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A manobra de Vladimir Putin

Imagem: Telegram
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Por ALEXANDRE DE LIMA CASTRO TRANJAN*

O motim do grupo Wagner foi um estratagema político para Putin aumentar seu poder e realizar avanços táticos sobre a Ucrânia

Os últimos dias na Rússia despertaram o interesse e a atenção de todos nós. Acompanhamos, atônitos, o que nos disseram ser o começo do fim do comando de Vladimir Putin sobre o país. Logo, porém, o motim do grupo Wagner se mostrou, ao que tudo indica, um glorioso teatro que, diferentemente do que os “analistas” e “especialistas” de diversos meios de comunicação insistem em dizer, apenas consolida o poder do autocrata. Não, Vladimir Putin não está “enfraquecido” nem “chamuscado”, nem esteve à beira de perder seu posto. Na verdade, a manobra do motim do grupo Wagner foi nada mais que um estratagema político para aumentar seu poder e realizar avanços táticos sobre a Ucrânia.

Em três pontos, listados no que creio ser uma ordem crescente de importância, tratarei de forma breve e didática as razões pelas quais, seja de improviso ou de caso pensado, o desfecho do tal motim de Wagner foi, por parte de Vladimir Putin, uma jogada de enxadrista à la Kasparov – este que, campeão mundial de xadrez e não de análise de conjuntura, acha que a invasão russa na Ucrânia está fracassando.

Talvez seja preciso alertar sobre a inexistência de pretensões de originalidade em minha análise. Se, deleuziano que sou, já não acredito em discurso direto, e uso o pronome pessoal por comodidade estilística e necessidade gramatical, devo reconhecer que, independentemente das premissas que sigo em filosofia da linguagem e da subjetividade, este texto em especial conta com a contribuição de variados amigos, professores e colegas que, em enriquecedoras conversas, ofereceram-me valiosas e perspicazes contribuições, bem como me permitiram colocar à prova minhas observações “próprias”.

Polimento de imagem do grupo Wagner e desmoralização do exército ucraniano

Se o que tem até então se mostrado um retumbante fracasso na contraofensiva há tanto tempo prometida por Kiev já não fosse suficiente para evidenciar a triste fraqueza do exército ucraniano perante as forças russas, o mundo testemunhou e depositou sua fé sobre a possibilidade de uma dissidência interna entre militares e paramilitares do país invasor derrubar o regime putiniano.

Do dia para a noite, o sanguinário grupo mercenário se tornou a principal esperança de derrubar ou, ao menos, enfraquecer o Kremlin a ponto de tornar a guerra vencível. Pouco antes do acordo, Kiev emitia a declaração de que Prigozhin havia “humilhado” Putin. Talvez seja mais humilhante, de fato, depender de uma solução ex machina para sobreviver à guerra, depois de tantas declarações de que a venceriam, de que os russos eram fracos e despreparados etc.

O possível “pente-fino” na burocracia estatal russa

Finda a tal “marcha por justiça” de Wagner, que facilmente poderia ser massacrada pela até aqui hegêmone força aérea russa, fica evidente o quão pequenos são nomes como o de Shoigu, ministro da defesa, perante Vladimir Putin. Ademais, a quem porventura tenha se empolgado com a insurgência wagneriana, um destino não tão agradável estará por vir, certamente, ao menos, bem longe dos escalões de poder de Moscou. O teatro da insurreição de Wagner foi um teste de fidelidade dos escalões do governo de Vladimir Putin, ao mesmo tempo que uma demonstração de sua submissão ao presidente russo.

A Bielorrússia pronta para a guerra

Enviar Prigozhin para a Bielorrúsia é, no mínimo, prova da hegemonia de Putin e de seu poder de comando. Ninguém duvida que o levante seria trucidado, a menos que se tornasse um golpe apoiado pelo próprio exército, o que seria improvável, já que é ao próprio alto escalão da força militar russa que o líder do Wagner criou oposição.

O “exílio” na Bielorrússia, país que acaba de receber armas nucleares táticas de Moscou, não deve ser lido senão como um movimento bastante estratégico. Belarus, agora munida nuclearmente, o que afastaria qualquer represália direta por parte de seus vizinhos da OTAN, também abrigará a tropa que tomou Bakhmut para sua defesa ou, muito mais provavelmente, servirá de ponte para que Kiev seja tomada de assalto.

Isso porque a fronteira sul da Rússia Branca (Беларусь/Белая Русь) fica a cerca de 150km da capital daquela que outrora fora chamada de Pequena Rússia (Малороссия ou Малая Россия), distância que pode ser encurtada se percorrida pelo Rio Dnipro. Em poucas horas, um comboio do grupo paramilitar pode cercar Kiev sem grandes sustos. Se a guerra, que até então tem servido para drenar as reservas e a produção industrial de Estados Unidos e Europa, porventura se tornar um real problema para Vladimir Putin, que até agora só capitalizou politicamente com o conflito, ela pode ser acabada em pouquíssimo tempo.

Alexandre de Lima Castro Tranjan é doutorando em Filosofia e Teoria Geral do Direito na USP.

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