Por REMY J. FONTANA*
Apresentação de um dos autores do livro recém-lançado
1.
É quase inescapável que ao avançarmos em idade passemos a contemplar a paisagem humana ao nosso redor – sobretudo a de amigos e companheiros – e a constatar, com certa surpresa e talvez perplexidade, as inúmeras ausências: ausências definitivas daqueles que já partiram.
A morte dos que nos são caros se impõe como experiência recorrente, vivida aos poucos, na intermitência dos anos. Perdemos um aqui, outro ali, e vamos elaborando lentamente esses afetos, até que os vestígios dessas vidas se convertam em memórias mais ou menos cultivadas: ainda capazes de mobilizar emoções, despertar sentimentos ou, por fim, repousar no oblivion.
Essa percepção, contudo, sofre uma inflexão decisiva quando deixamos de considerar essas vidas isoladamente e passamos a vê-las como um conjunto – quando o número já não é de poucos, mas de dezenas, muitas dezenas. Nesse ponto, o luto deixa de ser apenas um afeto privado e se transforma numa espécie de espelho existencial.
O desaparecimento de um conjunto expressivo de vidas revela que não estamos apenas testemunhando mortes alheias: estamos assistindo ao desvanecimento de uma época, de um círculo de sentido, de pontos de referência, de uma constelação humana da qual também fazemos parte.
Quando essa constatação se impõe com a clareza de uma evidência irrevogável, insinua-se uma questão inquietante: o que nos diz, sobre nós mesmos, o fato de sobrevivermos aos nossos mortos?
Ao longo dos anos, meu parceiro nesta publicação, Nelson Wedekin, e eu nos habituamos a escrever notas e pequenos artigos – alguns publicados – sobre a morte de amigos e companheiros de jornada. Majoritariamente, tratava-se de pessoas de perfil político progressista, militantes de esquerda, lutadores sociais; a estes se somaram amigos de outras esferas da vida, cidadãos comuns, mas que nos foram significativos em diferentes dimensões de nossa existência pessoal, social, profissional ou cultural.
A ideia de reunir esses escritos numa única publicação acabou por se impor à medida que avançava, de forma inexorável, a lista dos que encerravam suas vidas neste mundo.
2.
O que escrevemos não são biografias nem registros sistemáticos de trajetórias. São, antes, crônicas do encontro: relatos de relações vividas, apontamentos sobre momentos compartilhados, fragmentos de uma convivência que se estendeu por anos, por décadas. No entanto, esses textos não se esgotam no plano estritamente pessoal. Ao falarmos de pessoas, falamos também de seu tempo – da atmosfera cultural, das conjunturas políticas, das condições sociais que circunscreveram seus passos, seus projetos, suas escolhas, suas vidas.
Estamos, assim, diante de uma realidade já vivida pelos que partiram, mas que adquire maior sentido quando reconhecemos sua imbricação com a nossa própria experiência presente. Essa conexão entre passado e presente nos convoca – ou mesmo nos exige – a não perder de vista os tempos em que vivemos, a nos situarmos diante deles e a projetá-los num horizonte mais amplo de compreensão.
Implica atravessar tempos inquietantes, que ora nos surpreendem, ora nos abismam; ora nos maravilham, ora nos enchem de horror. Tribulações que nos convidam ao exercício de um discernimento tão exigente quanto necessário, ainda que sempre aquém de uma compreensão plenamente adequada de uma realidade que se revela, não raro, trágica ou farsesca.
Com estes escritos sobre os que partiram, fazemos um convite aos leitores: que pensem em suas próprias vidas e na vida comum; no tempo que nos carrega veloz; no valor da amizade; na fugacidade da existência, mas também na possibilidade de transfiguração da alma; no que nos singulariza como indivíduos e no que nos agrega como membros de uma comunidade; no que nos diferencia por temperamento, interesses e preferências, mas também no que nos aproxima por projetos, sonhos e responsabilidades compartilhadas.
É diante dos amigos, companheiros e parentes que já nos deixaram que assumimos o desafio de produzir um livro que honrasse suas memórias e consignasse, para a posteridade, o reconhecimento agradecido que lhes tributamos. Ao menos por alguns momentos, convidamos os leitores a se desprenderem tanto das agruras cotidianas – por mais inquietantes que sejam – quanto dos males do país – por mais indignantes que se apresentem – e mesmo das ameaças de hecatombe planetária – por mais alarmantes que se tornem.
Como observa nosso prefaciador, Armando Lisboa, o resgate das memórias condensadas e celebradas neste livro não nos arrasta para o passado: constitui, antes, uma promessa catalisadora e propulsora do futuro.
Há textos que são apenas memória; estes, não pretendemos que o sejam. São, antes, formas de reencontro – e, talvez, de reparação. Aqui, a memória não é nostalgia: é ética. Ela nos obriga a manter vivo aquilo que o tempo tenta dissolver. Há, nesse gesto de lembrar, algo de resistência – como se cada nome recuperado fosse uma forma de afirmar que o esquecimento não venceu.
*Remy J. Fontana, sociólogo, é professor aposentado da UFSC. Autor, entre outros livros, de Da esplêndida amargura à esperança militante – ensaios políticos, culturais e ocasionais (Ed. Insular). [https://amzn.to/3O42FaK]
Referência

Remy J. Fontana e Nelson Wedekin. Aqueles que perdemos: retratos de memória e presença. Florianópolis, Editora Insular, 2025.






















