A virulência da nova direita

Imagem: Luiz Armando Bagolin

Por LUIZ MARQUES*

Os pensadores da nova direita pavimentaram o caminho para o neoliberalismo e o neofascismo

Wikipédia – “Roger Vernon Scruton (1944-2020) foi um filósofo e escritor inglês com especialidade em Estética. Abraçou o ideário do conservadorismo depois de testemunhar os protestos estudantis do maio de 1968. Tem sido apontado como o intelectual conservador mais bem-sucedido na defesa da ordem e das instituições estabelecidas, opondo-se às mudanças na configuração das famílias, das comunidades locais e das convenções sociais, – desde Edmund Burke (1729-1797), o notável membro do parlamento londrino pelo Partido Whig e crítico ferrenho da Revolução Francesa”. Para os conservadores, inclusive os preconceitos precisam ser mantidos para garantir a estabilidade social. Se entende, assim, a aversão às políticas progressistas e aos movimentos revolucionários.

Camila RochaMenos Marx, Mais Mises (Todavia). “A consolidação da nova direita no mercado editorial brasileiro veio acompanhada de um fenômeno cultural que passava a ficar em evidência na mídia tradicional: o politicamente incorreto”. A publicação do renomado Roger Scruton e do famigerado Olavo de Carvalho corresponde ao medo e a insegurança da sociedade perante os abalos nos pilares do patriarcado e do colonialismo.

Scruton, autor de Os pensadores da nova esquerda (É Realizações), livro que a revista Veja considerou “uma pedra no sapato da ideologia politicamente correta”, é um polemista de grande influência na formação do conservadorismo contemporâneo. O baluarte britânico começou a publicar nos anos 1970-80, período em que nos Estados Unidos surgia uma nova direita, a qual rompeu com o liberalismo clássico centrado na economia e se aproximou do divisor anticivilizacional do neoliberalismo, baseado em uma Weltanschauung que penetrou a sociedade de consumo e a subjetividade reificada dos indivíduos.

À época, na França, com uma cobertura digna de pop stars na imprensa, André Glucksmann e Bernard-Henri Lévy enxovalhavam os princípios do marxismo, vistos como a antessala do “socialismo real” dos países satélites da ex-URSS. Os ventos tinham trocado de direção. Quando Rudolf Bahro, em L’Alternative (Stock 2), escreveu sobre o abismo que havia entre os fundamentos da “filosofia da práxis” e a realidade na Alemanha oriental fora aplaudido no Ocidente. Em 1959, a sobriedade ainda evitava jogar o bebê com a água suja do banho. Scruton, em duas linhas no total de 334 páginas maçantes, corroborou a metodologia de análise de Bahro: “A estrutura totalitária do governo comunista não é consequência inevitável das concepções marxistas” (p. 310). O lapso, porém, foi um espasmo de lucidez. Não demorou para que abonasse os arroubos dos nouveaux philosophes.

No movimento cultural que mexeu com os alicerces da tradição política, a new right deu as costas aos valores da solidariedade social e se afastou do campo de gravidade da social-democracia europeia. Ver o curso de Michel Foucault sobre o Nascimento da Biopolítica (Collège de France, jan-abr 1979), supramencionado por Pierre Dardot e Christian Laval, em A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal (Boitempo). A direita se convertia em sinônimo da irradiação da razão de mercado. Não surpreende que Scruton tenha participado, em Porto Alegre, da edição de 2019 do Fronteiras do pensamento, evento que reúne anarcocapitalistas, neoliberais e liberais conservadores.

Na provocativa obra, pensadores da modernidade identificados com o arco-íris dos “anjos tortos” foram arremessados ao confuso balaio dos “teóricos marxistas cujas especulações referendam ditaduras (a emblemática Cuba) e regimes tipo a Venezuela chavista”. Na Apresentação informa-se que a mesma pretende cumprir o papel de um “manual de primeiros socorros”, útil para estimular nos jovens os germes da desconfiança até os nomes amiúde “repetidos com uma irrefletida euforia por seus professores”.

A cruzada inquisitorial para combater os ímpios mirou os redivivos “jacobinos”, alguns “broncos e abjetos”, outros “inteligentes” e, pelo menos um, “espécie de gênio”. Decerto, ingênuo. A alusão pareceria recair em Gramsci, reputado pela genialidade por Hobsbawm, Bobbio e Althusser. Mas o escolhido pelo juiz que conduz à danação eterna no inferno, foi o famoso autor de A Náusea, o companheiro de Simone de Beauvoir.

Se os eleitos conseguiram audiência é porque a juventude sessentista / setentista “estava ávida de doutrinação” e queria “em um só gesto, a liberação individual e a justiça social para as massas”. Não incluiu Chomsky no desfile. Este seria “uma pose… uma mentira… manipulou fatos, escondeu tudo que é terrível no comunismo e tudo que merece crédito no país que escolheu para viver (EUA)… ademais, é muito desprovido de teoria para os meus desígnios”. Marcuse foi barrado no baile, já fora desmascarado alhures.

Sobre Foucault, comenta. “O gauchiste partilha da suspeita racionalista contra as instituições humanas e do desprezo pela superstição, mas se distingue por um cinismo… A hostilidade decorre da teoria marxista da história, com sua separação entre superestrutura política e base econômica. O caso mostra como, a hostilidade do radical ao poder, leva também à hostilidade à lei e a uma percepção equivocada das instituições judiciais”. Ça suffit. Que após o bombástico affaire Dreyfus (1894-1905), com flagrante erro judiciário embalado em notório anti-semitismo, se reedite slogans publicitários sobre a imparcialidade da toga é algo que só se explica por uma má-vontade cognitiva. Para ficar somente no lawfare que mobilizou mentes e corações na virada do século 19 ao 20.

Ao abordar Gramsci, acusa a “interminável luta contra o inimigo ‘fascista’ (posto em aspas no texto)”. Interpreta “sua súbita canonização por características do destino”. Mas haveria um outro motivo para a gloriosa distinção, “estabelecer o direito do intelectual (verdadeiro agente da revolução) à ascendência política… ele oferece a completa justificação ao intelectual de esquerda na ânsia por poder”. Quanta argúcia acadêmica.

Sobre Sartre, “talento monumental”, lamenta haver “dado expressão à falsidade esquerdista e à condição perturbadora que a inspira… para uma função religiosa”. Arremata, constrito: “Ler a Crítica da razão dialética é uma experiência cruel. Em lugar nenhum, a divisão da sociedade entre os ‘proletários’ e os ‘burgueses’ é questionada, o mito da ‘luta de classes’, examinado, a teoria da ‘exploração’, condenada”. Sartre “desafia a realidade aprisionante, onde a vida humana e a felicidade são encontradas”. Não obstante, “nenhum pensador é mais autenticamente representativo da intelligentsia pós-guerra que Jean-Paul Sartre”. Ter ganho e recusado o Prêmio Nobel (1964), em literatura, contribuiu na avaliação. É galardão com um enorme reconhecimento desde a criação, nos idos de 1900.

Habermas: “A dificuldade de extrair significado é agravada pela estruturação de seus livros, compostos de capítulos desconexos e argumentos que não são sustentados por mais de um parágrafo… De reputação mundial, nos deve um pensamento original”. Por outro lado, E. P. Thompson, “sentimentalizou o proletariado, foi menos sábio que crédulo. Sua atitude acrítica em face dos próprios sermões repete-se frente ao marxismo”.

Os catorze ícones de esquerda selecionados possuiriam em comum o desejo de “justiça social”, o que os colocaria em “posição moralmente superior”, como membros de uma “seita” ou “religião secular”. Foram pinçados cinco, aqui, para ilustrar o modus operandi do intérprete. O suficiente para uma ideia do estilo de crítica disparada. O padrão se repete no populismo autoritário de extrema-direita, com propensão cesarista no Brasil. Basta evocar os rótulos utilizados por Bolsonaro et caterva acerca das políticas implementadas pelos governos progressistas (2003-2016). Nada é explicitado à luz dos benefícios auferidos pela população. Juízos morais, embebidos em fake news para deglutição nas tóxicas bolhas obscurantistas, substituem o lugar anteriormente ocupado pela política.

A “demagogia” seria a marca das políticas sociais. A pecha de “atentado à liberdade” dos investidores (fazendeiros, garimpeiros) rebate os cuidados com a preservação das terras dos povos originários. O chavão “interferência da política na economia” contesta a denúncia da oposição à vil liquidação a preços irrisórios de largas fatias de empresas, como a Petrobrás, que podem ajudar a regular o crescimento econômico, e por aí vai. A regulação da mídia como acontece em nações com democracias consolidadas é “censura”. Que continue como está, “com todos os defeitos”. O pano de fundo, encardido e nunca lavado e estendido, está no senso comum construído pela mídia comercial controlada pelo capital financeiro, como critério sobre o certo e o errado. A opinião publicada serve de baliza.

O último capítulo do livro-panfleto do fellow da British Academy trata sobre “o que é a direita”. Admite que nas formulações tributárias do marxismo “o conceito de liberdade importa muito – emancipação é, em simultâneo, o propósito individual e a grande causa social”. A seguir, ressalva. “Contudo, a liberdade raramente é analisada, e as instituições necessárias para assegurá-la, mais raramente discutidas”. Cobra imaginação a partir de uma crítica carente de imaginação, avessa às mudanças estruturais e institucionais de uma sociedade de transição. A Constituinte chilena, em curso, ilustra a potência da criatividade popular, com acenos para além da servidão burocrática aos poderosos.

Scruton busca contrastar a direita de modo quixotesco, perseguindo os moinhos que supõe sejam o arcabouço de um establishment alternativo. No tópico sobre “poder e dominação” diz que os metafóricos moinhos querem acabar com os poderes. Errado. Querem ampliar o controle público sobre o Estado por intermédio da democracia participativa. Adiante, refuta a rejeição de qualquer coerção pelo utópico socialismo democrático. Errado. Quem imagina a sociedade ideal sem disposições coercitivas são os que creem nas fetichizadas liberdades hiperindividualistas, endossando o motim alucinado do negacionismo contra o passaporte vacinal e a obrigatoriedade dos imunizantes antivirais na pandemia.

“A nova direita acredita mais em governo responsável do que em governo impessoal, na autonomia e personalidade das instituições, e no Estado de Direito… que não é uma coisa, mas uma pessoa”. Em sua visão antirrepublicana da governança, cabe às leis impedirem a reinvenção do futuro pelos trabalhadores. Na sociedade civil se processaria “a interação de indivíduos contratantes, mediados pelos costumes, a tradição, a autoridade e a lei”. A ação dos sujeitos atomizados é legítima. Enquanto associações coletivas são portadoras de ações, axiomaticamente, ilegítimas. “A atuação coletiva é um perigo”, lê-se. A apregoada “boa sociedade” seria composta por “corporações”. Flexibiliza-se as normas ambientais pelo Estado, uma vez que “a fábrica que polui o rio pode ser compelida a indenizar os que sofreram a poluição”. Restaria rezar pelo autocontrole corporativo.

O mestre da descerimônia encerra a cruzada com anátemas às lutas travadas sob a bandeira da “justiça social”, pois conflituam com a “natureza humana”. Zomba da esperança na “libertação, democracia, igualdade e paz”. Tal é uma ilusão, “óbvia para aqueles que não sucumbiram à tentação ideológica de esquerda”. A seguir, confessa, sem arrependimento. “Fui levado com frequência em minha exasperação a me equivocar na polidez literária. Mas e daí? Polidez é nada mais que uma virtude ‘burguesa’, um pálido reflexo do ‘Estado de Direito’ que é a garantia da dominação burguesa. Ao confrontar a esquerda, alguém se confronta não com um oponente, mas com um inimigo autodeclarado”.

Scruton pavimenta a ponte para o neoliberalismo e o neofascismo, ao som da marcha fúnebre. A citação de Platão, retirada d’As Leis e colada ao final, funciona como um apelo à violência que assassinou Marielle e Moïse. “Devemos ser virulentos e revoltosos com os responsáveis por deitar sobre nós o fardo da discussão”. Ops, como?! Fardo da discussão?! No Estado de Direito Democrático?! Com imposição autoritária do silêncio à comunicação argumentativa, que pela persuasão da palavra civiliza a política?! Reprimindo o exercício da cidadania ativa que deseja construir uma sociabilidade dialógica?!

Melhor se citasse a poética identitária de Waldick Soriano: “Eu não sou cachorro, não / Para ser tão humilhado / Eu não sou cachorro, não / Para ser tão desprezado”. O cão não merece. Mas não foi o cão que inventou o ódio nos think tanks da nova direita. Olavo de Carvalho, ao propor ao fanático séquito a desqualificação dos interlocutores à gauche, sem a comedida preocupação para argumentar de forma racional e educada, – não destampou a intolerância. Apenas acrescentou, às insanidades, a linguagem chula e os palavrões. V.T.C. é a sua contribuição à verve conservadorista. Na lápide do homem de Virgínia poderia constar o epitáfio brechtiano: “Ele era outra pessoa / de todo diferente de nós”.

*Luiz Marques é professor de ciência política na UFRGS. Foi secretário estadual de cultura do Rio Grande do Sul no governo Olívio Dutra.