A primeira história do mundo

Teodoro Carvalho Dias (Jornal de Resenhas)

Por DANIEL BRAZIL*

Comentário sobre o livro de Alberto Mussa, terceiro volume publicado de um projeto de cinco romances policiais contando a história do Rio de Janeiro “através de seus crimes”

Se considerarmos que o conceito de história se faz a partir da existência de pessoas, em termos bíblicos a primeira história do mundo envolveu desejo sexual e assassinato. Adão, Eva, Caim e Abel simbolizam esse início sangrento, do qual nunca fomos redimidos.

O escritor carioca Alberto Mussa reconta sua “primeira história” situando-a no Rio de Janeiro. Mais precisamente em 1567, pouco mais de dois anos passados da construção do forte no Morro do Castelo, onde tudo começou.

A vila tinha cerca de 400 habitantes, entre portugueses, vicentinos, mamelucos, índios e alguns poucos europeus de origem diversa. E então se registra o primeiro crime, o assassinato do serralheiro Francisco da Costa, em circunstâncias misteriosas. O fato de sua mulher, Jerônima Rodrigues, ser uma mameluca atraente, numa terra onde habitam muito mais homens que mulheres, dá contornos de passionalidade ao fato, com suspeitas de adultério. Alberto Mussa parte de um documento histórico, de um fato real, relatado em “Conquistadores e povoadores do Rio de Janeiro”, de Elysio Belchior, e promove uma admirável mescla de ficção e realidade.

Temos, portanto, uma trama policial. Um morto, vários suspeitos, uma possível causa. Mas os autos são incompletos e obscuros, e o julgamento soa apressado, uma vez que até entre os juízes há suspeitos. Só não existe um detetive, ou melhor, é Mussa quem se investe do papel, pedindo aos leitores que “dividam comigo a fascinante tarefa de reproduzir a investigação, de examinar os dados do processo, bem como outros documentos que iluminem o caráter das personagens envolvidas.”

O autor não se reporta ao antecedente bíblico, mas nos apresenta, em digressões deliciosas, aspectos históricos, culturais e antropológicos da Guanabara dos primórdios. A mitologia indígena, uma das paixões de Mussa, é apresentada em vários momentos, assim como a descrição acurada de hábitos e costumes da época.

Todos estes temperos dão ainda mais sabor à trama policial. Segundos os autos, o mameluco Simão Berquó foi considerado culpado e condenado à forca. Mussa dedica um capítulo a cada um dos suspeitos, levantando hipóteses: dois fidalgos-cavalheiros, o tesoureiro da câmara, o mordomo da confraria de São Sebastião, um judeu degredado, um cirurgião-boticário, um carcereiro, um pirata-cartógrafo. Algumas mulheres dão depoimentos sobre a bela e misteriosa Jerônima, algumas solidárias, outras invejosas.

Embora a solução proposta pelo escritor-detetive surpreenda pelo inusitado, toda a construção da trama segue, de forma engenhosa, as convenções do gênero, plantando suspeitas na cabeça do leitor e levando-o a elaborar conjecturas e deduções. Mussa enriquece a narrativa com citações dos primeiros narradores-viajantes, interpretações etimológicas, paralelos com autores policiais modernos, cinema – ele está escrevendo no século XXI, não no XVI, lembrem-se! –, culminando com uma ardilosa aproximação da Comédia de Dante.

A primeira história do mundo é o terceiro volume publicado de um projeto ambicioso, uma série de cinco romances policiais contando a história do Rio de Janeiro “através de seus crimes”, um pra cada século. (os anteriores são O Trono da Rainha Ginga, sec. XVII, e O Senhor do Lado Esquerdo, sec. XX). O quarto volume, A Hipótese Humana, foi lançado em 2017, e se passa no século XIX, abordando um crime que envolve escravos e a mitologia africana. O ciclo se completa com A Biblioteca Elementar (Século XVIII), lançado em 2018, onde um assassinato no Largo da Carioca compromete ciganos e frades franciscanos, com uma narrativa conduzida por mulheres.

Alberto Mussa, consagrado com diversos prêmios literários, é certamente um dos mais originais escritores brasileiros, e exercita nesse ciclo suas melhores qualidades. Dialoga com o leitor, sugere pistas, oferece alternativas, cita fontes históricas, mesclando erudição com entretenimento de alto nível.

O Compêndio Mítico do Rio de Janeiro pode ser lido em qualquer ordem, de forma independente. Não é apenas uma série de romances policiais, mas um mergulho fascinante na história da cidade que mais representa o país, com todas suas contradições, belezas, feiuras, preconceitos, disputas e paixões.

*Daniel Brazil é escritor, autor do romance Terno de Reis (Penalux), roteirista e diretor de TV, crítico musical e literário.