Acate o incêndio, homem de bem!

Imagem: Anselmo Pessoa
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por MANUEL DOMINGOS NETO*

Mais que nostálgicos da Guerra Fria, os garantidores da Lei e da Ordem do Brasil são vidrados mesmo é no tempo colonial

Alguns trataram o general Augusto Heleno como senil e imbecil por ter dito que a ABIN (Agência Brasileira de Inteligência) teria como missão espionar “maus brasileiros”. A Lei 9.983/99 designa como missão desta Agência obter informações sobre ameaças internas e externas à ordem constitucional. As ameaças não estão claramente definidas, e o que sempre prevalece é a percepção dos próprios agentes. Os organismos legalmente destinados à preservação da Segurança definem o que constitui ameaça.

Movimentos sociais, ONGs, partidos políticos, parlamentares, militantes sindicais, anti-racistas e variados atores que se destacam na denúncia de injustiças sempre foram tratados como inimigos por instituições encarregadas de velar pela ordem e pela segurança do Estado.

Os governantes eleitos democraticamente contiveram arroubos na atuação destas instituições, sendo a principal delas o Exército. Mas não lograram mudar os valores que orientam a atuação destes organismos acerca do que presta ou não presta na sociedade brasileira.

Centrar fogo num homem que, pela idade, pode estar perdendo a autocensura, é contraproducente ou inócuo. Serve para encobrir a realidade. De que adianta estigmatizar solitariamente o general-ministro e substituí-lo por alguém mais comedido nas palavras, de gestos menos grosseiros, mas com a mesma percepção escabrosa e o mesmo gosto de sangue na boca?

Excetuadas as nuances, Heleno traduziu sinceramente o que pensam o presidente da República, os comandantes militares, os chefes policiais e as forças de sustentação do governo.

Categorias como “bons” e “maus” brasileiros integram a forma como as instituições de segurança sempre perceberam a sociedade. Os que contestam a ordem socioeconômica e política estariam na lista dos “maus”, devendo, quando possível, ser silenciados ou eliminados pelo bem da pátria, pensam os integrantes destas instituições.

Não cabe esquecer: o Exército ainda não se desapegou da mentalidade que justificou a matança de cabanos, balaios, farrapos…  Depois da Proclamação da República, matou mais de dez mil brasileiros que contestavam no sertão baiano. Nunca teve a coragem de dizer “errei”. Nem a grandeza de um pedido de desculpa. Pelo contrário, homenageia os que comandaram as chacinas e maldiz os desobedientes. Em Canudos, eram homens, mulheres e crianças levados a pegar em armas para se defender da besta-fera.

Lutar pela superação do legado de atrocidades do período colonial persiste sendo ameaça à segurança do Estado. Acate as iniquidades e serás homem de bem, alegam os que hoje mandam no Brasil.

São legítimos herdeiros da racionalidade do frei italiano André João Antonil, que morreu em 1716, em Salvador, depois de escrever um longo tratado sobre  como o colonizador devia explorar as florestas, o campo, as minas e o povo. Seu dito mais famoso é o de que nativos e africanos precisavam ser tratados com pão, pau e pano.

Mais que nostálgicos da Guerra Fria, os garantidores da Lei e da Ordem do Brasil são vidrados mesmo é no tempo colonial.

*Manuel Domingos Neto é professor aposentado da UFC. Foi presidente da Associação Brasileira de Estudos de Defesa (ABED) e vice-presidente do CNPq.

Veja neste link todos artigos de

10 MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

__________________
  • Franz Kafka, espírito libertárioFranz Kafka, espírito libertário 13/06/2024 Por MICHAEL LÖWY: Notas por ocasião do centenário da morte do escritor tcheco
  • A sociedade da história mortasala de aula parecida com a da história usp 16/06/2024 Por ANTONIO SIMPLICIO DE ALMEIDA NETO: A disciplina de história foi inserida numa área genérica chamada de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas e, por fim, desapareceu no ralo curricular
  • Sobre a ignorância artificialEugenio Bucci 15/06/2024 Por EUGÊNIO BUCCI: Hoje, a ignorância não é uma casa inabitada, desprovida de ideias, mas uma edificação repleta de baboseiras desarticuladas, uma gosma de densidade pesada que ocupa todos os espaços
  • Um olhar sobre a greve das federais de 2024lula haddad 20/06/2024 Por IAEL DE SOUZA: Com alguns meses de governo, comprovou-se o estelionato eleitoral de Lula, acompanhado do seu “fiel escudeiro”, o Ministro da Fazenda, Fernando Haddad
  • Carta ao presidenteLula 59mk,g 18/06/2024 Por FRANCISCO ALVES, JOÃO DOS REIS SILVA JÚNIOR & VALDEMAR SGUISSARDI: “Concordamos plenamente com V. Exa. quando afirma e reafirma que ‘Educação é investimento, não é gasto’”
  • Retomar o caminho da esperançafim de tarde 21/06/2024 Por JUAREZ GUIMARÃES & MARILANE TEIXEIRA: Cinco iniciativas que podem permitir às esquerdas e centro-esquerdas brasileiras retomarem o diálogo com a esperança majoritária dos brasileiros
  • Chico Buarque, 80 anoschico 19/06/2024 Por ROGÉRIO RUFINO DE OLIVEIRA: A luta de classes, universal, particulariza-se no requinte da intenção construtiva, na tônica de proparoxítonas proletárias
  • Por que estamos em greve?estátua 50g 20/06/2024 Por SERGIO STOCO: Chegamos a uma situação de penúria das instituições de ensino federal
  • Manual teológico do neopentecostalismo neoliberaljesus salva 22/06/2024 Por LEONARDO SACRAMENTO: A teologia transformou-se em coaching ou fomentador da disputa entre trabalhadores no mundo do trabalho
  • O colapso do sionismopalestina livre 80 23/06/2024 Por ILAN PAPPÉ: Quer as pessoas acolham a ideia ou a temam, o colapso de Israel tornou-se previsível. Esta possibilidade deve informar a conversa de longo prazo sobre o futuro da região

AUTORES

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES