Para onde vai a Argentina?

Imagem: Alex Umbelino
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Por GUSTAVO CAPONI*

O progressismo e a reação conservadora hoje se enfrentam na Argentina como já se enfrentaram no Brasil; e o resultado do embate pode ser lamentável

Imagino que muitos brasileiros, quiçá nem tantos assim, devam estar se perguntando pela encruzilhada eleitoral pela qual a Argentina está atravessando. É de esperar-se, sobretudo, que eles tenham alguns interrogantes com relação às semelhanças e diferenças que possam existir entre as figuras do Javier Milei e Jair Bolsonaro.

Sendo evidente, em primeiro lugar, que as semelhanças entre eles são muitas e muito relevantes: as duas figuras são claras manifestações dessas lideranças de ultradireita que hoje abundam em todo o mundo, se oferecendo como pretensas alternativas antissistema capazes de desafiar um establishment cujo elemento mais saliente e negativo seria, justamente, o progressismo.

Javier Milei, como Jair Bolsonaro, fez da esquerda seu grande inimigo ideológico; embora ele, Javier Milei, não fale do ‘comunismo’ e sim do ‘zurdaje‘: o ‘esquerdismo’. Por outra parte, do mesmo modo em que o brasileiro apontou ao PT, e a Lula, como sendo as expressões locais dessa ideologia vilipendiada, Javier Milei escolheu ao kirchnerismo, e a Cristina Kirchner, como as encarnações desse mal a exorcizar.

Ambos, além disso, propalam um discurso explicitamente anti-direitos que surfa sobre as ondas da ideologia dominante, sempre fortemente respaldada pela mídia hegemônica. Um discurso ao qual, paradoxalmente, parecem aderir aqueles que seriam os primeiros a serem prejudicados pela definitiva negação desses direitos.

A mídia, cabe apontar, não precisa apoiar explicitamente a estes personagens; e até pode se permitir tomar alguma distância delas. As ‘evidências’ que essa mídia instala, e o descrédito dos movimentos populares que ela promove, servirão, de todo modo, como respaldo para essas propostas esdrúxulas que as oligarquias não deixam de apoiar por abaixo ou por acima da mesa.

Sendo digno de apontar, neste sentido, que Javier Milei é uma figura parida pela própria mídia. Ele não tem a longa trajetória na irrelevância política do centrão ‘baixo clero’ que tinha Jair Bolsonaro; nem tampouco teve que valer-se das fake news para desgastar seus adversários. Diferentemente de Jair Bolsonaro, Javier Milei se limitou a aproveitar a catarata de injúrias e calúnias que mídia hegemônica, regular e copiosamente, solta sobre os líderes e movimentos políticos do campo popular.

Essa não é, todavia, a diferença mais importante que existe entre o fenômeno Bolsonaro e o fenômeno Milei. Há outras mais relevantes. A primeira e mais óbvia é a circunstância de Javier Milei não ser a única proposta de ultradireita que chegará bem posicionada às eleições presidenciais de outubro. Também está a candidatura de Patricia Bullrich: a triunfadora nas primarias do partido do ex-presidente Mauricio Macri. Seu discurso, frequentemente empapado em Malbec, não se diferencia muito do discurso vociferado por Javier Milei; compartindo, sobretudo, a mesma falta de sustento e o mesmo caráter definitivamente delirante.

E, em alguns aspectos, inclusive, Patricia Bullrich parece mais semelhante a Jair Bolsonaro do que o próprio Javier Milei. Ela, por exemplo, insiste mais na ‘mão dura’ policial; inclusive como reposta ao protesto social. As suas propostas para a política de segurança pública apelam, explicitamente, ao ‘gatilho fácil’ e ao armamento dos ‘cidadãos do bem’ para eles mesmos se defenderem dos marginais hoje protegidos pelos juízes ‘garantistas’.

Tudo isso é algo que Javier Milei subscreve, mas que ele não coloca no centro de seu discurso. Este último gira, fundamentalmente, sobre esquisitas, e incendiarias, divagações anarco-capitalistas que aludem à política económica que ele conduziria uma vez chegado ao poder. Diferentemente de Jair Bolsonaro, Javier Milei posa de intelectual. Ele quer ser inteligente e não bestial. Mas, nesse sentido e avaliados em virtude dos objetivos perseguidos por um e outro, há que dizer que Jair Bolsonaro foi mais bem-sucedido do que Javier Milei. Sua estética, também vale assinalar, não é a dos músicos sertanejos; mas sim a dos músicos de rock.

Isso pode explicar o fato de ter sido Patricia Bullrich quem conquistou o voto da classe média, e meia alta, mais envelhecida e conservadora. Javier Milei, em troca, colheu seus votos entre os mais jovens. Até agora, seus apoiadores são alguns estudantes de classe média e, sobretudo, jovens pertencentes ao proletariado precarizado de bairros pobres e favelas.

Entendo, entretanto, que os setores que apoiam Patricia Bullrich não duvidarão em apoiar Javier Milei, caso a candidata deles fique fora de um ‘segundo turno’ no qual o peronismo seja uma das alternativas. Infelizmente, é muito possível que, quando chegue a hora H, o bloco eleitoral reacionário funcione como funcionou quando a vitória de Jair Bolsonaro frente a Fernando Haddad. O antiperonismo é uma paixão mais velha que o antipetismo, mas nem por isso mais fraca.

Há que dizer, por outro lado, que nem Milei nem Bullrich fazem tanta insistência na ‘agenda de costumes’ quanto Bolsonaro fez; nem tampouco seus discursos, nem o de Javier Milei nem o de Patricia Bullrich, estão tão permeados por invocações religiosas. Contudo, em ambos os casos, essa agenda cultural tem seu lugar; e, no discurso de Javier Miliei, a importância da religião não deixa de crescer. Sendo possível, além disso, que ele esteja recebendo apoio de algumas igrejas evangélicas; que são menos poderosas do que as brasileiras, mas igualmente reacionárias.

Porém, se por esse lado a ultradireita argentina está menos bem parada do que a brasileira, nesta conjuntura eleitoral ela corre com uma vantagem adicional: a performance do governo de Alberto Fernández foi, de longe, muito inferior à performance do governo de Dilma Rousseff. A inadministrável dívida externa herdada da desastrosa gestão de Mauricio Macri, a pandemia, a guerra de Ucrânia e a estiagem em ano eleitoral, foram calamidades muito difíceis de superar; e todo se agravou com a extremada moderação, a firme indecisão, a decidida falta de coragem, e a obstinada incapacidade de esforço, que caracteriza ao atual presidente: sempre mais in absentia que em exercício. Por outro lado, Sergio Massa (o candidato oficialista) é uma figura muito, mais muito, menos confiável e atrativa do que Fernando Haddad. E last but not least, está o FMI; que descaradamente jogou a favor de Mauricio Macri nas eleições de 2019 e hoje joga abertamente contra Sergio Massa.

Por fim, e já mais no terreno anedótico, há que dizer que tanto Javier Milei, quanto Patricia Bullrich e Jair Bolsonaro, são figuras igualmente sórdidas e estapafúrdias. Com estilos diferentes, sim, mas igualmente ridículas. Que elas tenham algum apoio popular fala de uma profunda crise cultural, de uma lamentável indigência cognitiva, e inclusive moral, que afeta a grande parte do eleitorado.

Mas, além disso, esse apoio também deixa em evidência uma persistente incapacidade para interpelar ao povo que aflige ao progressismo em geral e não somente ao progressismo argentino. Suas tímidas políticas o debilitam, e seu discurso moderado o afunda na irrelevância. Mas conste que uso essa palavra, ‘progressismo’, sem ironia e sem nenhuma carga pejorativa. Eu a uso porque seu significado é claro, opondo-se àquilo que é reacionário e conservador. O progressismo e a reação conservadora hoje se enfrentam na Argentina como já se enfrentaram no Brasil; e o resultado do embate pode ser lamentável.

Os argentinos podem pagar caro o novo, e indesculpável, erro que uma parte importante do eleitorado parece prestes a cometer. E o fato de um engano ser explicável não faz que ele deixe de ser um erro. Para além da retórica etílica de Patricia Bullrich, e independentemente das referências a suas vidas passadas, e às de seu cachorro, feitas por Javier Milei, o fato é que o triunfo dela ou dele, conduziria a algo já penosamente conhecido pelos argentinos: o mesmo ajuste neoliberal e a mesma primarização da economia promovidas pela ditadura e pelos governos de Carlos Menem e Mauricio Macri.

*Gustavo Caponi é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).


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