

Há outro engano trágico que não vi mencionado por ninguém. A abstenção não foi significativamente maior do que em outras eleições, apenas 1% a mais do que em 2018. O problema é que a abstenção provoca uma distorção em relação às pesquisas. Nestas, o entrevistador procura o eleitor e na hora do voto quem se desloca é o eleitor. Como todo mundo sabe, a base mais forte do eleitorado lulista capturado nas pesquisas estava entre os eleitores mais pobres, que justamente são os que compõe a grande massa dos que se abstém.

Na verdade, do ponto de vista da votação no Lula e levando-se em conta todos os limitantes da participação de seus apoiadores, os resultados de Lula indicam uma vitória e bastante significativa. Ele ficou a menos de 1,5% de ganhar no primeiro turno, o que só conseguiu nas eleições de 2006, quando estava no governo e muito bem avaliado, apesar do escândalo do mensalão. Com uma campanha tão suja e com o extraordinário abuso de poder do executivo a vitória foi ainda mais significativa.

É bom lembrar que, ao contrário de 2018, quando o impacto das redes sociais foi avassalador na derrota de Fernando Haddad, nestas eleições, sobretudo nas últimas semanas, o bolsonarismo perdeu a hegemonia na troca de mensagens, isolando-se na sua bolha. Lula teve a adesão de alguns grandes influenciadores digitais, como André Janones e Anita, e deveria seguir buscando outros mais.

O que foi, decididamente uma derrota capital foi a votação para o Senado e para a Câmara. Capital, mas previsível e prevista. Os números, pelo menos, foram previstos pelo DIAP.

No caso dos governadores, os resultados foram ruins, mas até melhores do que previsto. Tirando o caso de São Paulo, onde se achava, com muito otimismo, que Fernando Haddad manteria a vantagem indicada pelas pesquisas, no resto do país os resultados foram os previstos e até com bons avanços, no Ceará, Bahia, Maranhão, Piauí. Ninguém com algum conhecimento do eleitorado do Rio de Janeiro jamais achou que Marcelo Freixo teria alguma chance contra a máquina do governo do Estado. Ou que Alexandre Kallil sairia de Belo Horizonte para conquistar o estado das mãos de Romeu Zema. Ainda sobre São Paulo, a explicação da subida de Tarcísio de Freitas tem mais a ver com o voto útil antipetista, oriundo do eleitorado tucano do interior do que com erros das pesquisas. E a subida de Onix Lorenzoni no Rio Grande do Sul tem a mesma explicação.

Para o Senado e a Câmara o resultado, em termos de votos para a direita, também não diverge das previsões feitas pelo DIAP. O que foi chocante foi o voto nos personagens muito identificados com os desastres do governo Bolsonaro, como Hamilton Mourão, Eduardo Pazzuelo, Damares, Ricardo Salles, Marcos Pontes e outros. Funcionaram com muita força as indicações do chefe para o seu eleitorado. A grande novidade nesta nova Câmara e Senado é a eleição destes ferozes seguidores do “mito”. Quem perde espaço relativo é o Centrão. Para quem achava que o voto em Lula significaria um voto igual em candidatos lulistas para o parlamento o choque das urnas foi grande. Mas levando-se em consideração a enxurrada de dinheiro que deputados e senadores derramaram em seus redutos através das emendas de relator o resultado não foi nada ruim. De qualquer forma, uma vez Lula eleito, governar vai ser muito difícil. Mas, como dizia a minha sábia bisavó, “cada dia com a sua agonia”.

Outra constatação importante destas eleições não tem a ver com os números frios das urnas, mas com a natureza destes números. Todo mundo ficou chocado com o fato de que um governante tão mal avaliado conseguir se manter no ringue e evitar o nocaute, neste round. Como é possível que o responsável por quase 700 mil mortos por Covid, por 33 milhões de famintos, por índices altos de desemprego e altíssimos de subemprego, por uma queda generalizada de renda, exceto para os mais ricos, pela imensa destruição ambiental, possa ter tanta resiliência? Como é possível que um candidato que se elegeu combatendo a corrupção possa sobreviver aos contínuos escândalos de seu governo e de sua família?

Ao que parece, o voto ideológico foi absolutamente decisivo, e não só entre os neopentecostais. Uma ideologia carola, impregnada de preconceitos, decidida a impor seu modo de ver o mundo a todos os outros, veio para ficar e definir o comportamento eleitoral de uma grande parte do nosso povo. Jair Bolsonaro voltou-se para o discurso mais atrasado e ideológico sobretudo a partir do momento que a sua campanha empacou depois do 7 de setembro. Bem contra o mal, esquerda identificada com o anticristo, anticomunismo primário do tipo “a esquerda vai tomar a sua casa ou o seu carro”, Lula é pelo aborto, Lula é pela sexualização da infância, o comunismo domina as Universidades, tudo isso e muito mais foi o eixo da sua campanha e o nosso despolitizado eleitorado comprou estas “verdades” e votou para se proteger da onda vermelha.

Finalmente, é preciso constatar que a esquerda perdeu poder de mobilização e penetração nas massas. Nossos partidos tornaram-se partidos parlamentares e o eixo da política passou para a Câmara e o Senado. Deixaram as fábricas, locais de trabalho, comunidades sem a presença de uma militância do dia a dia. Quem faz este tipo de ação são as igrejas pentecostais, já que a católica também perdeu muita presença entre os fiéis. As igrejas pentecostais oferecem a um público desfavorecido um espaço de acolhida que ele não encontra em outro tipo de entidade, como os sindicatos ou associações de moradores.

As igrejas oferecem apoio moral e material, solidariedade entre os fiéis, espaço de convívio, de lazer e de cultura. Em troca, este público se submete voluntária e alegremente ao domínio ideológico dos pastores. Nem todos os pastores são os manipuladores desavergonhados como os Malafaias e Macedos, que vem entrando de cabeça no jogo político há anos, mas a grande maioria é essencialmente (ultra) conservadora e, em grande parte, francamente sectária e agressivamente intransigente. Nesta eleição houve um forte movimento de pastores, sobretudo das igrejas mais engajadas na esfera política, como a Universal do Reino de Deus, mobilizando obreiros e obreiras para visitar cada uma das ovelhas do rebanho para levar panfletos e transmitir as orientações vindas de cima. Isto além das pregações intensas durante os cultos semanais.

Com isso, a base bolsonarista entre os evangélicos foi ainda mais numerosa do que em 2018. Lembremos que Jair Bolsonaro ganhou naquele pleito com uma diferença de votos da ordem de 10 milhões em relação a Fernando Haddad e que esta foi exatamente a diferença de votos dos dois candidatos entre os evangélicos. Quando saírem as pesquisas e estudos sobre este primeiro turno não tenho dúvida que este número será bem maior.

A esquerda que milita na base mudou de perfil e hoje está envolvida muito mais nos movimentos identitários e isto se refletiu em alguns resultados inéditos e importantes no primeiro turno. Mas e o resto dos temas do quotidiano do povo? Quem está nas bases mobilizando contra a fome e a carestia?

O futuro vai ser muito difícil para todos nós, mas ele será infinitamente pior e não só para nós brasileiros, se Jair Bolsonaro levar o segundo turno. Pode-se dizer, sem exagero, que o destino do planeta está se jogando aqui e agora. Pode ser que o desmatamento zero, que defendo como programa de urgência para o governo Lula, não seja suficiente para deter o aquecimento global. Mas, se Bolsonaro continuar com a devastação que promoveu no seu primeiro governo, não haverá medida tomada em outro lugar que compense o volume das nossas emissões de gases de efeito estufa. Com a gravidade do que está em jogo na mente, vamos usar o que aprendemos neste primeiro turno e partir para enfrentar o segundo com força redobrada.

Muita coisa vai depender da estratégia de Lula para ganhar os votos que precisa para se eleger. A rigor só precisamos de 1,5%, mas seria muito bom abrir uma boa vantagem para impedir a volta do fantasma do golpe. O movimento em direção ao centro e à direita feito por Lula no primeiro turno não teve maiores efeitos e vai precisar ser muito concretizado se quisermos atrair as bases de Simone Tebet e, ao menos parcialmente, de Ciro Gomes.

Lula terá que conclamar a criação de uma frente democrática de salvação nacional, atraindo o MDB, o PDT, o PSDB, o Cidadania e até o PDS. Não tenho dúvidas de que a esquerda, em particular o PT, vai dar pulos de horror com esta ideia de uma frente tão ampla, mas ela vai ser necessária para bater o “mito” e para governar depois.

A ideia de uma frente amplíssima parece óbvia, mas temos que lembrar do histórico do PT em termos de alianças. No segundo turno contra Fernando Collor, o PT deixou passar a possibilidade de ganhar a eleição por não ter oferecido ao PSDB, ao PMDB e ao PDT um lugar na mesa do governo seguinte. Tirando Leonel Brizola, os outros candidatos derrotados deram um apoio apenas formal a Lula, no segundo turno. Depois da queda de Fernando Collor, o presidente Itamar Franco convidou o PT a juntar-se com o PSDB, o PSB e o PMDB no governo, mas o PT preferiu ficar na oposição e tentar conquistar o governo sem mediações dois anos e meio depois. A esperteza deu em oito anos de governo tucano. Mesmo com os partidos aliados frequentes, como o PSB, o PC do B e o PDT as relações foram tensas, com os outros reclamando da mão pesada do PT. Vamos ver dessa vez como isto vai se passar.

Tiremos da cabeça a possibilidade de termos um governo progressista. Vai ser um governo de centro, onde a esquerda não vai mandar e onde Lula vai ter que negociar passo a passo.

Além disso, embora não ache que haja tempo para definir um programa mínimo concreto para ser negociado entre os novos parceiros, vai ser preciso pelo menos apontar para algumas prioridades concretas para anunciar ao eleitorado.

Enquanto Lula negocia os apoios com as direções dos partidos, a campanha deveria lançar algumas propostas concretas a serem adotadas no começo do governo. Entre elas deveria ser incluída com destaque um programa Fome Zero abrangente e detalhado. Já toquei nesta proposta em outros artigos e não vou repetir aqui. A questão do desmatamento e queimadas também deveria ser parte de um programa emergencial a ser negociado com os países ricos. E um programa de produção de alimentos saudáveis também deveria entrar como prioridade. Não entrei nos meus artigos nos temas de educação e saúde (este, sim, alguma coisa modesta), mas existem especialistas em coletivos que debatem estes assuntos e tem propostas bem concretas, se a campanha necessitar.

Lula vai ter que sair da extrema generalidade das suas propostas até agora, pois elas se limitaram a recordar o que foi feito entre 2003 e 2010. Como as condições atuais são totalmente diversas estas propostas de repeteco estão fora de lugar. Elas deixam o andar de cima inquieto e não empolgam o andar de baixo. Na verdade, esta campanha foi mais voltada para o antibolsonarismo do que para um programa positivo e propositivo.

Não temos muito tempo para acertar a estratégia de ação para as próximas quatro semanas e o relógio está clicando. Deveríamos tomar a iniciativa de fazer alguma coisa enquanto coletivo e quando/se a campanha do Lula lançar orientações para todos nós veremos como nos ajustaremos.

Para terminar, há algo de bom nesta vitória incompleta que nos leva ao segundo turno. Jair Bolsonaro não está contestando as urnas nem pedindo a anulação. Com a possibilidade de ganhar fazendo brilhar seus olhinhos suínos o energúmeno embainhou a espada. Vai ser mais difícil para ele retomar este caminho ao perder o segundo turno. Ele deve tentar, é claro, mas a possibilidade de ser seguido diminuiu muito.

*Jean Marc von der Weid é ex-presidente da UNE (1969-71). Fundador da organização não governamental Agricultura Familiar e Agroecologia (ASTA).

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