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Roubando o diário de Jean Genet

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Para Sartre Genet tem, como Montaigne, “o projeto ingênuo e simples de se representar. Mas ele nunca é simples, mesmo consigo próprio”

Por Afrânio Catani*

Muito já se escreveu sobre Jean Genet (1910-1986) e seus livros que, acredito, seria impossível tentar dialogar com a respectiva fortuna crítica nesse reduzido espaço. Vou me valer como apoio apenas de excertos de Patti Smith e de Pierre Bourdieu, que ajudam a mapear um pouco autor e obra, para falar sobre Diário de um ladrão (1949).

Em seu Esboço de auto-análise (Companhia das Letras, 2005) Bourdieu (1930-2002), escrevendo sobre o período em que viveu no internato, entre 1941 e 1947, afirmou que não saberia dizer “tudo o que seria preciso para fazer justiça àquele que viveu tais experiências, aos seus desesperos, aos seus rompantes, aos seus desejos de vingança. Para dar uma ideia, ao invocar o Goffman de Manicômios, prisões e conventos, eu poderia lembrar que o internato apenas se distingue por diferenças de grau, na série das “instituições totais”, de instâncias como a prisão ou o hospital psiquiátrico, ou mais próximo ainda, da colônia penitenciária como evocada por Jean Genet em Le miracle de la rose (Paris, Gallimard, 1945)” (p. 117). Logo em seguida acrescenta: “Creio que Flaubert não estava errado ao pensar que, como escreveu nas Memórias de um louco, “aquele que conheceu o internato conhece aos doze anos quase tudo na vida”” (p. 120).

Na pequena introdução da edição publicada pela Nova Fronteira desse Diário, escrita por Jean-Paul Sartre, lê-se que Genet fala “sem intermediário”, narrando “sua vida, miséria e glória, seus amores” (p. 9). Para Sartre ele tem, como Montaigne, “o projeto ingênuo e simples de se representar. Mas Genet nunca é simples, mesmo consigo próprio” (p. 9). Não é simples mesmo. A narrativa segue ordenada, dá saltos, retorna, divagações aparecem aqui e ali. Patti Smith, em “Santa desobediência”, prefácio à reedição estadunidense de Diário de um ladrão, fala que esta é “sua mais bela obra de ficção autobiográfica”, dedicada a Sartre e a castor (Simone de Beauvoir).

Se pudesse ser resumido em uma única frase o conteúdo de seu texto, eu me valeria do que ele escreveu à página 190: “A traição, o roubo e a homossexualidade são os assuntos essenciais deste livro”. E completa: “uma relação existe entre eles, se não sempre aparente, pelo menos penso reconhecer uma espécie de troca vascular entre o meu gosto pela traição, o roubo e os meus amores” (p. 130).

Genet trai quase todos os seus amantes, Stilitano, René, Armand, Robert, Salvador, Lucien, Guy. Anda por toda a Espanha, pela França, vive em Marselha roubando, se prostituindo, assaltando e se relacionando com homens que tinham sua graça, seu charme ou um membro fabulosamente bem-dotado.

Nasceu em Paris, em 19 de dezembro de 1910, abandonado pela mãe e com pai desconhecido, tornou-se órfão aos cuidados do Estado. Foi criado no Morvan por camponeses, mas já aos 16 anos era infrator, sendo levado à casa de detenção para menores de Mettray, onde ficou até os 21 anos. Fugiu, alistou-se no exército por cinco anos e ao fim de poucos dias desertou, roubando malas de oficiais (p. 38).

A frase inicial do Diário tem exatas 9 palavras: “A roupa dos forçados tem listras rosas e brancas” (p. 13). Suas prisões vão numa sequência alucinante, dos 16 aos 30 anos: de jovens, de adultos, detenções por falta de documentos, por mendicância. Diz ele que nunca foi preso enquanto estava roubando ou dando golpes. Caminhava incessantemente, roupas em frangalhos, sozinho, verdadeiro mendigo, vivendo de pequenos furtos e roubando dinheiro da caixa de esmolas das igrejas, com uma varinha molhada de cola (p. 78).

Não cometeu assassinatos, preferindo crimes que entende como mais aviltantes: o roubo, a mendicância, a traição, o abuso de confiança (p. 83). Viveu em Berlim se prostituindo e contou que tinha 15 ou 16 nomes distintos para minorar os efeitos de novas prisões (p. 96 e 103). Detalha sua ação de ladrão, as sensações corporais que isso ocasiona, os golpes que aplicava em veados com outros parceiros: “Continuava [em Marselha] na minha profissão de ladrão, despojando de noite o veado que me escolhera. As putas da rua Bouterie (esse bairro ainda não fora demolido) compravam de mim os objetos roubados” (p. 146).

Ao mesmo tempo em que procurava não ser preso, dizia que não se importava com as detenções, narrando mais de uma vez atos de solidariedade recebidos quando colocado no regime de solitária. Chega a afirmar que “a prisão me cerca de uma garantia perfeita. Tenho certeza de que foi construída para mim” (p. 70). Aspirava ser preso e enviado à Guiana Francesa, na chamada Ilha do Diabo, no presídio de Saint-Laurent-du-Maroni, para ele um território sagrado, onde se detinham os criminosos mais temidos de seu país. Entretanto, a prisão foi desativada antes de ele poder chegar lá.

Patti Smith, em Linha M, fala da viagem que fez até aquele cárcere, visitou as celas abandonadas – examinou “os esmaecidos grafites tatuados nas paredes. Colhões peludos, pintos com asas, o órgão primordial dos anjos de Genet” (p. 20). Ela colheu algumas pequenas pedras e um pouco de terra da prisão e, muitos anos depois, depositou-os no túmulo de Genet no cemitério cristão Larrache, no Marrocos.

O livro foi escrito, em grande parte, quando ele tinha 35 anos, sendo completado até sua publicação, em 1949. Logo nas páginas iniciais escreveu nesse diário que a mais simples razão por ter se tornado ladrão foi a necessidade de comer. Entretanto, agrega que em sua escolha jamais entraram a revolta, a amargura, a raiva ou qualquer sentimento dessa natureza. “Com um cuidado maníaco, “um cuidado ciumento”, preparei a minha ventura como se arruma uma cama, um quarto para o amor: eu tive tesão pelo crime” (p. 15).

Já consagrado, Genet foi “marginal” até o fim de seus dias. Vivendo no Marrocos, viajou a Paris com seu companheiro Jacky Maglia para revisar as provas de seu último livro. Sua residência em Paris era o Hôtel Rubens, mas foi barrado por “um funcionário do turno da noite [que] não o reconheceu e se sentiu incomodado com sua aparência de vagabundo” (Smith, 2016, p. 184). Ambos saíram debaixo de chuva torrencial e acabaram no Hôtel Jack, ‘na época um sórdido uma estrela perto das Place d´Italie” (Smith, 2016, p. 184). Estava com câncer terminal na garganta e evitava tomar analgésicos para ficar lúcido e arrematar seu livro – ele que, a vida toda, tomou barbitúricos. A morte o encontrou nesse hotel, num minúsculo quarto, com o manuscrito intacto na mesinha de cabeceira (Smith, 2016, p. 184).

Conversando com a atriz e produtora cultural Ruth Escobar quando de sua visita ao Brasil nos anos 1970, mais de uma vez Genet a recriminou, acrescentando que “a vida é um estelionato”, enquanto a ensinava a imitar sua assinatura em livros de sua autoria que ele se recusava a autografar.

Dá para ler várias vezes com prazer esse Diário de um ladrão. Apenas acrescento que o exemplar que tenho em mãos foi comprado em um sebo e, ironicamente, contem a marca de um carimbo onde se lê “Venda Proibida”. Viva Saint Genet!

*Afrânio Catani é professor aposentado da USP e professor visitante na UFF.

Referências

BOURDIEU, Pierre. Esboço de auto-análise. São Paulo: Companhia das Letras, 2005 (https://amzn.to/3QN96kK).

GENET, Jean. Diário de um ladrão. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015 (https://amzn.to/45y54AX).

SMITH, Patti. Linha M. São Paulo: Companhia das Letras, 2016 (https://amzn.to/45CrqkW).

SMITH, Patti. Santa desobediência. Folha de S. Paulo, 19.08.2019. Acesse aqui.

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