A política de Ciência & Tecnologia no Brasil – II

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Por RICARDO T. NEDER e RAQUEL MORAES*

A crítica à noção corrente de ciência e tecnologia e o nascimento da tecnopolítica

Este capítulo tem três partes. Na primeira abordamos conceitos e concepções já consolidadas sobre a visão clássica e moderna de ciência, e suas modificações na contemporaneidade. Na segunda parte aprofundamos a apresentação sobre as novas ciências, o que são e como apresentam uma revolução semelhante a do Séc. XVII, e sua relação contraditória com a tecnociência empresarial, num mundo em que a tecnopolítica nasceu para lançar esta disputa para novos campos.  Na terceira seção abordaremos os processos de resistência na universidade e na sociedade diante da necessidade de fortalecimento de um projeto democrático do ensino, pesquisa e extensão das novas ciências em face da tecnopolítica.

1.

Na perspectiva aqui adotada – dos Estudos CTS (Ciência, Tecnologia, Sociedade) e da Educação CTS de Ciências – o ponto de partida é a necessidade de entendimento do conjunto de tendências que unem e ao mesmo tempo, separam as novas ciências da tecnociência.

“Novas ciências” tem sido a denominação atribuída aos múltiplos campos de desenvolvimento da pesquisa científica contemporânea (após as anos 1950, sobretudo). Na sua base deparamos com um conjunto de interdisciplinas formadas por interações entre disciplinas existentes, formuladas para a compreensão de determinados fenômenos.

Entram nessa caracterização a microeletrônica, automação industrial, tecnologias de informação e comunicação, computação, cibernética, ciências dos materiais, genética, biologia evolutiva; neurociências, engenharia genética, análise de sistemas. Múltiplas combinações trans e multidisciplinares passam a ser regidas sob a lógica da interdisciplina que é a expressão de algo muito maior relacionado a tentativa de superação dos limites da especialização das disciplinas, associadas aos experimentos construtivistas de tecnologias científicas que viabilizam registros sofisticados dos fenômenos.

Tornam-se diluídas as fronteiras entre a física, a química  e a biologia, por exemplo, se tornam diluídas. marcam o  desenvolvimento das novas ciências. Tratar-se-ia de uma revolução cientifica que pode ser “(…) equiparada (…) à que ocorreu na época de Newton (…) hoje já não podemos pensar sobre a natureza, a vida, a humanidade sem levar em conta as descobertas que se iniciaram com a cibernética, a epistemologia genética, a computação, os sistemas auto-regulados, adaptativos e autopoiéticos”. (…) quem não se aproximar com inquietude da compreensão e do domínio das novas ciências como ciências da complexidade não entenderá (e praticará mal) não só o que fazer tecnocientífico como também o artístico e o política”(1).

Ambos os campos são afetados pelas mudanças fundamentais que a interdisciplina promove na construção de novas áreas, campos e domínio de conhecimento como um esforço altamente criativo na contemporaneidade de contrapor-se ao cientificismo e às diferentes formas de neopositivismos que dominam as tecnociências com seus operadores tecnológicos associados a modelos empresariais e de negócios.

Embora sejam a base da tecnociência como desenvolvimento tecnológico cultuadas pelas grandes corporações e transnacionais (eufemisticamente chamada de “big science”) as novas ciências envolvem uma configuração muito mais ampla, enquanto movimento político e cognitivo e revolução científica.

As novas ciências (Casanova) apresentam uma margem de incertezas e possibilidades que expressa a  revolução dos potenciais de libertação e socialização de benefícios mediante políticas de C&T que a universidade – como campo privilegiado de ação dos atores – pode realizar (ou negar). Como situar as diferenças entre as novas ciências, e a tecnociência?

Os conceitos de ciência e tecnologia se tornaram tão mesclados que desaparecem as condições mentais e epistemológicas para afirmar a neutralidade da ciência desde o Séc. XX. Podemos questionar se o próprio processo de transformação da prática dos cientistas sob a Revolução Industrial já não veio ao mundo marcado pela associação entre Ciência & Tecnologia.

A separação das novas ciências pode parecer arbitrária, mas para o que importa sob as condições contemporâneas estamos diante da erosão das fronteiras epistemológicas entre dois campos em qualquer país onde ocorra o aprofundamento do tecnocapitalismo (enquanto expressão mais complexa da tecnociência).

Tecnocapitalismo é a expressão do regime econômico que fatalmente fará uso das tentativas de captura e subsunção dos campos científicos pelas tecnociências; porém, reduzir as novas ciências à tecnociência tem sido um ponto controvertido.

Os que se dedicam ao trabalho num laboratório de uma grande empresa ou de uma universidade: fazem ciência ou fazem tecnologia? Talvez simplesmente façam tecnociência em que os velhos limites se encontram cada vez mais esmaecidos”.(2)

Podemos afirmar provisoriamente, que parte substancial da moralidade científica e tecnológica do passado (ou seja aquilo que dava autonomia e credibilidade aos cientistas na sociedade) estava associada rigidamente aos campos disciplinares científicos.

Eram atribuídos a majoritariamente à atuação disciplinar (e em certa medida continua assim) os sucessos em gerar produtos passíveis de serem realizados para resolver as necessidades da sociedade, e fazer ciência para o desenvolvimento da indústria.

Esse modelo de sucesso foi superado quando declina na esfera pública a figura do cientista clássico (o gênio, o excepcional, a pessoa sem a qual as descobertas e aplicações não seriam feitas, caso de cientista do Sec. XIX). O que acontece quando a produção de conhecimento científico de torna parte do empreendimento coletivo seja estatal seja privado capitalista, e os coletivos de trabalhadores tecnocientíficos se tornam demograficamente numerosos?

Estes contingentes emergem com uma moralidade (a da tecnociência) que hoje se funda num quadro coerente de dispositivos,  instituições, regras, normas e recursos em torno dos quais a postura geral é o consequencialismo jurídico formal – este isolamento sistemático e amplo do valor cognitivo ou do conhecimento como produção científica (base da representação da neutralidade) diante de outros valores.

Quando falamos de tecnociências estamos no referindo a este isolamento dos seus valores cognitivos diante das influências da sociedade e do ambiente externo, (via de regra mediante segredo empresarial ou industrial (nesse sentido a política de patentes é uma tecnopolítica). O diagrama exposto a seguir sintetiza a combinatória entre neutralidade científica e determinismo tecnológico:

Figura XXX – A base da moralidade do sujeito tecnocientífico: estratégias materialistas da instrumentação – Adaptado de Lacey(3)

Estratégias materialistas significam criar um campo de demonstração em laboratório ou mediante a construção de dispositivos tecnológicos, a fim de recriar as condições de registro de um fenômeno físico, cujas características são descritas em leis e ordem subjacentes. Estas características são separadas inteiramente da sociedade, ou da natureza como ambiente externo. Corrompida a representação social clássica da neutralidade científica, o que resta?

A representação gráfica acima é parcimoniosa, ainda deixa margens para acreditarmos que a destruição da neutralidade pela razão instrumental tecnocientífica pode ser revertida, e conseguiremos superar a estratégia materialista de excluir  todos os campos das relações com seres humanos.

Se acreditarmos que há esta grande linha divisória, ela está expressa no debate contemporâneo pela tentativa de discriminar um espaço de liberdade e autonomia da universidade nas práticas das novas ciências junto às políticas de C&T, e as de educação na universidade. O que devemos lembrar, está sempre sujeito a situações concretas, aqui e agora, pois no Brasil, diferentemente da maioria dos países latino-americanos como México, Argentina e Uruguai, entre outros, o artigo constitucional 207 da Constituição Federal de 1988, que consagra a plena autonomia da universidade não foi  regulamentado e de tempos em tempos abrem-se os confrontos entre as comunidades acadêmicas e o poder política para definir as regras das Instituições Federais de Educação Superior, IFES (o que será analisado adiante).

II

Uma das razões que nos leva a abordar as articulações contraditórias entre novas ciências e a tecnociência corporativa, decorre do fato de que tornou-se insuficiente a análise crítica da tecnologia como uma expressão da ideologia. Aquilo que foi crítica marcante nos últimos 60 anos (desde Marcuse e Habermas) diante do confronto da reificação (coisificação) de seres humanos convertidos em componentes de dispositivos técnicos,  revelou-se como falsas promessas da tecnologia como libertação do labor exaustivo e repetitivo, escravizador.

A tecnopolítica se inscreveu no lugar cotidiano com marcas de uma outra vivência. Pela tecnopolítica esta dimensão ideológica assume um amplo leque de  mudanças decisivas do poderio tecnológico e suas alterações no modo de produção, dominação e apropriação no cotidiano pelo tecnocapitalismo.

De fato a questão do que seja tecnociência, faz diferença diante da organização do conhecimento sob novas bases que estamos aqui adotando sob a denominação de  novas ciências. Esta ultima dimensão não tem merecido a atenção prioritária do pensamento crítico:

“(…) a quase totalidade da interdisciplina (das novas ciências) deixa de fora um problema central para quatro quintos da humanidade; a quase totalidade da tecnociência deixa de fora as relações de dominação e de apropriação, e a quase totalidade do marxismo crítico ou dogmático deixa de fora uma tecnociência e uma ciência dos sistemas complexos e dinâmicos  que tem servido para compreender e mudar o mundo, e o capitalismo global dominante, e sem cujo conhecimento ficam em condições de debilidade as forças dominadas, exploradas e excluídas (…) uma debilidade superável” (Casanova. op. cit).

A tecnopolítica pode ser definida como a política que está embutida nos artefatos e sistemas técnicos. Eles são portadores de procedimentos e atos em si mesmos aparentemente banais e neutros, mas que nos obriga a ficar vinculados a sistemas complexos mais amplos. Nos quais os aspectos tecnológicos foram previamente estruturados e costurados na vida cotidiana de tal forma que não há alternativas de uso.

A fim de entender esse tipo de desafio são fundamentais as abordagens das Ciências Sociais & Humanidades capazes de fornecer outras chaves interpretativas para as novas ciências que nos permitam libertar o acesso às novas ciências para os estratos sociais das classes trabalhadoras urbanas e rurais, por meio da universidade.

Até o final da Segunda Guerra havia maior resistência ao modelo tecnopolítico imposto por elites militares e civis, mas na maior parte dos países de industrialização antiga cresceram os contingentes técnicos, e estritamente científicos para a casa de milhões entre a população. Tal fenômeno de massificação que deu origem a amplos segmentos com formação técnica nas classes trabalhadoras e essa distinção constitui o principal passaporte de alguém para as classes médias (que se confundem com as antigas classes médias).

Esse processo (muito mais complicado do que é possível resumir aqui em poucas linhas) gera  cumplicidade desses novos segmentos com a disseminação dos sistemas técnicos na sociedade. Grandes contingentes de homens e mulheres passam a depender para sobrevivência desses sistemas; mas ao mesmo tempo, há crescentes indicadores de que os movimentos e posições de resistência se dão nointerior – e não no exterior – dos sistemas técnicos.

Essa nova categoria social com formação tecnocientífica, demográfica e sociologicamente influente pode ser considerada operadores tecnológicos que adquiriram o poder sobre grandes sistemas tecnológicos(4)  Há sessenta anos o surgimento desse grupo social como uma tecnocracia foi antevisto na obra de Herbert Marcuse (1898-1979) sob uma dupla determinação que continua atual.

Tais contingentes são parte do tradicional e mais antigo processo de dominação militar (P&D para indústria bélica onde se concentra a maior parte do orçamento de governos  comparativamente a C&T civis). O segundo aspecto da determinação apontado por Marcuse, ainda atual, foi o fato de que essa camada social tecnocientífica ao atuar como operadores de largos sistemas tecnológicos (nuclear, automobilístico, aeroespacial, mineral,  fármacos e medicamentos, etc) são responsáveis diretos por manter um componente-chave, a hegemonia desses sistemas perante a sociedade. Dependem deles expressar o quanto estes sistemas técnicos são confiáveis, seguros, receptivos, e supostamente a única opção para todo/as. Nos Estudos empíricos e teóricos CTS há muitas evidências sobre as controvérsias acerca de determinismo tecnopolítico, do qual seus protagonistas  buscam lançar mão para manter a hegemonia (crença na eficácia dos sistemas tecnológicos). Este componente talvez seja um dos mais importantes da tecnopolítica, senão mesmo mais relevante do que parece à primeira vista.

Qualquer acidente nesses sistemas acarreta o imediato descrédito (caso das usinas nucleares enquanto política revogada na Alemanha e Japão, mas colocada também sub suspeição na Rússia e nos Estados Unidos). Há necessidade de assegurar uma aparência de consenso e autoexplicação a partir de constantes manipulações  nos sistemas de comunicação, mídias e propaganda, além do disciplinamento da educação científica no sistema escolar(5) .

Essa educação por sua vez, se expressa como disciplinamento de corpos, associada à pulsão do consumo como comportamento psicossocial total. O que resulta em continuada  destruição planejada para o obsoletismo mediante a recriação dos produtos para satisfazer a pulsão do consumo – aspecto também antevisto nos anos 1960 por Marcuse (1972).

Essas são as bases do inovacionismo também chamada de inovação incremental, porque feita de pequenas alterações ou aperfeiçoamentos de estruturas maiores. Esse modelo permite uma sucessão de processos e produtos que invadem o cotidiano das camadas sociais afluentes e chegam a base popular em migalhas.

Nos leva a crer numa versão pacificada, e assustadoramente simplista de inovação tecnológica como se fosse algo obrigatório que leva os objetos a se tornar obsoletos a fim de ceder lugar a um outro produto de geração com “nova” tecnologia.

Esta sucessão se for vista como a única via para a universidade aderir,  significa um empobrecimento abissal que deve ser evitada; em seu lugar são necessária articulações consistentes entre o campo dos agentes da ciência pública, e os agentes sociopolíticos para resolução de graves e históricas demandas da sociedade relegada ao abandono e a exclusão social. Por esses e outros motivos não é possível abandonar o planejamento de ações para reduzir a desigualdade estrutural de acesso a educação, ciência e tecnologia no Brasil.

3

A visão cientificista do mundo despreza os processos políticos de participação ou democracia direta nos locais de trabalho, universidade e no estado que envolvem a escolha de alternativas aos paradigmas da administração científica, entre elas as escolhas tecnológicas.

O que se propõe nessa visão é uma sociedade funcional gerida segundo os princípios da administração científica. A partir dos anos 1970 o saber muda de estatuto ao mesmo tempo que as sociedades entram numa fase supostamente pós-industrial e as culturas na idade dita pós-moderna.

O saber pós-moderno não é somente o instrumento dos poderes, constituindo-se na principal força de produção. Para Lyotard (1924-1998) o Estado e/ou empresa abandona o relato da legitimação idealista ou humanista para justificar a nova disputa.

No discurso dos financiadores de hoje, a única disputa confiável é o poder da tecnopolítica. Não se compram cientistas, técnicos e aparelhos para saber a verdade, mas para aumentar o poder (6).

Assim, o que se constata contemporaneamente, no contexto respaldado pelo discurso do “pensamento único” e do “fim da história” ou “fim das ideologias”, é a existência de um hiperdimensionamento da tomada de decisão pela via dos operadores tecnológicos sob uma tecnocracia, em detrimento da democracia.

Winner cunhou a expressão sonambulismo tecnológico para definir o comportamento na sociedade induzido diretamente pelo Estado e/ou empresa para a legitimação da crença de que a sociedade deve se conformar a uma aceitação passiva diante da chamada “marcha do progresso”. Diante da qual novos artefatos tecnológicos são continuamente produzidos sem qualquer reflexão crítica pública em relação aos aspectos decisórios que levam a essa produção.

É desafio também político-organizacional na universidade para reestruturação da divisão do trabalho epistemológico em torno de fronteiras (in)disciplinares, diante da necessidade de novas sínteses e reelaborações intelectuais, dinâmicas e criativas. São importantes todas as contribuições que pudermos reunir para superar entre as muitas correntes, disciplinas e escolas de pensamento nas Ciências Sociais e Humanas que padecem da tecnofobia(7).

No Brasil, esse enfrentamento passa necessariamente pela articulação de duas frente do trabalho acadêmico de pesquisa e ensino dos docentes: a) envolvimento com a  questão da democratização no acesso de filhos e filhas das classes trabalhadoras à educação gratuita, de qualidade e universal, e

b) a criação de uma mentalidade alargada baseada na plataforma dos Estudos e da Educação CTS de Ciências.O desafio é sobretudo político-cognitivo.

A importância de abordagens interdisciplinares dos Estudos Ciência, Tecnologia, Sociedade e Educação CTS nos ajudam a entender porque no Brasil a política de ciência e tecnologia criou um regime anômalo de produção de conhecimento(8). Essa anomalia está relacionada com o que foi apontado há 35 anos pelo físico José Leite Lopes (1918-2006) em “Ciência e Libertação”, “na América Latina instalam-se, em regra geral, filiais de empresas industriais que se limitam a montar ou a fabricar produtos protegidos por patentes e pelos quais temos que pagar preços elevados” (…) descobertas e inovações são realizadas nos grandes laboratórios dos Estados Unidos e Europa”(9)

Continua contemporânea esta afirmação. Ao descrever um dos principais limitantes para a criação de uma política explícita de ciência e tecnologia no Brasil nos anos 1980. Leite Lopes foi o precursor na luta pela criação de uma área ministerial de C&T na estrutura de poder do Estado brasileiro nesse período (ele tem sido frequentemente esquecido nas comemorações da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC, da Academia Brasileira de Ciências – ABC e da Sociedade Brasileira de Física – SBF).

Os sistemas universitários dos países hegemônicos, lembra Leite Lopes com a experiência de quem passou a maior parte de sua vida profissional na França (exilado durante o regime militar), não podem estimular em países dependentes o desenvolvimento de equipes que possam eventualmente competir com aquelas instaladas nos países centrais.

* * *

Na afirmação em epígrafe de Casanova – “a ciência não é universalmente aplicável, seus métodos não são necessariamente únicos e ela não é politicamente neutra” –  supõe uma dimensão da tecnopolítica: como mudar a maneira de fazer política pública (geral) a fim de ajustá-las (mutuamente) com a política formal de C&T (setorial)?

Na concepção de Amylcar Herrera estamos diante de determinantes sociais da política científica na América Latina (10)Politicamente as ideias de Herrera (desde aos anos 1970) aportaram ao esforço teórico então em curso no plano internacional – dos Estudos CTS assim como na área da economia da inovação tecnológica – de olhar mais para o interior da black box (caixa preta) do que na estratégia de oferta de tecnologia.

Sua distinção entre política implícita e explícita contribuiu com um enfoque multidisciplinar (e com potencial interdisciplinar) pela via da política científica, e não pela via da política industrial e da abordagem da economia da tecnologia (hoje repetida com base em manuais de ensino da corrente inovacionista, em geral subordinadas a negócios como se a inovação tecnológica fosse comandada de fora e a caixa preta ainda hoje se configurasse um problema).

* * *

Para dar conta desses aspectos da realidade, a teoria da abordagem ou adequação sociotécnica (AST) que tem origem nos Estudos CTS difere da teoria da inovação tecnológica para ambientes empresariais. A AST expressa uma relação entre ciência, tecnologia e sociedade específica, que conta com o referencial de senso comum expresso na noção de tecnologia social ou tecnociência solidária(11)  E o que ela nos diz?

Primeiramente aponta um movimento ao mesmo tempo técnico, de formação pela experiência e sociocultural, com três características gerais pedagógicas: incorpora o interacionismo, propõe o modelo de residência / extensão baseado nos princípios da autogestão do conhecimento e saberes, e tem uma plataforma cognitiva que permite aos sujeitos sociais desconstruir e desenvolver uma cultura sociotécnica diante da tecnologia convencional (a teoria da adequação sociotécnica, AST mais adiante extensamente abordada).

Esta abordagem busca dialogar com a educação CTS de ciências.Estas questões são importantes marcos para os significados da luta pela autonomia intelectual e acadêmica da Universidade brasileira e latino-americana por uma ciência pública que construa outra agenda nacional e regional na América Latina capaz de dialogar em escala internacional, de modo diverso do imposto pela diplomacia científica que reproduz as agendas e pautas de pesquisas de um grupo restrito de centros universitários e laboratórios de quatro países do Hemisfério Norte:Estados Unidos, França, Inglaterra e Alemanh.

Muitos contemporâneos de Leite Lopes, caso de Amilcar Herrera (1920-1995), Oscar Varsavsky (1920-1976), Darcy Ribeiro (1922-1997), Luiz Hildebrando Pereira da Silva (1928-2014),  e muitos outros brasileiros, argentinos, cubanos, venezuelanos e demais latino-americanos da mesma geração, lutaram a favor da autonomia científica e do vínculo da formação na universidade, da pesquisa e da pós-graduação às demandas populares em suas sociedades (Che Guevara como médico, político, revolucionário e ex-ministro de C&T de Cuba apontou a relevância da ciência para o povo, do contrário ela estaria contra o povo).

Uma universidade pública sem a autonomia epistêmica leva a perda da diversidade, pluralidade e compartilhamento. Tal constatação nos obriga a explicar como devemos superar a perda de autonomia científica e tecnológica que se dá tanto no plano da produção cognitiva (na universidade) quanto nas políticas governamentais estruturadas fora do eixo da política de C&T.

As políticas de C&T são tradicionalmente pouco aderentes às demandas sociais mais amplas, embora setores estratégicos como saúde coletiva, educação básica e superior, ensino técnico profissional sejam impulsionadas por políticas de variados setores. Como políticas implícitas de ciência e tecnologia expressam as possibilidades de uma tecnopolítica para ampliar as bases do  desenvolvimento socioeconômico inclusivo.

Num sentido amplo (trabalho e renda associados à elevação da escolaridade sob formatos de modelos de educação) esta tecnopolítica da universidade não pode dissociar a produção de conhecimento científico da inclusão social, produtiva e econômica. Para colocar esta plataforma em prática a universidade não precisa de catedrais, mas de casas de farinha e garagens, oficinas e associações, sindicatos e assentamentos da reforma agrária, espaços onde poderão se expressar novas e renovadas formas dasocioeconomia solidária, comunitária e familiar (tópicos que serão abordados nos próximos fascículos).

*Ricardo Neder é sociólogo e economista político, é professor da UnB e editor-chefe da Revista Ciência e Tecnologia Social.

*Raquel Moraes é professora titular de educação e tecnologia na UnB.

Para ler a primeira parte acesse https://aterraeredonda.com.br/a-politica-de-ciencia-tecnologia-no-brasil/

 

Notas


[1]           Pablo González Casanova (2006) AS NOVAS CIÊNCIAS E AS HUMANIDADES – DA ACADEMIA À POLÍTICA. São Paulo, Boitempo.

[2]           Renato Dagnino (2008) NEUTRALIDADE DA CIÊNCIA E DETERMINISMO TECNOLÓGICO. Campinas/SP. Edunicamp.

[3]           Hugh Lacey (2012) Reflections on science and technoscience. SCIENTIAE STUDIA. São Paulo, v.10 special issue. p. 103-28. 

[4]           Andrew Feenberg (2002) TRANSFORMING TECHNOLOGY: A CRITICAL THEORY REVISITED.Oxford: Oxford University Press; e (2013) “Racionalização subversiva, tecnologia, poder e democracia, in Ricardo T. Neder (org.e trad) – A TEORIA CRÍTICA DE ANDREW FEENBERG: RACIONALIZAÇÃO DEMOCRÁTICA, PODER E TECNOLOGIA. Brasília: OBMTS/ Escola Altos Estudos CAPES, UnB Coleção Construção Social da Tecnologia no. 3. (pags.67-97).(2013)

[5]           Estas dimensões comparecem na literatura ECTS de diferentes formas; ver:

Wiebe Bijker (1995A) OF BICYCLES, BAKELITES, AND BULBS: TOWARD A THEORY OF SOCIOTECHNICAL CHANGE. Massachusetts: The MIT Press./ (1995B) Sociohistorical Technology Studies (in) Sheilla Jasanoff et alli. (eds.) HANDBOOK OF SCIENCE AND TECHNOLOGY STUDIES Thousand Oaks, Sage./

Wiebe Bijker, Thomas Hughes,  Trevor Pintch (1987) (eds.) THE SOCIAL CONSTRUCTION OF TECHNOLOGICAL SYSTEMS. NEW DIRECTIONS IN THE SOCIOLOGY AND HISTORY OF TECHNOLOGY. Cambridge,Mass., The MIT Press./

Wiebe Bijker,  John Law (1992) (eds.). SHAPING TECHNOLOGY/BUILDING SOCIETY. STUDIES IN SOCIOTECHNICAL CHANGE. Cambridge, Mass., The MIT Press./

Michel Caloon (1987) society in the making: the study of technology as a tool for sociological analysis”, In Bijker et al. SOCIAL CONSTRUCTION OF TECHNOLOGICAL SYSTEMS. Cambridge. Cambridge University Press.

Pablo González Casanova (2006) AS NOVAS CIÊNCIAS E AS HUMANIDADES – DA ACADEMIA À POLÍTICA. São Paulo, Boitempo.

Langdon Winner (1980) Do Artifacts Have Politics? DAEDALUS, Vol. 109, No. 1, Modern Technology: Problem or Opportunity?  121-136/ 1986) THE WHALE AND THE REACTOR. IN SEARCH OF LIMITS IN A AGE OF HIGH TECHNOLOGY. The Chicago Univ. Press. 

[6]           Jean-Francoisa Lyotard (2000), A CONDIÇÃO PÓS-MODERNA. São Paulo: Loyola.

[7]           Gérard Lebrun, (1996) Sobre a tecnofobia.  In Adauto Cardoso (organizador) A CRISE DA RAZÃO. São Paulo: Ed. Companhia das Letras. (Pags. 471-494).

[8]           Renato Dagnino (2014) A Anomalia da política de ciência e tecnologia RBCS Vol. 29 n° 86 outubro/2014 (PP. 46-55)

[9]           José Leite Lopes (1977) CIÊNCIA E LIBERTAÇÃO. Rio de Janeiro. Paz e Terra.

[10]           Amilcar Herrera (2011) ‘Los determinantes sociales de la política científica en América Latina. Política científica explícita y política científica implícita’, In: Jorge A. Sabato, EL PENSAMIENTO LATINOAMERICANO EN LA PROBLEMÁTICA CIENCIA-TECNOLOGÍA-DESARROLLO-DEPENDENCIA / Jorge A. Sabato. Buenos Aires : Ediciones Biblioteca Nacional (pp. 151-170)

[11]           Renato Dagnino. (2019) TECNOCIÊNCIA SOLIDÁRIA – UM MANUAL ESTRATÉGICO. Marília/SP: Lutas Anticapital.