O manejo das emoções

Imagem: Plato Terentev
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por ALEXANDRE ARAGÃO DE ALBUQUERQUE*

Os EUA hipostasiam, simultaneamente, nos corações e mentes de grande parte das populações ocidentais, a paternidade e a divindade

Para a constituição e manutenção de Estados autoritários, o fator emotivo é determinante na condução da manipulação da psicologia das massas. A habilidade em manejar as emoções dos indivíduos e grupos, principalmente pelos meios de comunicação social, a deformação de argumentações objetivas, por meio das quais o pensamento humano pode apoderar-se da realidade factual para interpretá-la e compreendê-la, torna-se a tática utilizada por estes Estados ao prescindem da reflexão em torno dos contextos e das causas que os provocam – econômicas, políticas, históricas – para apontar apenas o “objetivo final” de suas ações com o intuito de justificá-las e torná-las referendadas pelas populações.

Portanto, o manejo das emoções humanas requer ensinamento e propaganda, fortes e constantes, que vão desde a primeira infância até a idade mais madura. Nisto, por exemplo, os preceitos religiosos ocupam um lugar de destaque neste quadro de formação de consciências à medida que incutem na gênese do pensamento da criança conceitos que lhes são determinantes, como é o conceito do pecado. Uma criança que não respeita o pai comete pecado; ou então, um adolescente que reconditamente pratique a masturbação, comete pecado, porque Deus vê tudo. Ou seja, a figura do pai se apresenta como alguém inquestionável ao qual se deve obediência. E do olhar atento onipresente de Deus ninguém consegue se esquivar. Quem comete tais deslizes é considerado pecador.

O slogan “Brasil acima de tudo” (hipostasiando a figura paterna), umbilicalmente associado ao seu complemento indivisível “Deus acima de todos”, faces de uma mesma medalha, foi construído pelo grupo civil-militar que tomou o poder, com o Golpe híbrido de 2016, como sendo a síntese programática para a manipulação ideológica de corações e mentes brasileiras visando à construção de um Estado autoritário, destruidor de grande parte dos valores, dos direitos e das instituições democráticas em vigor no Brasil, desde a promulgação da Constituição de 1988, cujo aprimoramento estava se desenvolvendo de forma dinâmica e exemplar no período dos governos Lula (2003-2010) e Dilma (2011-2016).

Com o golpe civil-militar, a classe dominante interrompeu o processo democrático brasileiro, por meio de uma forte propaganda moralista e fundamentalista, apoiado no discurso de ódio e intolerância para com “os pecadores” que dele discordem. Disso procede o mantra, nos templos e nos quartéis, para identificar Bolsonaro como um ungido de deus, um novo Messias. E desta orquestração propagandística decorre a construção mitológica do episódio da facada, amplamente questionado em diversos espaços do pensamento crítico.

Caso semelhante de manipulação ideológica vamos encontrar na condução propagandística pelo poder estadunidense mundial em relação à guerra que está sendo travada na Ucrânia, apesar de ser uma guerra da OTAN, subjugada pelos EUA, contra a soberania do Estado russo.

Duas questões gostaríamos de evidenciar no presente artigo. Primeiramente diz respeito às sanções econômicas desferidas pelos EUA contra aquelas nações que deles discordam (nações consideradas pecadoras). Em fevereiro, Joe Biden, presidente norte-americano, assinou uma ordem executiva confiscando US$7 bilhões (sete bilhões de dólares) em ativos detidos pelo Banco Central afegão em instituições financeiras dos EUA. Além disso, Biden apreendeu US$3,5 bilhões (três bilhões e meio de dólares) que seriam utilizados para ajuda humanitária ao Afeganistão. A guerra econômica deflagrada por Joe Biden, como presidente dos EUA, significa, no caso afegão, que cerca de um milhão de crianças afegãs correm sério risco de morrer pela desnutrição. Tudo isso depois de uma invasão devastadora dos EUA que durou 20 anos. O que Biden faz ao ordenar mais esta sanção econômica é condenar um enorme número de afegãos inocentes a uma morte cruel e lenta por fome. Se isso não for crime de guerra, o que será? Por onde andam os meios de comunicação para denunciar, por meio de uma cobertura intensa e contínua, esse crime de guerra estadunidense?

Em segundo lugar reportamo-nos ao episódio envolvendo o depoimento da subsecretária de Estado dos EUA, a neoconservadora Victoria Nuland (aquela senhora filmada pelas mídias sociais distribuindo comida na Praça Maidan, na Ucrânia, em 2014), perante o Comitê de Relações Exteriores do Senado daquele país, em 08 de março deste ano. Em resposta ao senador republicano Marco Rubio, que com sua pergunta – “A Ucrânia tem armas químicas ou biológicas?” – esperava por um fim às crescentes alegações da existência de laboratórios de armas químicas na Ucrânia, financiados e coordenados pelos EUA, Nuland respondeu: “A Ucrânia tem instalações de pesquisa biológica”. E rapidamente acrescentou: “Estamos trabalhando com os ucranianos para impedir que quaisquer desses materiais de pesquisa caiam nas mãos das forças russas”.

Portanto, a admissão de Victoria Nuland de que a Ucrânia possui instalações de pesquisas biológicas, perigosas o suficiente para justificar a preocupação de que possam cair nas mãos dos russos, vem desnudar o cinismo estadunidense de acusar o Iraque de desenvolver tais pesquisas, o que justificou a invasão e destruição daquele país por George W. Bush, quando na verdade quem desenvolve e coordena pesquisa de armas biológicas são os EUA.

O Ministério das Relações Exteriores da China já havia afirmado que “os EUA têm 336 laboratórios de pesquisa de armas biológicas em 30 países sob o seu controle, incluindo apenas 26 na Ucrânia”. Da mesma forma o Ministério das Relações Exteriores da Rússia afirmou que “estão de posse de documentos provando a existência de laboratórios biológicos na Ucrânia, trabalhando no desenvolvimento de componentes de armas biológicas, localizados perto das fronteiras com a Rússia”.

Pergunta-se: o que as mídias ocidentais fizeram e fazem diante de pecados tão devastadores? Calam-se, omitem-se. Ao mesmo tempo em que nenhuma nação do mundo invadiu os EUA por desenvolverem tais armamentos letais para a humanidade. Os EUA hipostasiam, simultaneamente, nos corações e mentes de grande parte das populações ocidentais, a paternidade e a divindade. Consequentemente, para estes corações e mentes, os EUA são puros, não cometem pecados.

*Alexandre Aragão de Albuquerque é mestre em Políticas públicas e sociedade pela Universidade Estadual do Ceará (UECE).

 

Veja neste link todos artigos de

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Yuri Martins-Fontes João Adolfo Hansen Everaldo de Oliveira Andrade Luiz Carlos Bresser-Pereira Heraldo Campos Paulo Martins Luiz Eduardo Soares Celso Frederico Ricardo Musse Ari Marcelo Solon Kátia Gerab Baggio Otaviano Helene Boaventura de Sousa Santos Juarez Guimarães Marilia Pacheco Fiorillo Matheus Silveira de Souza Paulo Nogueira Batista Jr Alysson Leandro Mascaro João Lanari Bo Gerson Almeida José Raimundo Trindade Salem Nasser Anselm Jappe Elias Jabbour Antonio Martins Eugênio Bucci Leda Maria Paulani Lucas Fiaschetti Estevez Marjorie C. Marona Igor Felippe Santos Rubens Pinto Lyra Michael Löwy Alexandre Aragão de Albuquerque Manchetômetro Luiz Werneck Vianna Bruno Fabricio Alcebino da Silva Afrânio Catani Marcos Aurélio da Silva Samuel Kilsztajn Sergio Amadeu da Silveira José Machado Moita Neto Flávio Aguiar João Carlos Salles Henri Acselrad José Geraldo Couto Atilio A. Boron Tales Ab'Sáber Luiz Marques Osvaldo Coggiola João Sette Whitaker Ferreira João Carlos Loebens Julian Rodrigues Claudio Katz Valerio Arcary Luís Fernando Vitagliano Andrew Korybko Luciano Nascimento Armando Boito Vladimir Safatle Francisco Fernandes Ladeira Tarso Genro Chico Alencar Dennis Oliveira Denilson Cordeiro Jorge Luiz Souto Maior Bruno Machado Ladislau Dowbor Michael Roberts Rodrigo de Faria João Paulo Ayub Fonseca Jean Pierre Chauvin Rafael R. Ioris Paulo Fernandes Silveira Gilberto Lopes Daniel Afonso da Silva Eleutério F. S. Prado Luis Felipe Miguel Fernão Pessoa Ramos Érico Andrade Alexandre de Freitas Barbosa José Micaelson Lacerda Morais Fábio Konder Comparato Priscila Figueiredo José Dirceu Manuel Domingos Neto Marcelo Guimarães Lima André Singer Francisco Pereira de Farias Berenice Bento Michel Goulart da Silva Lorenzo Vitral Andrés del Río Annateresa Fabris Vanderlei Tenório Fernando Nogueira da Costa Remy José Fontana Plínio de Arruda Sampaio Jr. Ronald León Núñez Anderson Alves Esteves Sandra Bitencourt Slavoj Žižek Francisco de Oliveira Barros Júnior Jorge Branco Jean Marc Von Der Weid João Feres Júnior Leonardo Sacramento Leonardo Avritzer Henry Burnett José Luís Fiori Walnice Nogueira Galvão Maria Rita Kehl Vinício Carrilho Martinez Ronaldo Tadeu de Souza Milton Pinheiro Paulo Sérgio Pinheiro Luiz Roberto Alves Ricardo Fabbrini Liszt Vieira Mário Maestri Carlos Tautz Carla Teixeira Marcelo Módolo Tadeu Valadares Ricardo Antunes André Márcio Neves Soares Flávio R. Kothe Marcos Silva Airton Paschoa Luiz Renato Martins Bento Prado Jr. Eleonora Albano Daniel Costa Antônio Sales Rios Neto Antonino Infranca Celso Favaretto Gilberto Maringoni Lincoln Secco Benicio Viero Schmidt Eugênio Trivinho Alexandre de Lima Castro Tranjan Eliziário Andrade Bernardo Ricupero Daniel Brazil Leonardo Boff Renato Dagnino Paulo Capel Narvai Chico Whitaker Caio Bugiato Luiz Bernardo Pericás Thomas Piketty Gabriel Cohn Eduardo Borges Ricardo Abramovay Ronald Rocha Marcus Ianoni Marilena Chauí José Costa Júnior Valerio Arcary Mariarosaria Fabris Dênis de Moraes

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada