A produção de commodities

Imagem: Oto Vale
image_pdf

Por RAIMUNDO PIRES SILVA*

O agronegócio não está comprometido com a democratização da terra ou um projeto de alimentação saudável

O agronegócio, associado aos meios de comunicação de massa, difunde uma noção difusa de modernidade, de produtor de alimento, de produção sustentável e de gerador de divisas no mercado internacional, infundindo certo consenso mítico nacionalista junto á sociedade. Por seu turno, o agronegócio, de fato, é um modo de produção de commodities desnaturalizado, com caráter dependente e associado ao capital financeiro global, como se segue.

As commodities  agrícolas no contexto global da comercialização contemporânea foram, cada vez mais, influenciadas pelos movimentos especulativos, se tornando uma classe de ativo financeiro. Anteriormente, os derivativos de commodities eram utilizados como instrumento de hedge, contrapondo a volatilidades dos preços desses bens.

Recentemente, houve a incorporação desses mercados pela especulação mundial, estabelecendo uma correlação entre as commodities e outros segmentos financeiros, um processo rentista descolado da produção real.

Bancos, como o Goldman Sachs, o Morgan Stanley e o Citibank, assim, como outros atores financeiros migraram para esse mercado. Por exemplo, a BlackRock, uma das maiores empresas de investimento do mundo, tem um Fundo de Agricultura para investir em ativos como: mercado futuro de commodities agrícolas, terras rurais e empresas transnacionais de suprimento de commodities e insumos. Em sua carteira de ações estão as da Monsanto, Syngenta, Tyson Foods, Deere e Co e a ADM, entre outras.

As empresas transnacionais de suprimento de commodities e de insumos (fertilizantes e agrotóxicos) agrícolas compõem suas atividades com as formas especulativas-financeiras. Um número restrito dessas empresas (oligopólio) controla as principais cadeias de commodities e de insumos com a infraestrutura financeira correspondente e o sistema especulativo complementar dos derivativos. Intervém nas flutuações do mercado financeiro global, inclusive na provocação e aproveitamento dessas flutuações.

Deste seleto grupo transnacional, atuam no mercado nacional de commodities: Cargill, ADM (Archer Daniels Midland), LDC (Louis Dreyfus Company) e Bunge. Mais recentemente, o grupo Wilmar, de Cingapura e a estatal chinesa Cofcoa. No de agrotóxicos, Syngenta, Bayer, BASF e DuPont. No de fertilizantes está hegemonizado pela Norsk Hydro e Mosaic.

Na manufatura de bens intensivos de recursos naturais (agroindústrias de açúcar/álcool, papel/celulose, suco e carne, entre outras) houve a transformação do perfil de gestão, tanto com a presença de capitais estrangeiros no controle da cadeia de valor, como a internacionalização de ativos nacionais. Este processo sucedeu, principalmente, através de fusões e aquisições comandadas por bancos e outras instituições financeiras. Um exemplo, é a agroindústria canavieira com a entrada de capital externo como ativos físicos; e outro exemplo, é o setor do processamento da carne, onde a JBS galgou a ser a principal fornecedora mundial de carne bovina do mundo.

O mercado de terra e o rentista mundial se mesclaram no território nacional, com o investimento do capital financeiro na busca de valorização/especulação fundiária, o qual se tornou aparente após 2008, em decorrência da crise econômica. A compra de terras combinada com a especulação nos mercados financeiros determinara a expansão de empresas de negociação de terras agrícolas (compra, venda e arrendamento), tendo como principal fonte de recursos financeiros os fundos de investimento globais – a terra um ativo financeiro global.

Por exemplo, a SLC Agrícola (maiores produtores de grãos e fibras do mundo) administra a SLC Land em joint venture com o fundo inglês Valiance, controlando quase meio milhão de hectares de terra.

A companhia Radar Imobiliária Agrícola S/A, controlada pelas empresas COSAN limited e Mansilla Participações, (sócia majoritária, da qual o fundo de pensões TIAA – Teachers Insurance and Annuity Association of America – é proprietário integral), administra cerca de 300 mil hectares.

O capital financeiro terceiriza os negócios com terras, se isentando de responsabilidade por impactos causados com a especulação no campo brasileiro, já que não são proprietários diretos das terras – uma característica oculta na apropriação a respeito da origem de fato do capital.

Por fim, o capital financeiro global busca alçar à terra a lógica rentista, transformando a propriedade fundiária em uma oportunidade de ativo financeiro, independentemente da produção primária real. Por esse motivo, o governo atual editou a Medida Provisória (MP) 892/2019, transformada na Lei Ordinária 13986/2020. Essa Lei ordinária instituiu a afetação de propriedade, ou seja, o desmembramento da propriedade para efeito de garantias do crédito, não sendo mais necessário comprometer o total da propriedade, e constituiu a CIR (Cédula Imobiliária Rural), a qual poderá ser negociada no mercado de títulos e valores mobiliários.

Isto posto mostra uma sujeição da soberania territorial e agrícola aos interesses imperativos do agronegócio. Um modo de produção que deixou de ser nacional, adaptando-se a processos que redefiniram sua funcionalidade ao capital global.

*Raimundo Pires Silva é engenheiro agrônomo, doutor em Desenvolvimento Territorial e Ambiental pela UNIARA.

Publicado originalmente no jornal Brasil de Fato.

 

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Rússia e China na guerra no Irã
18 Mar 2026 Por VALERIO ARCARY: No xadrez geopolítico da guerra contra o Irã, Rússia e China movem suas peças com cautela: Moscou não pode, Pequim não quer — e o regime persa descobre, na solidão estratégica, que alianças têm limites quando os interesses das potências apontam em outra direção
2
Em defesa das bibliotecárias e bibliotecários
12 Mar 2026 Por FELIPE SANCHES: As bibliotecas estão atravessadas pela política e, se negarmos seu papel político, fechamos os olhos ao seu papel estratégico no desenvolvimento cultural, educacional, científico e econômico do Brasil
3
No radar geopolítico – EUA x Irã
14 Mar 2026 Por RUBEN BAUER NAVEIRA: O que o Irã pretende é forçar os americanos a pedirem por negociações que não serão por algum "cessar-fogo", mas que envolverão concessões dolorosas, como o fim de todas as sanções e o desmantelamento das bases militares americanas no Oriente Médio
4
Os impactos da guerra no Irã
16 Mar 2026 Por LUIS FELIPE MIGUEL: Ao atacar o Irã sem estratégia, Trump revela o vazio de sua política externa e a submissão a Israel; no Brasil, o impacto imediato é a alta dos combustíveis, que exige do governo Lula coragem para romper de vez com a paridade internacional e proteger a economia popular do choque inflacionário
5
Além de Jürgen Habermas e Richard Rorty
19 Mar 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: Ou nos parecemos com o que a Inteligência artificial e a internet nos fornece, ou não acreditamos na nossa própria realidade! Estamos no mundo, ontologicamente, se estamos na infosfera
6
A “filosofia” do cérebro podre
15 Mar 2026 Por EVERTON FARGONI: Uma crítica radical à colonização algorítmica da consciência, onde a promessa de prazer imediato culmina na falência do pensamento, da autonomia e da vida democrática
7
Hamnet – a vida antes de Hamlet
11 Feb 2026 Por GUILHERME E. MEYER: Comentário sobre o filme de Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
8
Pecadores
16 Mar 2026 Por BRUNO FABRICIO ALCEBINO DA SILVA: Comentário sobre o filme dirigido por Ryan Coogler , premiado com quatro estatuetas no Oscar 2026
9
Fernando Haddad entrevistado por Breno Altman
19 Mar 2026 Por RODRIGO PORTELLA GUIMARÃES: Há uma relação de trabalho muito diversa do operariado dos séculos XIX e XX, que implica um novo projeto de esquerda. Precisamos compreender na prática as novas frações de classe e desafios, provocação central ofertada por Fernando Haddad
10
Jürgen Habermas (1929-2026)
16 Mar 2026 Por MARCO BETTINE: Filósofo da esfera pública e do agir comunicativo, Habermas recusou o pessimismo da primeira geração frankfurtiana para mostrar que a modernidade ainda pode fundamentar racionalmente a crítica social
11
Um país (des)governado
13 Mar 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: A guerra no Irã não é imperialismo, é o espasmo de um país sem projeto, governado por um homem que trocou promessas por bombas
12
A pornô-política
14 Jun 2020 Por RICARDO T. TRINCA: O político obsceno tem prazer pelo domínio, sob a forma de uma prestidigitação, algo que pode ser encontrado também nos mágicos
13
Sonhos de trem
14 Mar 2026 Por VANDERLEI TENÓRIO: Comentário sobre o filme dirigido por Clint Bentley.
14
A honra de Donald Trump e a de Cuba
19 Mar 2026 Por GABRIEL COHN: O desafio atual para o Brasil consiste em não permitir que os EUA se ponham como núcleo e árbitro da nova ordem, como nesse momento tentam fazer em relação aos seus possíveis competidores
15
Por que a música?
15 Mar 2026 Por FRANCIS WOLFF: Trecho da primeira parte do livro recém-editado
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES