Sem saída

Imagem: Michelangelo Pistoletto

Por ALASTAIR CROOKE*

Como levar adiante uma metamorfose “revolucionária” sem entrar em guerra com o Ocidente

Já ficou claro que, no que realmente importa, o conflito está resolvido – por mais longe que esteja de acabar. Está claro que, na guerra militar – assim como na política –, a Rússia prevalecerá. Isso significa que o que emergirá na Ucrânia, completada as ações militares, será ditado por Moscou em seus próprios termos.

É evidente que, por um lado, o regime de Kiev colapsaria caso tivesse seus termos ditados por Moscou. Por outro lado, toda a agenda ocidental por detrás do golpe de Maidan, ocorrido em 2014, também implodiria. (É por isso que uma saída, na ausência de uma via ucraniana, é impossível).

Este momento marca, portanto, um ponto de inflexão crucial. Pôr fim ao conflito poderia ser uma possível escolha americana – e existem muitas vozes demandando um acordo, ou um cessar-fogo, com o interesse compreensivelmente humano de acabar com o massacre sem sentido de jovens ucranianos, enviados para o front para defender posições indefensáveis e, no final, serem cinicamente mortos em nome de um ganho militar nulo, apenas para manter a guerra em andamento.

Por mais racional que seja, o argumento em defesa de uma saída passa ao largo da grande questão geopolítica: o Ocidente está tão investido em sua narrativa fantástica do colapso e da humilhação iminentes da Rússia que se vê “de mãos atadas”. Ele não pode avançar, devido ao receio de que a OTAN não esteja à altura de confrontar as forças russas (Putin deixou bem claro que a Rússia sequer começou a utilizar de toda a sua força). E, no entanto, selar um acordo, retroceder, seria quebrar a cara.

E “quebrar a cara” pode ser livremente traduzido como uma derrota para o Ocidente liberal.

Desta maneira, o Ocidente fez-se refém de seu triunfalismo irrestrito, mascarado de guerra de informações. Ele escolheu este chauvinismo irrestrito. Os assessores de Joe Biden, entretanto, lendo as runas da guerra – das conquistas implacáveis da Rússia – começaram a pressentir a chegada de um outro debacle sobre a política externa.

Eles observam os eventos como estando longe de reafirmar a “ordem pautada por regras”, mas como a dura demonstração, diante do mundo, dos limites do poder estadunidense – cedendo o palco não apenas a uma Rússia ressurgente, mas que também carrega uma mensagem revolucionária para o resto do mundo (um fato do qual, todavia, o Ocidente ainda precisa tomar consciência).

Além disso, a aliança ocidental está se desintegrando conforme se assenta a fadiga provocada pela guerra e as economias europeias são confrontadas com uma recessão. A instintiva inclinação contemporânea a decidir primeiro, depois pensar (as sanções europeias), colocou a Europa em uma crise existencial.

O Reino Unido é um exemplo do dilema maior da Europa: sua classe política, confusa e aterrorizada, estava de início “determinada” a remover seu líder, para depois perceber que não tinha um sucessor à mão com a capacidade de gerir o novo normal, e agora não tem ideia de como escapar da armadilha em que se colocou.

Sem a ousadia de quebrar a cara com a Ucrânia, ela não tem uma solução à altura da recessão que surge no horizonte (exceto, talvez, um retorno ao thatcherismo?). O mesmo pode ser dito da classe política europeia: estão como um cervo diante dos faróis de um automóvel em alta-velocidade.

Joe Biden, e uma certa rede que se espalha por Washington, Londres, Bruxelas, Varsóvia e os Balcãs, vê a Rússia de uma altura de 30 mil pés acima do conflito ucraniano. Sabe-se que Joe Biden acredita estar em uma posição equidistante entre duas tendências perigosas e ameaçadoras que abocanham os Estados Unidos e o Ocidente: trumpismo em casa e putinismo no estrangeiro. Ambos, segundo ele, são uma ameaça clara e presente à ordem liberal pautada por regras na qual (o time) Joe Biden acredita apaixonadamente.

Outras vozes – principalmente vindo do campo realista dos EUA – não estão tão comovidas pela Rússia; para elas, os “homens de verdade” enfrentam a China. Elas desejam apenas manter estagnado o conflito na Ucrânia de modo a proteger suas caras, se possível (com mais armas), enquanto o pivô chinês é ativado.

Em um discurso proferido no Hudson Institute, Mike Pompeo deu uma declaração sobre política externa que claramente tinha o olhar voltado para 2024 e sua ascensão à posição de vice-presidente. O essencial em seu discurso tratava da China, embora o que ele disse sobre a Ucrânia também seja interessante: a importância de Volodymyr Zelensky para os EUA dependia de sua capacidade de sustentar a guerra (isto é, livrar a cara do Ocidente). Ele não se referiu explicitamente ao envio de tropas, mas estava claro que ele não defendia um tal passo.

Sua mensagem era oferecer armas, armas e armas para a Ucrânia; e “siga-se em frente” – direcionando a atenção para a China agora. Mike Pompeo insistiu que os EUA reconhecessem Taiwan diplomaticamente neste instante, a despeito do que aconteça. (isto é, independentemente da possibilidade desta reação desencadear uma guerra com a China). Ele incluiu a Rússia na equação simplesmente dizendo que ela e a China deveriam ser efetivamente tratadas como uma só.

Joe Biden, no entanto, parece estar motivado a deixar o momento passar e a seguir em frente com a trajetória atual. Isso também é o que querem diversos participantes desta confusão. O fato é que as perspectivas do Estado profundo estão em conflito, e banqueiros influentes de Wall Street certamente não se deixam afetar pelas ideias de Mike Pompeo. Eles prefeririam um alívio nas tensões com a China. Seguir em frente, portanto, é a alternativa mais fácil, uma vez que a atenção doméstica nos EUA tem se concentrado em mazelas econômicas.

O que está em questão aqui é que o Ocidente se vê completamente preso: ele não pode avançar, nem retroceder. Suas estruturas políticas e econômicas o impedem. Joe Biden está preso à Ucrânia; a Europa está presa à Ucrânia e à sua beligerância contra Vladimir Putin; o mesmo vale para o Reino Unido; e o Ocidente está preso às suas relações com a Rússia e a China. Mais importante ainda é o fato de que nenhum deles pode enfrentar as demandas insistentes da Rússia e da China por uma reestruturação da arquitetura de segurança global.

Se não podem se mover neste plano da segurança – por medo de quebrar a cara – eles serão incapazes de assimilar (ou ouvir – dado o enraizado cinismo que acompanha cada palavra pronunciada pelo presidente Putin) que a agenda da Rússia vai muito além da arquitetura de segurança.

Por exemplo, o diplomata veterano e comentador indiano, M. K. Badrakhumar, escreveu: “Depois de Sakhalin-2, [em uma ilha no Leste da Rússia] Moscou também planeja nacionalizar o projeto de produção de petróleo e gás Sakhalin-1, expulsando os acionistas norte americanos e japoneses. A capacidade de Sakhalin-1 é impressionante. Houve um momento, antes da OPEC definir limites aos níveis de produção, em que a Rússia extraía até 400.000 barris por dia, enquanto o nível recente de produção tem sido cerca de 220.000 barris por dia.

A tendência geral de nacionalização dos holdings do capital americano, britânico, japonês e europeu em setores estratégicos da economia russa está se cristalizando enquanto sua nova política. A limpeza da economia russa, libertada do capital ocidental, deve acelerar em um período futuro.

Moscou estava ciente do caráter predatório do capital ocidental no setor petrolífero russo – um legado da era de Boris Yeltsin –, mas teve que conviver com a exploração pois não queria antagonizar com outros potenciais investidores ocidentais. Isso tudo já virou história. As relações com o Ocidente azedaram até um ponto de ruptura que libertou Moscou de tais inibições arcaicas.

Depois de sua chegada ao poder em 1999, o presidente Vladimir Putin se dedicou a tarefa monstruosa de limpar os estábulos de Aúgias da colaboração estrangeira da Rússia no setor petrolífero. O processo de “descolonização” foi excruciante, mas Putin foi até o fim”.

E essa não é toda a história. Vladimir Putin continua dizendo em seus discursos que o Ocidente é o autor de sua dívida e de sua crise inflacionária (e não a Rússia), o que causa uma boa dose de dores de cabeça no Ocidente. Deixemos, no entanto, o professor Hudson explicar por que boa parte do resto do mundo acredita que o Ocidente escolheu o “caminho errado” economicamente. Em poucas palavras, para Vladimir Putin, as escolhas do Ocidente o levaram a uma rua sem saída.

O professor Hudson (parafraseado e reescrito) argumenta que existem, essencialmente, dois amplos modelos econômicos que atravessam a história: “por um lado, vemos as sociedades do Oriente Próximo e da Ásia se organizarem para manter o equilíbrio e a coesão social ao manter suas relações de endividamento e riqueza mercantil subordinadas ao bem-estar geral da comunidade como um todo”.

Todas as sociedades antigas desconfiavam da riqueza pois ela tendia a ser acumulada às custas da população em geral – e levava à polarização social e a grandes desigualdades de riqueza. Observando o transcorrer da história antiga, podemos ver (diz Hudson) que o principal objetivo de governantes, desde a Babilônia ao Sul e ao Leste asiáticos, era evitar que uma oligarquia mercantil ou credora emergisse e concentrasse a posse de terra em suas mãos. Este é um modelo histórico.

O grande problema resolvido pelo Oriente Próximo da Era do Bronze – e que a antiguidade clássica e a civilização Ocidental não resolveram – era como lidar com dívidas crescentes (jubileus periódicos da dívida) sem polarizar a sociedade e, no final, empobrecer a economia ao tornar a maioria da população dependente de dívidas.

Um dos princípios chave de Hudson é a maneira com que a China se estruturou enquanto uma economia low cost: moradia barata, educação subsidiada, sistema de saúde e transporte – o que significa que os consumidores dispõem de alguma renda excedente disponível – e a China como um todo torna-se competitiva. O modelo Ocidental, financeirizado e fundado no endividamento, é, no entanto, de alto custo, com parcelas da população tornando-se cada vez mais pobres e desprovidas de renda discricionária após pagar os custos do serviço da dívida.

A periferia Ocidental, entretanto, na falta de uma tradição como a do Oriente Próximo, “voltou-se” a uma rica oligarquia credora, permitindo que ela tomasse o poder e concentrasse terras e propriedades em suas mãos. Por motivos de “public relations”, ela se afirmou como “democracia” e denunciou qualquer regulação governamental protetora como sendo, por definição, “autocracia”. Este é o segundo grande modelo, que, porém, com seu balanço de dívida e agora em uma espiral inflacionária, também se encontra preso, sem os meios para dar um passo adiante.

Os acontecimentos de Roma seguiram o segundo modelo, e ainda estamos vivendo suas repercussões. Tornar os devedores dependentes de credores ricos é o que os economistas hoje chamam de um “livre mercado”. Trata-se de um mercado sem pesos e contrapesos públicos contra a desigualdade, a fraude ou a privatização do domínio público.

Esta ética neoliberal pró-credor, afirma o professor Hudson, está na raiz da nova Guerra Fria de hoje. Quando o presidente Joe Biden descreve este grande conflito mundial que visa isolar a China, a Rússia, a Índia, o Irã e seus parceiros da Eurásia, ele o caracteriza como uma luta existencial entre a “democracia” e a “autocracia”.

Por democracia, ele quer dizer oligarquia. E por “autocracia”, qualquer governo forte o bastante para impedir que uma oligarquia financeira tome o controle do governo e da sociedade e imponha medidas neoliberais – pela força – como fez Putin. O ideal “democrático” é fazer com que o resto do mundo se assemelhe à Rússia de Boris Yeltsin, onde neoliberais americanos tinham carta branca para acabar com todas as propriedades públicas de terras, direitos minerários e utilidades públicas básicas.

Hoje, porém, lidamos com tons de cinza – não existe um mercado verdadeiramente livre nos EUA; e a China e a Rússia são economias mistas, embora tendam a priorizar a o bem-estar da comunidade como um todo, em vez de imaginar que os indivíduos, entregues aos seus próprios interesses egoístas, levariam a uma maximização da riqueza nacional.

O ponto é o seguinte: uma economia inspirada em Adam Smith, somada ao individualismo, está inscrita no Zeitgeist ocidental. Isso não vai mudar. Todavia, a nova política do presidente Vladimir Putin de limpar os estábulos de Aúgias do “capital ocidental predatório” e os exemplos dados pela Rússia em sua metamorfose em direção a uma economia amplamente autossustentável, imune à hegemonia do dólar, é música aos ouvidos do Sul Global e a boa parte do resto do mundo.

Se somarmos isso à iniciativa da Rússia e da China de contestar o “direito” do Ocidente a definir as regras e a monopolizar o meio (o dólar) como a base do estabelecimento da troca entre Estados, com o BRICS+ e a OCX ganhando força, os discursos de Vladimir Putin revelarão sua agenda revolucionária.

Um aspecto continua: como levar adiante uma metamorfose “revolucionária” sem entrar em guerra com o Ocidente. Os EUA e a Europa estão presos. Eles não são capazes de se renovar pois as contradições estruturais políticas e econômicas travaram o seu paradigma. Como, então, desbloquear a situação sem uma guerra?

A chave, paradoxalmente, pode estar com a profunda compreensão que a Rússia e a China possuem das falhas do modelo econômico ocidental. O Ocidente precisa de uma catarse para “desbloquear-se”. Essa catarse pode ser definida como o processo de libertação, e portanto, alívio, de emoções fortes ou reprimidas associadas a crenças.

Será doloroso, não tenha dúvidas, mas melhor do que uma catarse nuclear. Podemos nos lembrar do final do poema de C. P. Cafafy:

Porque a noite caiu e os Bárbaros não vieram.\ E umas pessoas que chegaram da fronteira\ dizem que não há lá sinal de Bárbaros.\ E agora, que vai ser de nós sem os Bárbaros?\Essa gente era uma espécie de solução.

*Alastair Crooke, ex-diplomata britânico, fundador e diretor do Conflicts Forum, sediado em Beirute.

Tradução: Daniel Pavan.

Publicado originalmente no site Strategic Culture Foundation