À roda de Antônio Vieira

György Kepes, Roda da locomotiva, c.1939–40,
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Por EDUARDO SINKEVISQUE*

Comentário sobre o livro recém-lançado de Ana Lúcia Machado de Oliveira

“Se a roda do tempo, paradoxalmente traz em si mesma a roda da eternidade, o desejo que a move faz parecerem eternos os instantes e os dias, quando ele [Vieira] se une à roda do tempo, provoca a sua multiplicação infinita” (Ana Lúcia Machado de Oliveira).

1.

À roda de Antônio Vieira – ensaios escolhidos compõe-se de ensaios escolhidos como diz o título, e de ótimos ensaios escolhidos e ótimas escolhas. A professora e pesquisadora da UERJ reúne, no volume, trabalhos apresentados em eventos acadêmicos variados nacionais e estrangeiros, ou publicados em periódicos especializados etc.

Para além das ótimas escolhas de leitura de sermões vieirianos, interpretações, análises, relações traçadas, um dos méritos do primoroso livro é o de, com coerência analítica, sistematizar coisas (res) dispersas em virtude da própria “natureza” dos textos. Em outras palavras, a reunião não é um mero ajuntamento de textos de uma auctoritas, no caso da etiqueta Padre Antônio Vieira. A reunião sistematiza uma abordagem que se vem consolidando desde que Ana Lúcia iniciou seus estudos vieirianos.

Antes de enfrentar os ensaios, é preciso dizer que, “Do livro e do método”, bem como o “Preâmbulo: Ainda o ‘sequestro do barroco’ do cânone da literatura brasileira – o caso Antônio Vieira’”, localizam o leitor, ainda que sumariamente, nas discussões sobre a prédica seiscentista, em particular a de Vieira, sobre o próprio Padre, explicitando a visada que norteia os ensaios.

Também não posso deixar de mencionar a epígrafe, retirada de Padre Vieira do “Sermão de Santo Inácio”, para abrir o livro: “o melhor retrato de cada um é aquilo que escreve. O corpo retrata-se com pincel, a alma com pena”. Vejo de saída a visada que se emprega no livro, ou seja, que ela é retórica, pictórica, teológico-política. Vejo na formulação de Vieira escolhida para abrir os ensaios ut pictura sermão, ut pictura oratória sacra. Inclusive, vejo a conjugação do ato de ver com olhos empíricos e com olhos d’alma.

Ainda mais, a epígrafe condensa aquilo que Ana Lúcia amplifica ao explicar, por exemplo, que Vieira compõe um retrato de si mesmo, um retrato do orador sacro que foi, em seus discursos, principalmente no ensaio que encerra o volume, em que dois sermões ao menos são lidos: “Sermão de Santo Antônio aos peixes” e “Sermão de São Roque”.

Ana Lúcia Machado de Oliveira, vieiriana conhecida dos que estudam letras e práticas letradas seiscentistas, autora também de Por quem os sinos dobram: uma abordagem das letras jesuíticas (Eduerj, 2003), livro também sobre Padre Vieira, entre outras inúmeras publicações, no livro, que ora comento, apoia-se em estudos com os de João Adolfo Hansen, Alcir Pécora, Luiz Costa Lima, Benedito Nunes, discutindo ideias de Antonio Candido e Haroldo de Campos, especificamente na contenda conhecida sobre o chamado barroco.

2.

Aqui é preciso fazer uma pequena digressão. Sobre os principais trabalhos de Hansen e de Pécora, pressupostos também da ensaísta no livro em questão, trata-se da hipótese da “unidade teológico-político-retórica”. Hipótese com a qual João Adolfo Hansen (nos anos 1980) lê a poesia atribuída a Gregório de Matos Guerra. Depois, com qual Alcir Pécora (nos anos 1990) lê os sermões do Padre Antônio Vieira.

Em linhas gerais, por teológico-político pode se entender o campo doutrinário das idéias e pensamentos aristotélico-tomistas da chamada “segunda escolástica” mobilizados nas Letras dos séculos XVI, XVII e XVIII, na doutrina do poder absoluto. Os lugares-comuns dessa doutrina são quase sempre interpretados providencialmente nos diversos gêneros discursivos que as práticas letradas desempenham.

Por retórico, pode-se entender retóricas em usos. Em outras palavras, as atualizações de Aristóteles (Retórica, Poética, Ética); Cícero (Do Orador, principalmente), de Quintiliano (Intituição Oratória), entre outras. Reposições (atualizações) de gêneros (demonstrativo, deliberativo, judicial) e de categorias da invenção, da disposição e da elocução. Nos séculos XVI/XVII/XVIII, letrados/artífices não separam esses três conceitos, mas os entendem como unidade indivisível.[1]

Em oposição às leituras românticas (a respeito de Gregório de Matos / Antônio Vieira), esses trabalhos, semelhantes nas diferenças, operam indução, não deduções, pois não aplicam critérios exteriores aos objetos estudados; ao contrário, propõem “arqueologias”, reconstruções de modelos, levando em conta os modos de pensamento das invenções (retóricas) dos textos, bem como as constituições, circulação e recepção dos textos.

Como João Adolfo Hansen adverte, na nota à segunda edição de A sátira e o engenho, sua tese “reconstitui a primeira legibilidade normativa da sátira atribuída desde o século XVIII ao poeta seiscentista Gregório de Matos e Guerra. É legibilidade modelada como retórica do conceito engenhoso e teologia-política neo-escolástica, incluindo-se na racionalidade de Corte da ‘política católica’ portuguesa do século XVII”. (op. cit., p. 23).

A tese nuclear do trabalho mencionado de Alcir Pécora é a de que em Antônio Vieira (Sermões) a linguagem é como sacramento, figura o sacramento futuro, pois semelhante ao poder da consagração eucarística. O tema fundamental do trabalho é a investigação sobre as alegorias sacramentais em Antônio Vieira. Há nos textos crença eucarística (eucaristia; comunhão corpo/sangue; divino/humano; finito/infinito) análoga em relação à palavra na produção da presença divina em um processo de conversão místico que age sobre almas singulares, mas também na formulação de políticas de Estado.

Em co-presença ou concorrência, no sentido de correr junto, ao lado, a professora e ensaísta lê também os estudiosos estrangeiros Margarida Vieira Mendes, Aníbal Pinto de Castro, Hans Robert Jauss, Francis Yates, Charpentrat, Jean Delumeau, Didi-Huberman, Paul Zumthor, Philippe Arriès etc. Sem falar nas leituras que faz de retores antigos como Quintiliano, Cícero, Aristóteles entre outros pensadores como Platão e os tratadistas do século XVII como Emanuele Tesauro, Baltasar Gracián, Sforza Pallavicino, cujos usos seiscentistas em Vieira Ana Lúcia aborda em sua análise que considera as práticas teológico-político-retóricas na esteira das lições de João Adolfo Hansen e de Alcir Pécora, principalmente.

3.

Os ensaios todos têm uma medida em se tratando de extensão em páginas, tem regularidade, são harmônicos e proporcionais entre si. Ação calculada ou não, Ana Lúcia Oliveira compõe um livro que prima pela proporcionalidade, em tom alto, grave quase como em emulação aos objetos de estudo.

Neste sentido, a ensaísta oferece aos leitores um menu, ou uma ementa, pensando eu em termos de saber/sabor, e não apenas em índice ou sumário das matérias, textos etc. do livro. Saber porque obviamente Ana Lúcia Oliveira em À roda de Antônio Vieira produz conhecimento. Sabor porque os textos são saborosos à leitura, são de leitura fluida, em estilo médio didático, mas também deleitoso. Isto é, combinam ensino e deleite.

Entrando na roda dos ensaios, penso que cada um deles tem uma primeira parte que localiza muito bem o leitor, quais são os pressupostos, qual será a visada de leitura/interpretação, as coisas (res) que pertencem ao século XVII, às vezes XVI, às vezes ultrapassando o XVIII. Em uma segunda parte, há o estudo de caso da peça sermonária em questão, quando a ensaísta particulariza a discussão com Antônio Vieira.

No menu-ementa-sumário a ensaísta oferece pratos-textos quentes, em um banquete, com ingredientes tais quais: Vieira e a ut theologia rhetorica, Deus pictor, a moralização da morte, alegoria e decoro em Antônio Vieira, a crítica à vaidade feminina, figurações do útero mariano, as atividades vieirianas na corte e junto aos indígenas da América Portuguesa, o ethos do orador sacro etc.

Na roda, que pode ser roda da fortuna, nunca roda dos enjeitados, Ana Lúcia Machado de Oliveira lê e interpreta segundo a forma mentis seiscentista as particularizações, atualizações, reciclagens vieirianas em sermões como a “da Sexagésima”, os 15 sermões a Francisco Xavier, sermão de cinzas (com temas da morte, desengano, salvação), “Sermão de Santo Antônio aos peixes”, “Sermão do demônio mudo”, sermão a Nossa Senhora do Ó, “Sermão de São Roque” etc.

Basicamente, Ana Lúcia Oliveira em À roda de Antônio Vieira – Ensaios escolhidos, opera com dois grandes movimentos na sinfonia que compõe com os textos. Todos os ensaios anunciam o tema central do debate, abordam questões gerais do século XVII e das letras do (e no) século XVII, particularizam o debate com Padre Vieira, muita vez, se não sempre, voltando ao geral, concluindo o pensamento, a interpretação, a análise. Com agudeza, Ana Lúcia parte do geral para o particular, gesto que imprime grande persuasão e, por que não, adesão.

Eu entrei na roda de Antônio e de Ana Lúcia Eu estou nesta roda. E estou à vontade. Recomendo aos leitores entrarem também; ficarem à vontade.

*Eduardo Sinkevisque é pós-doutor em Teoria Literária pela Unicamp. Autor, entre outros livros, de Poemas da Branca (Árvore Digital).

Referência


Ana Lúcia Machado de Oliveira. À roda de Antônio Vieira – Ensaios escolhidos. Rio de Janeiro, 7Letras/Faperj, 2025, 176 págs. [https://amzn.to/4pYt76L]

Nota


[1] Cf. HANSEN, João Adolfo. A sátira e o engenho. Gregório de Matos e a Bahia do século XVII. 2ª ed. São Paulo: Ateliê Editorial/Editora da Unicamp, 2004. (1ª ed. 1989).

Cf. PÉCORA, Alcir. Teatro do Sacramento: a unidade teológico-retórico-política dos sermões de Vieira. São Paulo/Campinas: EDUSP/Editora da Unicamp.

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