É preciso fazer mais

Aaron Douglas (1899–1979), Let My People Go, 1935–39.

Por HERICK ARGÔLO*

O ato de 29 de maio foi importante, mas ainda temos muito a construir pra começarmos a sair da defensiva

Não, a correlação de forças segue muito desfavorável para a esquerda. O ato de 29 de maio não significa que começamos a sair da defensiva.

Pode-se perguntar, mas nossos atos não foram muito maiores que os de Bolsonaro? Sim, foram. É natural que quando o inimigo esteja avançando sobre nós, consigamos ter força suficiente, em algum momento, pra reagir, sem isso nos tirar da defensiva.

Para dar alguns exemplos, nos 21 anos de ditadura, houve momentos de forte mobilização popular antes da real contraofensiva popular de 1978, como os atos estudantis e as greves de Contagem e Osasco. Nos dias de hoje, depois do golpe que sofremos em 2016, houve momentos de maior mobilização popular, como a greve de abril de 2017, e os atos estudantis contra os cortes na educação no início de 2019.

Estamos, agora, tendo outro momento desses, de choque contra o inimigo que avança. É importante aproveitarmos esses momentos. São ações de resistência, que dificultam que o inimigo avance mais do que pode na sua ofensiva, e podem servir para encurtar o tempo necessário de nossa defensiva.

Os atos de 19 de junho tendem a ser maiores que os de 29 de maio, atraindo muitos que hesitaram na primeira convocação. Porém, a tendência é que essa energia das ruas não se sustente por longo tempo. Por que? Porque segue em declínio a luta proletária e camponesa.

O número de greves, que é um indicativo da capacidade de luta e organização do movimento operário, diminui ano a ano. Os dados do DIEESE mostram que o grande salto no número de greves dado a partir de 2011 vem refluindo desde 2017, o ano seguinte ao golpe. Em 2020, ocorreram 649 greves no país, uma queda quase pela metade das 1.118 greves ocorridas em 2019. Que, por sua vez, está muito longe do pico de greves entre 2013 e 2016, que teve uma média acima das 2.000 greves por ano. Há uma perda evidente da capacidade de luta proletária.

Segue em declínio, também, a mobilização camponesa, sem força para fazer ocupações, seja de terra, de banco lutando por crédito, etc. Conforme os dados do DATALUTA, o número de ocupações de terra vem caindo desde 2012. O ano de 2019 registrou o menor índice dos últimos 34 anos, desde quando se tem dados coletados.

As mobilizações da esquerda estão bastante concentradas na classe média. A classe média, quando se mobiliza, sofre muito menos risco de perder o seu sustento ou até a vida do que o proletariado e o camponês pobre, por isso a sua maior capacidade objetiva de luta neste momento. Sozinha, a classe média ajuda muito, mas não define o início de uma contraofensiva.

Outro fator que nos coloca em defensiva, esse de ordem mais subjetiva, é que a esquerda segue se fragmentando e bastante dividida. Em um texto recente, Valério Arcary desenhou bem as três grandes linhas táticas dentro das quais os partidos têm se dividido internamente e entre si. Ele designou a primeira como tática “quietista” ou de “frente ampla”. A segunda como a tática de “ofensiva permanente”. E a terceira de tática da “frente de esquerda”.

O que há em comum entre as duas primeiras é a subestimação do fascismo. A tática de “frente ampla” julga que as contradições entre a burguesia e o fascismo, e consequentemente as possibilidades de uma aliança favorável para a esquerda com o grande capital, são muito maiores do que na verdade são. Com isso, preferem ficar subordinados à linha de oposição imposta pela burguesia, sem um firme combate contra medidas antipopulares das classes dominantes. Já a tática da “ofensiva permanente” crê ser possível derrubar Bolsonaro “pela esquerda” somente com a mobilização da classe média. O “fora Bolsonaro” parece suficiente para conquistar o conjunto das classes populares para as ruas, incorrendo em vanguardismo. É a terceira, a tática de “frente de esquerda”, que permite acumularmos força progressivamente.

Ainda temos muito a construir pra começarmos a sair da defensiva. Isso implica em termos a sabedoria de realizarmos os atos de rua de forma espaçada, sem desgata-los. Em, também, tomarmos todos os cuidados sanitários e não convocarmos grupos de risco para uma batalha que ainda não será decisiva.

Implica em elevarmos as palavras de ordem defensivas, construindo uma orientação não só anti-fascista, como também anti-neoliberal, que não deixe os atos vulneráveis ao espontaneísmo, e que sejam capazes de disputar as classes populares. Sequer as bandeiras contra as privatizações e contra a reforma administrativa apareceram nas convocações de 29 de maio. Essa última, inclusive, afeta diretamente setores populares que apoiam ativamente Bolsonaro, como os policiais militares, e podem criar contradições em sua base.

Não incluir as palavras de ordem anti-neoliberais pode parecer ter sentido dentro da visão equivocada da “frente ampla” ou da “ofensiva permanente”. Mas, de forma alguma, para quem percebe a necessidade de conquistarmos as classes populares. No ato de 19 de junho, aos protestos por vacina e auxílio emergencial, devemos somar as palavras de ordem contra as privatizações e a reforma administrativa.

Por fim, em especial, precisamos ter como objetivo central desta etapa da luta nos conectarmos e nos fundirmos com o proletariado, do qual a esquerda segue distante. O que não se faz apenas com os atos de rua da classe média. Mas com um paciente trabalho de educação política a partir, e de dentro, das lutas econômicas do proletariado.

A defensiva, provavelmente, ainda será longa. Mas os atos recentes têm o mérito de mostrar que podemos ser vitoriosos ao final.

*Herick Argôlo é militante da Consulta Popular.