A poesia no tempo dos incêndios no céu

Walter Valentini, Cielo, 2014
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Por GUILHERME RODRIGUES*

Considerações sobre a poesia de Carlos Drummond de Andrade

“Cada um de nós tem seu pedaço no pico do Cauê.”[i]

1.

Este é o primeiro verso do poema “Itabira”, parte da “Lanterna mágica”, conjunto de poemas do primeiro livro de Drummond, Alguma poesia, publicado há quase cem anos atrás. Este livro, como se sabe, se tornaria um clássico, e sem dúvida uma das mais marcantes obras da língua portuguesa, lembrado por poemas como “No meio do caminho”, “Poema de sete faces” e “Poema da purificação”. Mas não se pode esquecer seu restante, os poemas que apresentam, por exemplo, a “cidadezinha qualquer” de onde o poeta saiu.

A vida no interior de Minas Gerais e a paisagem da pequena cidade é algo que atravessa a poesia de Carlos Drummond de Andrade, de Alguma poesia a Boitempo, e moldou uma certa visão sobre este escritor, que, em verdade, viveu boa parte da vida em capitais: Belo Horizonte e Rio de Janeiro. De qualquer modo, em sua poesia estão entrelaçados dados biográficos e sociológicos que advém da vida na pequena cidade com a criação poética que tanto se interessa, no fundo, pela história do Brasil. Este verso da “Lanterna mágica” parece fantasmagórico neste sentido agora.

Pois se qualquer interessado quiser, desavisado, visitar a pequena cidade próxima a Belo Horizonte para saber, afinal de contas, qual é seu pedaço no pico do Cauê, se surpreenderá que tal pico não existe mais — ele hoje é um buraco no chão, minerado totalmente. De início, seria bom ao interessado se lembrar do restante da poesia:

“Na cidade toda de ferro
as ferraduras batem como sinos.
Os meninos seguem para a escola.
Os homens olham para o chão.
Os ingleses compram a mina.

Só, na porta da venda, Tutu Caramujo cisma na derrota incomparável.”[ii]

Itabira é uma cidade toda de ferro, ou melhor, como vai o próprio Carlos Drummond de Andrade reformular cerca de dez anos depois no Sentimento do mundo, “noventa por cento de ferro nas calçadas. / Oitenta por cento de ferro nas almas.”[iii] A pequena cidade, como ele vai repetidas vezes enunciar, teve uma história dupla (que, ao final, é a história do próprio poeta): outrora, fora um lugar de grandes fazendas e lavouras, depois, vendida aos ingleses para se extrair ferro do coração do chão.

É Carlos Drummond de Andrade mesmo quem vai escrever que “Tive ouro, tive gado, tive fazendas. / Hoje sou funcionário público.”[iv]; sua infância é aquela da fazenda, cujo pai monta à cavalo e a mãe fica em casa cosendo[v]; uma família formada por

“Três meninos e duas meninas
sendo uma ainda de colo.
A cozinheira preta, a copeira mulata,
o papagaio, o gato, o cachorro,
as galinhas gordas no palmo de horta
e a mulher que trata de tudo.”[vi]

Ou seja, uma família de estrutura patriarcal que é oriunda de um sistema escravista. Isso pois o poeta sempre é atravessado por este passado que não permite idílios campestres ou narrativas bucólicas, quando confrontados com a materialidade da exploração e horror da escravidão – a lembrança que aparece tão bem no “Canto negro” de Claro enigma.[vii] O homem da fazenda é, afinal, de tradição escravista, algo a que a poesia deste escritor nunca descansou de dizer, com notável poeticidade em “Os bens e o sangue”, também de Claro enigma, publicado já depois da Segunda Guerra, mais de vinte anos depois do primeiro livro do poeta: “e o menino crescerá sombrio, e os antepassados no cemitério / se rirão se rirão porque os mortos não choram.”[viii] Esta cidadezinha qualquer, portanto, tem a sua história dos “engenhos de secar areia até o ouro mais fino”[ix]; contudo, ela mesma foi toda vendida para os ingleses, que cavaram a cidade à sua raiz de ferro. A derrota de Tutu Caramujo está completa ali em Claro enigma, quando a poesia lança mão da imagem dos morros secos de ferro tapando o vale sinistro na procissão dos últimos escravos.

Poderíamos, então, lembrar, com a ajuda de Aílton Krenak, que isto é mais uma etapa da exploração da terra e da destruição que é processada pelo que se chama de “agro”, pois “tudo virou agro. Minério é agro, assalto é agro, roubo do planeta é agro, e tudo é pop. Essa calamidade que nós estamos vivendo no planeta hoje pode apresentar a conta dela para o agro”.[x]

O que parece efetivo na poesia de Carlos Drummond de Andrade é como estas marcas da destruição moderna da civilização afetam não somente o solo, as árvores e as condições imediatas da vida humana; mas ela tem um imperativo que deve funcionar ao preço de sua continuidade: a formação de um modo de entendimento de mundo que deve tirar de seu horizonte qualquer possibilidade de empatia ou vida em conjunto com o mesmo mundo; em que a sensibilidade é dessensibilizada em direção a um hiper-individualismo tacanho e imediatista.

No passeio público apresentado na sua “Nota social”, em Alguma poesia, a árvore já aparece apenas como um “melhoramento”, mas que é apenas “prisioneira / de anúncios coloridos”[xi], e a cigarra que ali canta um hino que não é escutado por ninguém lembra a mesma condição do poeta que atravessa a multidão em furor na modernidade. É o mesmo dilema que permanece em Claro enigma, em que se volta a afirmar que Orfeu anda perdido no mundo moderno – a poesia, que antes tinha o poder do encantamento de que tanto fala Octavio Paz[xii] perdeu sua capacidade imanente de ser revolucionária e de mudar mundos; e é para Carlos Drummond de Andrade uma quimera que lhe causa tanta inquietação, como tão bem apontou Antonio Candido em ensaio sobre o autor.[xiii]

Este mundo acabado é aquele mesmo em que o eu lírico se encontra com a grandeza mística da Máquina do Mundo, como um Dante a caminhar pelo inferno, próximo a ter a revelação poética de Octavio Paz, mas ele simplesmente baixa seus olhos, “incurioso, lasso / desdenhando colher a coisa oferta / que se abria gratuita a meu engenho.”[xiv] O mundo, aos olhos do poeta, passou por esse processo de dessensibilização: diante dos mais indescritíveis níveis de violência, exploração e destruição, só uma pedagogia da indiferença absoluta pode sustentá-lo, pois “se os olhos reaprendessem a chorar seria um segundo dilúvio.”[xv]

É neste sentido que a poesia de Carlos Drummond de Andrade lembra que somente um sujeito que é incapaz de, ao ouvir um som de um piano, distinguir o que se toca –o “me disseram que era Chopin” –, e, mais, se emocionar com aquilo, pode viver passando pelo mundo, ouvindo o piano e só se lembrando de maneira deprimente das “contas que era preciso pagar”[xvi].

A semelhança sinistra chega-nos enquanto somos dessensibilizados mesmo diante dessa poesia, que, instrumentalizada, se aproxima aos jovens apenas enquanto uma maneira de passar pela autoridade da escola; e aos mais velhos, são esquecidos da palavra poética, que devem, todos os dias, acordar para trabalhar e consumir os produtos mais baixos da indústria cultural enquanto o céu está em chamas, o ar está irrespirável, a água não se pode tomar, a chuva queima nossa pele e o espetáculo da guerra mata crianças na faixa de Gaza. No novo “Canto órfico” do Fazendeiro do Ar, os olhos estão, enfim, “desaprendidos de ver”.[xvii]

2.

Ainda assim existe algo que a poesia de Carlos Drummond de Andrade faz lembrar – que ela ainda existe, ironicamente, num mundo que a tenta abolir com todas as forças. Esse parece ser o pedido que o eu lírico faz à tarde de maio, em Claro enigma: à maneira daqueles que carregam as mandíbulas dos mortos, o poeta carrega a tarde de maio, um momento em que aparece outra chama diante da terra devastada pelo incêndio. À tarde de maio pede a poesia que continue, e se consumindo “a ponto de converter-se em sinal de beleza no rosto de alguém / que, precisamente, volve o rosto, e passa…”[xviii].

Este é momento, escreve o poeta, da morte; mas é também quando se pode renascer numa primavera fictícia, criada pela própria poesia, num lugar em que o próprio amor se esqueceu de si e “se esconde, ao jeito dos bichos caçados”, de modo que resta somente – uma maneira de melhor se conservar – “uma particular tristeza, a imprimir seu selo nas nuvens”.

*Guilherme Rodrigues é doutor em teoria literária pelo IEL da Unicamp.

Notas


[i] Andrade, Carlos Drummond de. Poesia completa e prosa. 3ª ed. Rio de Janeiro: Companhia José Aguilar Editora, 1973, p. 58.

[ii] id. loc. cit.

[iii] id. ibid. p. 101.

[iv] id, ibid. p. 103.

[v] id. ibid. pp. 53-4.

[vi] id. ibid. p. 69.

[vii] id. ibid. p. 258.

[viii] id. ibid. p. 262.

[ix] id. ibid. p. 259.

[x] Aílton Krenak. “Não se come dinheiro”. in: A vida não é útil. 1ª ed. São Paulo: Companhia das letras, 2020, p. 23.

[xi] Andrade, ibid. p. 64.

[xii] Paz, Octavio. El arco y la lira. 3ª ed.. México: Fondo de Cultura Economica, 1973, pp. 117-81.

[xiii] Candido, Antonio. “Inquietudes na poesia de Drummond”. in: Vários escritos. 5ª ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre azul, 2011, pp. 69-99.

[xiv] Andrade, ibid. p. 273.

[xv] id. ibid. p. 70.

[xvi] id. ibid. p. 71.

[xvii] id. ibid. p. 288.

[xviii] id. ibid. p. 248.


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